Diretor estreante faz sensível retrato da guerra em O Mensageiro
Por: Priscila Armani, em Cinema, Review | Nenhum comentário

Sem mostrar uma única gota de sangue, Oren Moverman consegue nos fazer sentir toda a tortura pela qual passam os ex-combatentes.
Oren Moverman fez uma estreia feliz no Cinema. Logo com seu primeiro filme como diretor, O Mensageiro, foi indicado a dois Oscars. Um deles devido à qualidade do trabalho que já exerce há mais tempo, o de roteirista. Dos quatro roteiros que já escreveu, merece destaque o de Não Estou Lá, de 2007, cinebiografia de Bob Dylan na qual seis atores encarnaram o músico em diferentes fases de sua vida.
Com O Mensageiro, Moverman mostra enorme talento na forma que escolhe para contar a história de Will Montgomery (Ben Foster), um soldado modelo que, depois de quase morrer em batalha no Iraque, é deslocado para uma unidade burocrática do exército nos Estados Unidos para terminar de cumprir a salvo seu tempo de serviço. Ele é chamado para trabalhar juntamente com o Capitão Tony Stone (Woody Harrelson, indicado ao Oscar de Melho Ator Coadjuvante pelo papel) numa missão muito peculiar: os dois são encarregados de dar a notícia da morte dos soldados em guerra a seus familiares.
Stone já é um especialista no assunto e criou até mesmo um "script" para lidar com as pessoas em seu momento de dor mais extremo. Desde o princípio, ele é bastante enfático ao ensinar pro novato como lidar com a situação. Ele enfatiza bem a ordem de se evitar contato físico com os parentes das vítimas e não usar certas expressões para tratar da morte como "ele não está mais entre nós". Naturalmente, apesar de todas as orientações, Montgomery não se sente confortável na nova função. Até o irritante barulhinho de seu pager se esforça por explicitar isso.
Como todo soldado que volta da guerra, o protagonista reflete muito a respeito da vida e da morte, a ponto de quase enlouquecer. O filme mostra isso de maneira bastante clara, tanto em seus aspectos técnicos quanto no desenvolvimento de seu enredo. É uma obra que prioriza os diálogos e expõe sua narrativa de maneira lenta, estudada. Num contraponto bastante interessante a Guerra ao Terror, filme que lhe é contemporâneo e também se relaciona com a guerra do Iraque, O Mensageiro não possui cenas de ação ou explosões. O que importa a Moverman é o que se passa na mente e nos corações dos soldados que conseguem sobreviver. Nós não vemos o campo de batalha na tela, apenas a luta pelo retorno à normalidade.
Para retratar esse sentimento de maneira cinematográfica, a principal arma que o escritor israelense usa é a câmera, como um instrumento para nos aproximar dos protagonistas da história. Já no princípio do filme, no bar, os dois oficiais conversam e temos três ângulos, bem próximos de seus rostos. O primeiro mostra Foster em close bem fechado, com o fundo atrás dele desfocado. O segundo traz Harrelson, exatamente na mesma situação. O terceiro enquadra os dois ao mesmo tempo, de lado, conversando, mas ainda num foco mais fechado. Esses enquadramentos irão se repetir ao longo de todo o filme, sempre bem concentrados nos rostos dos atores. Isso faz com que sempre sintamos, com mais intensidade, as emoções dos atores e não deixemos de captar suas expressões.
E nos momentos em que um ângulo mais aberto é necessário à cena, o diretor faz algo bem interessante. Ele inicia a ação focado num ponto determinado, normalmente o rosto de um dos personagens, e vai abrindo lentamente, até enquadrar toda a informação necessária à compreensão do público. Diversas vezes durante a projeção isso é feito, sendo em menor número as sequências que já se iniciam com enquadramentos mais abertos, que abrangem toda a informação disponível na paisagem ou nos cômodos. O Mensageiro é um filme de close-ups, de cenas internas e reflexivas, de exercícios interessantes e intrigantes como, por exemplo, conseguir filmar os dois oficiais se arrumando ao lado das janelas do automóvel sem que a câmera apareça em cena ou pegar, do lado de fora do veículo em movimento, pelo pára-brisa, uma imagem deles conversando ou um close, pelo retrovisor, do rosto de Foster.
Além dos dois atores já citados, vale a pena prestar atenção nas atuações de Steve Buscemi (Lembram do Mr. Pink de Tarantino?) como Dale Martin e Samantha Morton (indicada duas vezes ao Oscar: Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Atriz) como Olivia Pitterson. Ele interpreta um pai que recebe a notícia da morte do filho de maneira muito triste e emocionante, sendo responsável por uma breve, mas bela sequência do filme. Já Morton é uma viúva que tem dificuldades em lidar com a morte do marido e acaba criando um elo com o soldado Montgomery depois que este lhe dá as más notícias. Cada um a seu modo, os dois personagens estão de luto, mas um deles não sabe. E essa dor em comum também marca de maneira muito bonita a obra.
Destaque para os créditos finais, nos quais é montado um painel de nomes que ocupa toda a tela, numa grande dedicatória a uma série de pessoas queridas de todo o elenco e equipe técnica do filme.
Moverman construiu um retrato sensível da tortura psicológica que é a guerra para os seus participantes. Através dessa obra, ele faz duras críticas aos estereótipos que esse conflito carrega (especialmente na sequência do estacionamento, quando os soldados "brincam" de luta e na cena em que Montgomery explica ao Capitão sobre o conceito de herói que lhe atribuem) e abre nossos olhos para a dura realidade. Essa violência não tem vencedores. Valerá a pena colocar tanto a perder por tão pouco, principalmente no caso do conflito iraquiano? É essa a reflexão que O Mensageiro nos propõe.
detalhes
O Mensageiro
Dirigido por Oren Moverman (1h 52 min)
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Assuntos relacionados: Ben Foster, O Mensageiro, Oren Moverman, The Messenger, Woody Harrelson
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