• A emoção toma conta da tela em Preciosa – Uma História de Esperança

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    Impossível sair indiferente depois de uma sessão desse filme.

    Preciosa – Uma História de Esperança marca presença nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira. O filme, indicado a seis premiações no Oscar 2010, é dirigido por Lee Daniels, o primeiro produtor negro a bancar, sozinho, um filme vencedor de dois Oscar, Monster’s Ball, em 2002. Esse é o segundo filme de sua carreira na direção, antecedido apenas por Shadowboxer.

    Já nos créditos iniciais, Daniels nos introduz ao mundo da personagem principal: a letra é um garrancho incompreensível e tem tudo a ver com a temática do filme. A frase inicial também, que ensina: “Tudo é um presente do universo”, citação do autor norte-americano Keyes Jr. Ken.

    Preciosa conta a história de Clareece Precious Jones (Gabourey Sidibe), uma jovem de 17 anos cuja realidade é semelhante à de muitas garotas, pobres ou ricas, em todo o mundo. A história se passa em 1987, no bairro Harlem, em Nova York, que é ainda hoje um dos mais pobres e violentos dos Estados Unidos. Clarice é negra e obesa e sofre preconceito dos colegas de escola, além de sofrer maus tratos por parte da mãe e do pai, o que resulta, inevitavelmente, em baixa estima, medo e sofrimento. Para atenuar sua triste realidade, ela recorre a sonhos e fantasias, em que se imagina como cantora, estrela de cinema ou símbolo sexual.

    O filme denuncia e aborda diversas temáticas, especialmente a violência contra a mulher, contra a criança e o preconceito contra o negro e o gordo na sociedade contemporânea. Isso fica bem claro durante toda a projeção, mas especialmente naquelas cenas em que a protagonista se olha no espelho e vê uma jovem loura, de cabelos longos e magra. Também há outro momento em que ela devaneia: “às vezes gostaria de estar morta”. Impossível ficar indiferente a seu sofrimento.

    A trilha sonora é excelente, com músicas Gospel, Funk e Rhythm and Blues, dando o clima certo para o desenrolar da trama. O trabalho de câmera é aparentemente simples, porém muito bem planejado. Ela acompanha os personagens e se move junto com eles, além de transmitir para o público, através de seus movimentos, o que eles estão sentindo. Além disso, elas também induzem sensações no espectador, sejam de tensão, de incômodo ou até mesmo para atenuar a força de certas cenas. Tudo isso condiz com o objetivo da obra de emocionar, denunciar e chocar o público, até mesmo de deixá-lo revoltado. Mas em momento algum o diretor quer aterrorizar quem está assistindo. Há sempre uma busca pelo equilíbrio.

    Em certas sequencias isso fica bastante evidente. Num dos momentos mais fortes, quando Mary (Mo’Nique), a mãe de Precious, começa a confrontá-la num encontro acompanhado pela assistente social Mrs. Weiss (Mariah Carey), a câmera se mexe, nervosa como a personagem, dá um close nas mãos dela, causando no público uma reação de apreensão. Em outro momento, Precious sobe lenta e dolorosamente uma escada, seus pés são mostrados e seu rosto reflete o medo que sente e que, através da tensão da cena, nós também somos levados a sentir.

    Ainda falando sobre o jeito de filmar de Daniels, merecem destaque a bela elipse que ele realiza com a protagonista, quando a câmera gira em torno dela e mostra o conhecimento que ela está adquirindo; os cortes rápidos em uma cena de briga particularmente importante, que fazem toda a diferença; e o uso inteligente do slow motion, para atenuar o baque de cenas violentas e ressaltar certos momentos da trama.

    As sequencias de sonho da personagem funcionam bem em boa parte da obra, pecando pouco pelo excesso. Ainda assim, isso acontece. Quando Precious recebe uma impactante revelação, por exemplo, o corte abrupto para uma fantasiosa sessão de fotos acaba sendo exagerado e inverossímil, sendo difícil para o público acreditar que, justo naquela situação chave, ela fantasiaria ser uma modelo famosa. Ao mesmo tempo, o choque da notícia é tão grande que, levando em conta o contexto, faz sentido que ela busque uma válvula de escape. Apesar disso, não é algo que o espectador absorve bem e nitidamente incomoda.  

    Não podem deixar de ser destacadas as atuações excepcionais de Mo’Nique e da estreante Gabourey Sidibe, indicadas respectivamente aos Oscar de melhor atriz coadjuvante e melhor atriz deste ano. Elas estão impecáveis. E as participações especiais de Lenny Kravitz e Mariah Carey surpreendem, mostrando que um bom trabalho na direção de atores faz toda a diferença. Mariah, principalmente, está quase irreconhecível, com uma personagem sóbria e séria, que destoa bastante de sua usual postura de cantora. 

    Preciosa trata da ignorância humana, da intolerância contra as diferenças e faz graves denúncias contra políticas assistencialistas do governo. Mas apesar de ser um retrato nu e cru da realidade que a população de baixa renda enfrenta, também tem seus momentos alegres e uma mensagem muito positiva: apesar de todas as dificuldades, sonhar é sempre permitido. E a imaginação é uma poderosa mola propulsora do ser humano. 

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    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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