• Eastwood nos traz as emoções do rugby em Invictus

    invictus

    Filme tem por objetivo mostrar o poder que o esporte possui de unir as pessoas.

    Não há dúvidas de que Clint Eastwood conseguiu algo que poucos em Hollywood podem se vangloriar de ter feito semelhante: estabelecer uma sólida carreira de ator e diretor. Começou a ficar famoso mundialmente a após interpretar o misterioso homem sem nome na trilogia dos dólares de Sergio Leone, na década de 60. De lá pra cá, fez muitos anti-heróis e homens durões. Até se arriscar a ir para detrás das câmeras, na década de 70. Alguns de seus filmes mais recentes e mais bem sucedidos são: Sobre Meninos e Lobos (2003), Menina de Ouro (2004), A Conquista da Honra (2006) e Cartas de Iwo Jima (2006). Isso só para citar alguns títulos. E se compararmos estas quatro obras com Invictus, seu trabalho de direção mais recente, descobriremos o que o diretor mais gosta: emocionar o espectador. 

    Sim, Invictus é um filme que traz muitos clichês esportivos. Todo aquele mote da "partida que precisa ser ganha" está lá. A multidão gritando de fúria ou de alegria. A contagem dos pontos no placar. A dor e o sofrimento para se chegar até o topo. A equipe fracassada que dá a volta por cima. Você já viu esse filme antes. A diferença está, claramente, nos detalhes peculiares da história e no olho clínico do experiente diretor.

    Inspirada em fatos reais e no livro Playing The Enemy, de John Carlin, a obra se inicia mostrando a libertação de Nelson Mandela, em 11 de fevereiro de 1990, depois de 26 anos preso. Depois, o vemos ser eleito a presidente da África do Sul e presenciamos a comemoração do povo desse país contra o fim do apartheid. Ele chega ao escritório no seu primeiro dia de trabalho. E temos os primeiros contatos com a sua singular personalidade. Em seguida, o filme mostra seus esforços no sentido de unificar um país totalmente dividido pelo racismo. E ele percebe, logo de cara, o potencial do rugby e de François Pienaar (Matt Damon) como instrumentos importantes nesse sentido.

    E da-lhe close-ups dos personagens e câmeras no campo, junto com os jogadores, para arrancar do espectador seus sentimentos mais primitivos. Em Invictus, Eastwood filma todas as ações sempre de muito perto. São raras as vezes em que ele usa um plano mais amplo, e sempre há um bom motivo para isso, como, por exemplo, para mostrar o estádio lotado de torcedores ou crianças em um campo de terra ovacionando um ônibus. Fora esses momentos, vemos os personagens da cintura para cima e em close em boa parte da projeção.

    Isso favorece Freeman, sempre muito expressivo e que interpreta com bastante desenvoltura o líder sul-africano. Já Damon precisa se esforçar bastante para nos passar mais do que músculos pela tela. Ainda assim, ele tem seus bons momentos quando, por exemplo, entra na cela na qual Mandela ficou preso, fecha a porta e abre os braços dentro dela. Depois dessa cena, é inevitável para qualquer pessoa ficar imaginando, assim como o personagem dele ficou, o que foi passar quase 30 anos num cubículo daqueles. A partir dessa cena específica, acredito que deva ter surgido a indicação ao Oscar 2010 de melhor ator coadjuvante. 

    Eastwood também nos passa um pequeno ‘susto’ já nos primeiros minutos de projeção. O público vê imagens da época, granuladas ao estilo documental. E, ao invés de Mandela, surge Morgan Freeman. Ele já é o personagem histórico desde o princípio. E ele será Mandela em cada momento de sua atuação: no sorriso, no jeito de falar com um certo sotaque carregado, no jeito de andar. Além do fato de Freeman ser um ator muito bom, podemos creditar seu esforço nesse papel a uma certa responsabilidade que ele carrega: o próprio Mandela disse que ele seria o ator ideal para interpretá-lo. Resultado de tudo isso: indicação ao Oscar 2010 de melhor ator.

    Além das interpretações e do uso interessante que o diretor faz das câmeras para nos aproximar dos personagens, Invictus também vale a pena por algumas de suas cenas, bastante marcantes, mas que não deixam de ser bem características de filmes desse gênero. Quando os jogadores cantam o hino nacional, o hino da África do Sul como um só país, é de arrepiar, pois o espectador sabe o que aquilo significa. Quando temos duas mãos, de raças diferentes, segurando um mesmo objeto, com um só objetivo, ficamos comovidos. Aquilo é um sinal para nós. O filme cria toda uma cumplicidade com seu público e isso faz com que todos consigam entender o simbolismo de certos gestos.

    Também merece destaque o uso, um pouco clichê, mas necessário, do slow motion. Até mesmo gemidos e falas dos atores ficam mais devagares, para aumentar a tensão. O barulho pontual dos segundos finais no marcador; o close no relógio do estádio e no tempo se acabando; o fim do jogo e a velocidade voltando ao normal. Nada de diferente. Mal necessário de filmes com essa temática. Eastwood não tinha muito como fugir disso.

    Quanto aos créditos finais, eles nos revelam uma surpresa boa. Trazem fotos de como foi o verdadeiro jogo decisivo. Vemos Pienaar em jogadas violentas e Mandela usando o jaquetão esportivo amarelo. São imagens interessantes de se ver. E nos dão a oportunidade de comparar personagens fictícios com aqueles de carne e osso. Em seguida, rola uma partida amadora de rugby, que lembra bastante nossos garotos jogando futebol amador.  

    Invictus faz a gente torcer, vibrar e até se emocionar, mas isso tudo o esporte também faz. Quando vemos um jogo, e nosso time do coração está em campo, sempre torcemos. O que o diretor faz é nos dar informações suficientes para que possamos adotar, por pouco mais de duas horas, o Springbooks como nossa seleção de rugby. Eastwood quer nos emocionar, provocar em nós as lágrimas que seus próprios personagens, em tantos anos, nunca conseguiram derramar. Se ele consegue ou não, é algo que somente cada pessoa pode conferir por si mesma.

    Mais de: Cinema, Review

    Assuntos relacionados: , , ,

    detalhes

    Invictus
    Dirigido por Clint Eastwood (2h14min)
    Saiba onde está em cartaz

    autor

    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

    Deixe seu comentário






    (*)campos obrigatórios.

    Editorias

    A POP4 é uma revista de crítica de cultural e entretenimento. Surgida a partir do projeto Opperaa - 2008