Consciência Rodriguiana
Por: Renata Ferri, em Colunas, Literalmente | Nenhum comentário

Que tipo de gente beija na boca de um estranho que acaba de ser atropelado no meio da rua? Não, não estou falando de respiração boca-a-boca. Refiro-me a um beijo daqueles acompanhados por um profundo suspiro de excitação. Nelson Rodrigues, em suas peças, dá vida a indivíduos que poderiam se passar por nossos vizinhos, e que, talvez assim como eles, escondem uma natureza neurótica e depravada. Meninas bonitinhas, porém ordinárias, engraçadinhas, apaixonadas.
Na prateleira da casa de uma amiga, encontrei um livro que mais parecia um tijolão, desses em que o nome do autor aparece em fonte maior e mais destacada do que o próprio título da obra. Dizia-me Nelson Rodrigues em vermelho sangue ou paixão. A vida como ela é.
Abri aleatoriamente e o conto se chamava Unidos na vida e na morte. A civilização é algo muito perigoso. Viver em um meio em que reinam regras sociais de bons costumes e bondade pode fazer do caráter, enrustido. Rodrigues adora demonstrar como isso acontece e como é fácil se dar mal assim. Asdrúbal, que namorava Odete, a achava uma tremenda chata. Sem coragem para dizer “Você é chata, não quero mais te ver”, acabou por desenvolver um câncer, provavelmente causado pelo tédio que a menina lhe causava. A melhor opção no caso, então, era morrer. Assim estaria livre. Mas era tanto amor que Odete decidiu dar uma de Julieta e tomar veneno para morrer junto com o amado. Asdrúbal estava condenado para todo o sempre.
E como Rodrigues riu da sociedade brasileira. Fez comédia com os senões de todos. Pegou a neurose das famílias conservadoras, a timidez injustificável dos recatados e transformou em paródias teatrais e minisséries que só passam tarde da noite. Tanto, tanto, que as pessoas estão cada dia mais sem pudor. De acordo?
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