Passeio
Por: Renata Ferri, em Colunas, Literalmente | Nenhum comentário

Hoje fui a Copacabana. Vi o mar de relance assim, como quem tem muito mais com o que se importar. Como se não fosse sábado, e eu não estive em roupas de banho e chinelos. Como se eu tivesse algum outro lugar sério para ir – um escritório ou coisa e tal – e ali fosse apenas passagem. Mas, com certeza, dentre todos os outros biquínis floridos e umbigos, a praia me reconheceu.
Passei pelas Ramblas de Barcelona, produzindo um rápido toc-toc com os saltos dos meus sapatos. Esquivei-me de crianças, turistas, bêbados, homens nus cobertos apenas por tatuagens, performers de rua com 100% do corpo pintado de alguma tinta brilhante tóxica em busca de trocados ou risadinhas. Cristóvão Colombo, ao fim da caminhada, de cima de seu mastro, apontou para mim.
Chove e faz frio no Rio de Janeiro, e isso de alguma forma parece não estar certo. Há um pombo fazendo “pruuuu…pruuu” do lado de fora da janela, o que é bem mais assustador para mim do que um corvo ou um urubu – meu varal fica do lado de fora. Só mesmo Hitchcock e Edgar Allan Poe para conseguirem transformar pássaros e gatos em coisas assustadoras.
Onde poderia se esconder a magia de um bairro gótico, caso houvesse sol e calor em consecutivos dias de eterno verão e camisetinhas de alça? Nenhuma névoa úmida, nem negros sobretudos se arrastando em algum mistério que provavelmente não existe.
Espero por um avião com o nome de uma outra pessoa. E um bilhete com o meu. Para um deliciosamente trágico vôo.
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