• Dublês de Poeta: Porque o verso está morto

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    Divagações sobre morte, beleza, Darwin e a poesia

    Porque o verso morreu

    Porque desejo muito ser o herói dessa afirmação

    Porque quem matou o verso, matou silenciosamente – e sem sangue ou grito

    Porque o assassino do verso pode ser um malabarista russo

    Porque quem matou o verso libertou o verdadeiro poeta

    Porque você, aspirante a poeta, nunca entenderia essa tragédia

    Porque o verso morreu no século XX do nosso milênio

    Porque a morte é um tipo raro de beleza

    Porque um olhar viciado não enxerga a própria morte

    Porque o verso é contra o darwinismo

    Porque o verso é quase uma crença

    Porque eu posso continuar escrevendo esse texto em verso

    Porque, contudo, ainda existe coisa pior que o verso

    Porque acho a rima um recurso mais desprezível que o verso

    Porque estrofe é parágrafo de um ponto de vista em branco

    Porque o espaço em branco é predominante na poesia

    Porque dá uma sensação de alegria tanto para quem escreve como para quem lê

    Porque a beleza do verso está no espaço em branco

    Porque o verso deveria ser perfeito – e nada é perfeito

    Porque o verso é usado hoje para imacular a ignorância

    Porque usa-se o verso como atalho

    Porque o verso é uma trapaça literária

    Porque a rima e o verso estão cansados

    Porque a rima e o verso são escritos por pessoas cansadas

    Porque os lusíadas foi o primeiro rap em língua portuguesa

    Porque os Racionais MC’s é o nosso Camões

    Porque quem escreve poesia são os homens resignados

    Porque um poeta resignado é uma fraqueza ambulante

    Porque o verso está morto e eu não me canso

    Porque o verso é isso aí. Coca Cola também

    Porque tenho o direito de não falar da prosa

    Porque a prosa poética é uma pilha de lixo de versos separados por pontos

    Porque os saudosistas não admitem que a época deles fora a pior de todos os tempos

    Porque o verso foi a pior época da poesia

    Porque o verso parece uma poesia diabética

    Porque o verso não tem nada de jovem

    Porque é digno lutar contra o verso

    Porque quem conta palavras é um poeta cretino

    Porque quem conta sílabas faz contabilidade de palavras

    Porque métrica e racionalidade (quando dentro do poeta) estão fora da poesia

    Porque eu queria serrar a cabeça de um poeta pra ver o que tem dentro

    Porque o verso tem vírgulas ocultas e pontuação ocultas

    Porque o poeta dos versos não sabe usar pontuação

    Porque é mais fácil abrir um verso do que abrir um parágrafo

    Porquoi, pour l’amour de Dieu, que alienação da realidade é um verso?

    Porque um verso em mandarim ou árabe me parece menos morto

    Porque quem escrever em verso, pretendia, na verdade, adquirir um revolver

    Porque não existe nada mais poético que dizer "eu te amo" numa suruba

    Porque ser poeta, de verdade, não é nada legal 

    Porque fingir ser poeta é muito mais poético  

    Porque rebeldia é escrever na segunda pessoa do plural sem pretensões literárias

    Porque a diferença entre um homem de valor e um que busca o valor é o poeta

    Porque Eu vivo do que escrevo e sofro de anemia

    Porque 200 anos ainda seria muito pouco tempo para envelhecer um poeta

    Porque o verso precisa de muletas 

    Porque preconceito não é crítica. É só preconceito mesmo

    Porque a coisa mais inteligente que os poetas inventaram foi o concretismo

    Porque somos atropelados diariamente por expressões poéticas

    Porque existe sim, coisa pior que escrever poesia em verso: centralizá-las.

    Porque poetas esquizofrênicos como você, costumam se chamar de eu

    Porque o lirismo está na frente do verso

    Porque a poesia do corpo é completa

    Porque tinha que pagar cem flexões antes de se escrever em verso

    Porque a rima é o recurso mais pobre da linguagem poética

    Porque eu não sei se estou me repetindo

    Porque se eu me repetir jogo a culpa na poesia

    Porque a poesia esgota as nossas culpas

    Porque o verso tem que morrer mais vezes do que apenas uma

    Porque só a literatura nos salva do mal súbito da incompreensão

    detalhes

    Caio Campos também escreve para o blog Dublês de Poetas.

    autor

    Mais conhecido como Caiocito. Está quase completando alguma coisa, sendo este quase, mínimo. É especialista na retórica sofista e inventiva. E também dá opiniões estéticas sobre comportamento. Siga-o no twitter. - Leia outros textos de
    • Antonia V de O Morais disse:

      23 de março de 2012 às 2:52 pm

      _ Retornei ao velho sítio… onde nasci e me criei e dos pés de cajaranas quanta mangusta degustei… é fruta amarela e doce como doce as lembranças da minha velha infância… confesso quase chorei. Amei tudo que você falou… não sei colocar as palavras adequadamente… mas sei apreciar quem sabe. Tudo de bom.

    • frnci disse:

      23 de março de 2012 às 2:55 pm

      Adorei…

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