Um Guarda-Sol na Noite e Outros Contos é lançamento do promissor Luiz Filipe Varella
Por: Priscila Armani, em Literatura, Review | Nenhum comentário

A Dublinense Editora inicia seus trabalhos no mercado editorial brasileiro apostando em novos e promissores talentos. E não poderia fazer escolha melhor. Numa das primeiras obras que publicou, apostou no talento do advogado Luiz Filipe Varella, que traz em seu segundo livro, Um Guarda-Sol na Noite e Outros Contos, uma seleção de 23 intrigantes e inteligentes contos, todos tendo como base as relações humanas, em suas nuances mais inacreditáveis.
O escritor conversou com o Opperaa a respeito de seu mais novo trabalho, deu detalhes sobre algumas das histórias que o compõem e revelou um pouco a respeito de seu processo de criação. Confira:
Em que você se inspira para escrever seus contos? Em acontecimentos cotidianos, memórias, algo da sua vida particular?
Existe sempre um ponto de partida, seja um fato real, seja uma lembrança, seja um fato fictício, seja um ponto de partida extraído de uma conversa ou de alguma outra obra, literária ou não; e isso pode acontecer de modo voluntário ou involuntariamente. Às vezes essa inspiração inicial se esvai de tal forma no decorrer da escrita que ela sequer acaba aparecendo no texto; em outras vezes ela é evidente e permanece até o fim, quase numa narrativa do que foi realmente vivenciado. Sou fotógrafo amador, faço muitas fotos todos os dias, uma foto pode criar um texto; um cenário pode se transformar num conto. O texto que dá título ao livro é exemplo disso. Uma noite, andando com meus filhos na beira da praia, vi um guarda-sol esquecido aberto. Não havia a personagem solitária que está no conto, nem o temporal que está por cair sobre ela; havia apenas o guarda-sol, o mar e a areia. E veio o texto.
Boa parte dos contos do livro possuem relação bastante estreita com a morte e o inusitado. Especialmente nos contos Assustando-a; Do jeito que eu gosto; Tio Vanderlei e Promessa temos situações que a envolvem diretamente, como assassinatos e brincadeiras macabras. Porque você desenvolveu tanto este tema na obra? Ele é recorrente em outros textos?
A morte e o inusitado estão presentes em nossa vida. Não apenas na literatura. São questões autofecundadoras, que geram por si só outras questões, especialmente a morte. De todos os elementos que estão no livro, a morte é o único que certamente todos nós encontraremos. É portanto, ao lado do nascimento, o elemento mais concreto e próximo de todos nós. Fui e sou leitor de Edgar Allan Poe, e essas coisas estão lá, então é natural que entrassem também nos meus textos, ao lado de outros temas relacionados – a vingança ("Pequena história de uma completa vingança"), a desilusão ("Ponto de vista"), o desencanto ("29:98 ou o eclipse", "Justa causa").
Outra temática que você trabalha com assiduidade no livro é a sexualidade. Especialmente nos contos Ponto de Vista e O Leito do Rio. Mas nunca é uma sexualidade plena, sempre havendo o proibido ou a sensação de incompletude por detrás. Por que você optou por falar de sexo dessa forma?
Não houve uma opção direta. As idéias vêm, os textos vêm, e quando se observa já está tudo lá. Essa incompletude não está apenas nesses dois textos, está em outros contos também, como na história da professora que acidenta seu carro na frente da casa do aluno. E está na vida também. Ou é tão natural e fácil assim encontrar-se a sexualidade plena? Estamos submetidos a conflitos diários, maiores ou menores, que movem nosso cotidiano. A sexualidade está diretamente relacionada com esses conflitos, na maior parte das vezes mal resolvida. Em "Ponto de vista", vejo essa coisa muito mal resolvida (também está muito forte em "29:98, ou o eclipse") mas vejo mais outra questão - a amargura do momento desperdiçado, a perda de uma chance, a irretroabilidade da vida. O inalcançável ali foi por hesitação do protagonista – e é com o resultado dessa hesitação que ele terá de conviver o resto de sua vida. Nada fácil.
Os relacionamentos no livro também são abordados de maneira não convencional. Em Deus seja louvado; Alessandra e Eu; Ponto de Vista, sempre há uma relação homem-mulher que coloca as personagens como objeto de desejo inalcançável. O que você quis passar para os leitores "elevando" a mulher dessa forma, numa época onde a exposição do corpo delas está tão banalizada?
É outra questão que não dependeu de uma escolha voluntária. Entendo que a exposição do corpo feminino não tem a ver com a facilidade de alcançá-lo fisicamente, especialmente em contos como "Deus seja louvado" e "Alessandra e eu" – são textos cujas histórias se passam, no primeiro caso, com um adolescente e no segundo caso, com um pré-adolescente; para esses, o caráter de "inalcançabilidade" do corpo feminino está mais presente do que nunca! O adolescente passa horas acreditando que poderá talvez nunca transar com uma dessas mulheres de corpo estampado nas capas de revistas e nos sites da internet; quer algo mais inalcançável do que isso?
detalhes
Um Guarda-Sol na Noite e Outros Contos
Luiz Filipe Varella
Saiba mais sobre a obra no site da Dublinense Editora
E confira aqui o Flickr do autor, com amostra de seus trabalhos como fotógrafo
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