Ocupação
Por: Caio Campos, em Colunas, Dublês de Poetas | Nenhum comentário

Ando muito ocupado twittando, unindo o inútil ao desagradável. Dei um piparote no vidro do meu óculos para espantar o mau olhado. Tenho Jogado, bebido, rimado e outros vícios. Nó não sinto o efeito do clima no meu corpo porque sou anti naturalista. Anda nevando muito na av. Paulista.
Eu não acho nada. Num raro momento de opinião me falta papel. Limpo a bunda com Deus. Descobri que só assim me comunico com ele. “Hi, master?” – cumprimento. “mimimi” ele responde. “Hablas español?”, e ele nada. Nunca ouvi dizer de um curso que ensinasse a tal língua dos anjos.
Ontem me aventurei a entrar no mundo obscuro de uma lanchonete. Por isso usei um dos meu disfarces – bermuda e chinelo. Nem por isso fiquei menos idiota do que já sou, precisava apenas de um bigode, mas achei exagero.
Fui à lanchonete. Sentei e pedi qualquer coisa.
-Ô Sandra. Me serve qualquer coisa aí, por favor.
Isso deve irritar bastante as pessoas que trabalham em lanchonetes. Quando se quer qualquer coisa, não se quer nada. E até hoje as atendentes não sabem disso.
Sandra vestia um avental colorido pelas frutas que batia no liquidificador e usava uma touca de cozinha bem apertada na cabeça, que deixava seu nariz enorme. Ela veio me atender com um sorriso tão diforme que o seu nariz empunha uma soberania ao resto da lanchonete.
- Oi, Caio, mas o que você quer? Pode ser aquilo lá – apontei com o dedo. Parecia um pão-de-queijo, mas não jurava.
Entraram dois homens na lanchonete, vestidos de terno barato com um moleque seguindo atrás. Os dois caras pediram pote de creme de açaí, um para cada, e comeram tudo, antes de derramar açaí no terno. Pagaram o açaí, foram embora levando outro pote, e o moleque foi atrás. Achei curioso.
Veio um rapaz quase adentrando com a moto na lanchonete acelerando um bocado. Tirou o capacete, pediu três coxinhas de frango, uma empada e uma Coca. O rapaz olhou pra mim dizendo que era o almoço e sorriu. Suspeitei que ele poderia sentar na minha mesa – sempre penso no pior. Ele enfiou tudo dentro de uma mochila e se despediu de mim, balançando a cabeça. Eu devolvi o gesto e agradeci a Deus.
Acabei meu pão-de-queijo, mas continuei sentado. Eu, que ando tão ocupado vivendo cada minuto de minha vida, fiquei ali sentado. O dia ia me vivendo, e assim eu achava que tinha que ser. Era um desconforto de algo fora do lugar no tempo errado. Por isso era tudo incerto, imprevisível e surpreendente.
Pensava tudo isso, mas não concluía. Agradeci à Sandra, saí da lanchonete e já me ocupei de novo.
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