• Mostra de Tiradentes: Encontros com a Crítica

    Mostra de Tiradentes - Léo Lara

    Encontros com a Crítica, Diretor e Público permitirão o debate em torno de 16 longas da programação da Mostra Tiradentes

    Ao longo de seus 15 anos de existência, a Mostra Tiradentes firmou-se não apenas pela curadoria antenada com as novas realizações e propostas do cinema brasileiro, como também, e principalmente, por ser um dos principais espaços para discussão e reflexão sobre audiovisual no país. Um exemplo disso pode ser visto neste domingo, com o início dos Encontros com a Crítica, Diretor e Público que, ao longo do evento, permitirão o debate em torno de 16 longas da programação, além de diversos curtas.

    O primeiro desses encontros foi sobre o filme Djalioh, de Ricardo Miranda, que integrava a Mostra Vertentes. Na mesa, além do realizador, estavam presentes as roteiristas Clarissa Ramalho e Mariana Fausto, além dos atores Octávio III e Bárbara Vida. No início da discussão, o crítico convidado Rodrigo Fonseca iniciou uma análise do filme pela questão de gênero, traçando paralelos que iam dos novos filme de Almodóvar e Cronenberg ao trabalho de Straub e Pirandello, o que dá uma ideia da diversidade de propostas deste filme desafiador para o espectador.

    O filme foi baseado no conto “QuidQuid Volueris”, de Flaubert, autor que Ricardo Miranda disse que começou a ler aos 22 anos. Os depoimentos da equipe mostraram uma produção realizada através de um intenso processo colaborativo, em que todos os membros da equipe contribuíram de modo decisivo para sua concepção e realização.

    Em seguida foi a vez do aplaudidíssimo Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper, que trata do universo da música brega e de seus fãs. Na mesa, estavam presentes a diretora, sua produtora Suzana Amado e o crítico Heitor Augusto, que em sua fala inicial elogiou o filme por sua capacidade de ir além do universo musical propriamente dito e tecer uma rede de sentimentos e relações entre seus personagens.

    Para a diretora, as músicas retratadas no filme são a tradução de um imaginário coletivo daquela região e classe popular, incluindo aí o machismo. “Era uma premissa do filme que não houvesse uma avaliação moral sobre aquele universo, então mesmo quando eu não concordava ou mesmo rejeitava determinada fala ou personagem, eu tentava ponderar se era representativo daquilo que eu queria retratar”, afirmou Rieper.

    Questionada se as risadas do público durante a sessão não eram em si uma forma de julgamento sobre os personagens, a diretora afirmou que o humor no filme é muitas vezes involuntário e, até mesmo, indesejado. “O público ri em momentos que eu não esperava. Há depoimentos que eu acho repulsivos e que levam o público a rir, então é algo imprevisível”, concluiu Rieper.

    Terminando o primeiro dia de debates sobre os filmes da Mostra Tiradentes, o crítico José Geraldo Couto debateu com o público o filme Hoje, de Tata Amaral, na presença da diretora, do roteirista Jean-Claude Bernardet e da atriz Cláudia Assunção. O filme, que segundo o crítico “é lacônico nas falas, mas eloquente na linguagem visual”, possui diversos paralelos com o longa de estreia da diretora, Um Céu de Estrelas.

    Bernardet concordou com a observação: “Sabíamos que havia uma ligação dramática entre Um Céu de Estrelas e Hoje, mas muitas vezes isso se deu de maneira inconsciente”. O roteirista afirmou ainda que nunca leu o livro no qual o filme foi inspirado, mas que trabalhou sobre os relatos de Tata Amaral a respeito do livro do antigo colaborado, Fernando Bonassi.

    Segundo a diretora, o tema da ditadura e das feridas que ainda hoje permanecem abertas, núcleo central desse seu novo filme, é fundamental para sua geração. “O filme lida com o passado a partir do presente, mas esse passado só importa a partir do momento que ele influencia o presente”, explicou Tata Amaral.

    Entre os filmes, os destaques ficaram por conta de três produções que, após Tiradentes, seguirão para importantes festivais internacionais: Olhe Pra Mim de Novo, de Cláudia Priscilla e Kiko Goifman, selecionado para o Festival de Berlim; e As Hiper Mulheres, de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro, e Girimunho, de Helvécio Marins Jr e Clarissa Campolina, ambos selecionados para o Festival de Rotterdam e muito aplaudidos pelo público do Cine Tenda.

    Nesta segunda, tem início a aguardada programação da Mostra Aurora, dedicada aos primeiros e segundos longas de novos realizadores, que concorrem ao prêmio de melhor filme concedido pelo Júri da Crítica e pelo Júri Jovem. O primeiro filme a ser exibido na Mostra Aurora é o documentário mineiro Balança Mas Não Cai, de Leonardo Barcelos, sobre o famoso Edifício Tupis.

    Ainda como parte da homenagem ao ator Selton Mello, será exibido também o longa Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho. O restante da programação do dia é dedicada ao curta-metragem, com a terceira série da Mostra Panorama, a primeira da Mostra Curtas na Praça e o início da Mostra Foco, com filmes que também concorrem ao prêmio do Júri da Crítica. Essa primeira sessão inclui os curtas Entre Nós, Dinheiro, de Renan Rovida; Na Sua Companhia, de Marcelo Caetano; e Jibóia, de Rafael Lessa.

    Na terça (24/01), o Seminário do Cinema Brasileiro discute “O Curta na Era Digital”, com as presenças do cineasta Cavi Borges; do curador de curtas da Mostra Tiradentes entre 2007 e 2011, Eduardo Valente; do presidente da Associação Curta Minas, Marco Aurélio Ribeiro; e do curador do Festival Internacional de Curtas de São Paulo, William Hinestrosa.

    Outro grande destaque da terça-feira será o lançamento do livro “Cinema Sem Fronteiras – 15 anos da Mostra de Cinema de Tiradentes / Reflexões sobre o Cinema Brasileiro – 1998-2012”, que revisita a trajetória e momentos históricos do cinema brasileiro nos últimos 15 anos, traduzidos em reflexões, crônicas, artigos, entrevistas, depoimentos, pesquisas e registros da Mostra Tiradentes.

    O destaque entre os filmes da terça fica por conta de As Horas Vulgares, de Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize, que concorre à Mostra Aurora. Serão exibidas ainda a série 4 da Mostra Panorama e as segundas séries da Mostra Curtas na Praça e da Mostra Foco, além de O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, parte da homenagem a Selton Mello.

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