Precisamos Falar Sobre o Kevin
Por: Priscila Armani, em Cinema, Destaques, Review | 2 comentários

Tilda Swinton faz um papel marcante como mãe de um sociopata em Precisamos Falar Sobre o Kevin
Isso vai parecer muito clichê, mas é inevitável. Guardem esse nome: Ezra Miller. Acho que esse jovem ator tem muito potencial. Quando fizer um bom papel de protagonista, aposto que vai brilhar. Apesar do personagem dele estar no nome do filme, ele é apenas coadjuvante e não aparece tanto quanto poderíamos supor. Precisamos falar sobre o Kevin é todo de Tilda Swinton. E isso é maravilhoso.
E o papel vai lhe render mais uma indicação ao Oscar. Por motivos óbvios. Ela interpreta Eva, uma mãe atormentada pelo passado, a quem não é permitido um momento sequer de felicidade, como forma de pagar pelo que o filho fez. É impossível não se comover com o seu drama, com como é julgada por todos e sempre condenada, sendo poucos aqueles que lhe estendem a mão e dão uma oportunidade de continuar corajosamente com a vida. E é muita coragem. Eu, no lugar dela, teria facilmente me suicidado.
E ela mesma parece não se permitir um único momento de alívio, revivendo continuamente seu drama. Importante esclarecer que eu li o livro e, naturalmente, já estava bem a par do que ia acontecer. E a narrativa nele é em primeira pessoa, com Eva contando continuamente e bem aos poucos tudo o que lhe aconteceu. No filme, de cara a gente já “saca” bem qual é o drama da personagem. No livro, tudo é uma surpresa. Ainda assim, achei que Lynne Ramsay fez um bom trabalho, pois teve de condensar um universo enorme de emoções em menos de duas horas. Para isso, a montagem agil e fragmentada do enredo ajudou bastante.
Foi uma saída bem inteligente, que respeitou bem a capacidade de raciocínio do espectador, mas que deixou algumas pessoas meio confusas, com certeza. Como não vemos “tudo”, muita coisa é subententida, temos de montar o quebra cabeça na nossa cabeça, o que nem sempre o ritmo do filme permite a todos. Achei que faltou uma parte importante da infância de Kevin no longa-metragem, que foi o jardim de infância, quando ele aterrorizou os demais estudantes e sua sociopatia fica mais evidente. Sem essa informação, não faltarão desavisados a culpar a pobre Eva pelo fato do filho ser assim. É claro que ela cometeu erros. Mas tantos pais por aí cometem faltas até piores e não criam sociopatas. Algo que deve ser considerado.
A perturbada gravidez de Kevin também não é mostrada em todo o seu drama, algo que eu acredito que possa ser uma influência sobre a criança. Afinal, mais pro final da gestação os fetos são bem sensíveis a tudo. E a gravidez de Celia foi desejada e tranquila, o que, a meu ver, gerou uma garotinha extremamente doce. Não há nada provado cientificamente, em 100%, isso que estou dizendo. Mas observar a gestação de ambos é um ponto que leva a pensar, algo que o filme não nos oferece.
De qualquer forma, é importante esclarecer que “Precisamos falar sobre o Kevin” é um longa, acima de tudo, sobre maternidade. Sobre ser mãe. No filme, tal fato está explícito, mas, a meu ver, não o suficiente. É sobre a escolha que cada mulher faz ao ser mãe. E sobre como essa escolha envolve ter de lidar com o fato de que não temos a possibilidade de determinar quem serão os nossos filhos. É uma verdadeira loteria. O pior pode acontecer e muitas vezes não há nada que possamos fazer a respeito. Algo dilacerante.
E o fato da tonalidade vermelha prevalecer em praticamente todas as cenas é meio óbvio, né? Mais evidente ainda é o porquê disso. E o porquê de Eva aparecer muitas vezes lavando a tinta vermelha de suas mãos. Nada sutil, mas muito simbólico e interessante.
E é claro que, lá pro finalzinho, eu chorei demais.
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Rosa Maria disse:
11 de fevereiro de 2012 às 10:25 pm
A grande culpa de Eva é a de muitas mães que preferem ignorar o problema do filho.Em nenhum momento ela fala em procurar ajuda psicológica o psiquiatrica.
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Caio disse:
15 de fevereiro de 2012 às 11:04 pm
Não li o livro, mas vi o filmes algumas vezes. Esse jogo que o garoto faz entre o pai e a mãe é totalmente manipulador, pelo que fica evidenciado uma tendencia sociopata. Aliás, a cena da masturbação também é bastante esclarecedora… Eva, apesar de não querer ser mãe – e isso fica claro -, tenta se amigar com o filho durante o filme, o que fica mais claro ao final sobretudo.
Confesso que a sonoplastia do filme não foi bem elaborada, e a fotografia tem momentos raros de “lucidez”, mas adentrar a perspectiva da mãe, que aliás não perde só a dignidade – ao culpar-se por tudo – mas perde sua zona de conforto, e que nem da cidade pode se afastar por razões óbvias ao filme, foi a sacada da escritora, que foi bem desenvolvido por Lynne Ramsay.
A pergunta que fica na minha cabeça é: poderia ter ficado melhor, ante o livro?
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