Inspiração ou morte
Por: Renata Ferri, em Colunas, Destaques, Literalmente | 2 comentários

E o insight sobre inspiração? Ela conta que nas antigas civilizações gregas e romanas acreditava-se que um gênio era o cara que sussurrava as incríveis ideias ao pé do ouvido dos artistas…
Quando eu estava cursando a faculdade de Letras, que nunca concluí, durante uma aula de teoria da literatura, a professora dissecou com muito amor um conto de Clarice Lispector (isso quando a autora ainda não era musa do twitter), e terminou a aula falando mal do Paulo Coelho. Isso não é novidade para ninguém, mas no meio disso tudo surgiu um assunto muito mais polêmico do que mamilos para quem trabalha com criatividade: A existência da inspiração.
De acordo com a mestra, não existe inspiração. Existe leitura, estudo, perfeccionismo, trabalho, dedicação. Uma coisa bem taylorista assim mesmo, que na minha opinião não tem muito a ver com aquela clássica visão de um Charles Bukowisky enchendo a cara e de um Allen Ginsgerg fumando maconha e brigando com o psicanalista.
Mas tem gente que acha que inspiração é como um soco na cara que a gente toma e fica meio zonzo, desesperado, e que só as pessoas realmente iluminadas nasceram com a capacidade de serem atingidas dessa forma. Alguns buscam inspiração na podridão humana vista em programas de auditório e tablóides, outros assimilam esse fenômeno à solidão no topo de uma bela montanha.
Eu tenho orgulho de dizer que minha opinião sobre o assunto não está formada, e que eu já tinha parado de pensar nisso um tempo atrás. Até que um colega me sugeriu que assistisse o vídeo de uma palestra feita pela autora de Comer, Rezar, Amar. Tudo que sei sobre esse livro é que ele é um ótimo presente de dia das mães, mas a discussão proposta pela autora Elizabeth Gilbert foi muito pertinente.
Ela fala sobre o medo que sente de nunca mais conseguir produzir uma obra tão bem sucedida como o romance que foi até mesmo parar no cinema sob custódia de Julia Roberts. E a pressão que os escritores sofrem ao saber que a sociedade, ao mesmo tempo que despreza economicamente a classe artística, cobra sejam cada vez mais sensacionais e superem consequentemente todas as obras primas já produzidas.
E o insight sobre inspiração? Ela conta que nas antigas civilizações gregas e romanas acreditava-se que um gênio era o cara que sussurrava as incríveis idéias ao pé do ouvido dos artistas, e estes eram apenas os interceptadores de uma entidade superior. Isentando assim escritores, pintores, escultores de toda responsabilidade e crédito pelo trabalho realizado.
Gilbert descreve uma cena impressionante quando fala sobre a entrevista com a poetisa americana Ruth Stone, que hoje tem cerca de 90 anos. Ruth contou que quando era jovem e trabalhava no campo, podia sentir um poema atravessando as plantações em alta velocidade, em direção a ela. E ela tinha que correr muito rápido em direção à casa para alcançar um pedaço de papel e um lápis a tempo de receber aquela estrondosa força poemática. Eu me pergunto por que ela não levava sempre consigo papel e lápis, para poupar essa correria toda. Mas provavelmente foi exatamente esse exercício físico que permitiu que Ruth vivesse até sua avançada idade atual.
Quem puder sair do facebook por alguns minutinhos e assistir o vídeo da descabelada Elizabeth Gilbert, recomendo que o faça.
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Marcela N. Gontijo disse:
1 de novembro de 2011 às 2:32 am
Meus comentários podem se resumir a: “eis aí um texto que eu gostaria de ter escrito”.
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Wagner Bezerra disse:
27 de dezembro de 2011 às 1:39 am
Confesso que tbm espero a maldita inspiração(que estaria mais para a palavra,vontade) e quando ocorre, não que eu seja pré-potente, mas coisas boas, às vezes, saem de minha mente… ^^
Tenho testemunhas e não são da família!
Ótimo texto, abração Ferri! ;*
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