Aquela é Júlia Piller
Por: Caio Campos, em Colunas, Destaques, Dublês de Poetas | Nenhum comentário

Aquela é Julia Piller. Um personagem ficcional. E a literatura despreza o que não é ficção. Júlia existe aqui. É escritora. Nunca escreveu um livro sequer…
- Vamos embora, Rod, pelo amor que Komachi tinha pela poesia. Vamos embora. Não aguento um segundo sequer a mais dentro desta casa, me sinto um Samsa.
- Alto lá, são sete horas, olhe pela janela, o céu está estrelado, acabou o horário de verão, Júlia.
- Deixe-me ver pela última vez o céu desta cidade. Rod, Rod!
- Que passa, babe?
- Veja o carro do meu pai, ele está abrindo o portão da garagem, pelas barbas de Ginsberg, se apresse!
- Já fez o check in?
- Sim.
- Let’s go!
Nesse dia Júlia Sandero Piller desembarcou em São Paulo, numa noite fria de rachar os lábios finos e tonificar mamilos polêmicos de simpáticas senhoras orientais que não usam sutien.
No saguão do Aeroporto Brás Cubas, dois famosos escritores cariocas esperavam por Júlia, Haroldo Perez, recente ganhador do prêmio Nelson Rodrigues, com o livro de poesia, “O Mesmo Lenço Que Enxugaste As Lágrimas, Encerei Meu Sapato”. E Fernando Brisol, autor do clássico, “Óh, Brazil, Meu Brasileño!”.
Os dois receberam Júlia entre beijos e abraços e fotografias. “Quem é essa jovem?”, perguntou um jornalista. Haroldo fitou-o com a face enrugada, “você não conhece a escritora Júlia Piller, Júlia Sandero Piller?”, enfatizou. E sem esperar qualquer reação do rapaz, deu as costas a ele.
Os três pegaram um táxi e foram direto para o Pub Walt Whitman na rua Secreta do Padre Brown, frequentado por artistas, místicos, escritores e alguns marginais, filhos de famílias ricas. Logo após se acomodarem, formou-se um burburinho cósmico. E o som ambiente da noite era, “Aquela é Júlia Piller”.
Adoro seu texto, Júlia. É tão, é tão mágico, dizia Fernando. Você consegue falar de amor sem ser piegas, de sexo sem ser vulgar, e de Paris sem ser chinfrim. Júlia sorriu agradecendo e desconversou pedindo outra dose de Patron.
Ela não gostava que falassem de sua literatura. Senão o básico, “muito bom” ou algo assim. Não lia críticas; apenas gostava de saber que elas existiam.
Júlia desperdiçava dias, cada instante de hora. cada ano perdido era um júbilo. Afinal, ela não acreditava no senso de missão de vida. Só se saberá quando morrer. Ainda sim dependerá de alguém para analisar sua trajetória. Missão? Para que serve, senão para deixar o café esfriar ou expandir a neurose.
Fernando acordou era quase meio-dia. Sorriu despreguiçado, abotoando a camiseta, nem perguntou sobre Haroldo, já ausente, e despediu-se de Júlia, que permanecia deitada. Deu um beijo na maçã de seu rosto e a cobriu. Depois só se escutou o som da porta de madeira se fechando.
Júlia levantou da cama após dezenas de tentativas, o lençol manchado de vinho barato, algumas pontas de cigarros ou sabe-se lá de quê, estavam pelo chão. Escritores pagam caro por bebidas e futilidades da rua. Eles só querem se divertir. Em casa ingerem qualquer porcaria.
Júlia calçou o primeiro chinelo que viu, duas vezes maior que seus pés. Caminhou pelo quarto sujo, vagabundo e pequeno. Escritores não se importam com o local que vivem, porque amanhã eles podem estar em Cusco ou na Toscana. Escritores possuem a comodidade ao avesso.
Júlia foi até a varanda enrolada no cobertor, sentou na rede e acendeu um cigarro. Era um apartamento de frente para uma avenida movimentada de São Paulo. Transeuntes erguiam levemente a cabeça para espiá-la. Júlia retribuía com um sorriso malicioso e cínico que treinara durante os anos de escola.
O telefone tocou, Júlia prendeu os cabelos, o nó se desfez, ela apagou o cigarro numa poça d’água e, enquanto tentava segurar os cabelos, tropeçou no cobertor, caiu, deu gargalhadas de si mesma e atendeu o telefone ainda rindo. Era Haroldo dizendo sobre o coquetel de lançamento do novo livro de Fernando Brisol, hoje a noite.
Escritores não são de perguntar, principalmente quando se está rindo ou chorando. Partem do pressuposto de saberem de tudo, porque simplesmente não conseguem se importar com um saber ortodoxo.
Imagine o Céu. Um lugar que tem tudo que você deseja, onde tudo que você faz é para te dar prazer. Nesse lugar ninguém escreve livros. Só se lê o essencial. Não existe literatura superior no Céu. Proust parou de escrever quando foi para o paraíso. Lá sua maior diversão era vandalizar; assaltar bancos, matar pessoas. Tudo é uma invenção. E cada um cria seu mundo dentro do nível que alcança. No céu ninguém se fode. O céu é o seu mundo paralelo. A lei do céu é: ‘cada cabeça uma vibe’.
Pessoas felizes não escrevem literatura, nem as tristes. Literatura é o subjetivo da sensatez. Em verdade, a literatura é construída em qualquer superfície. A literatura não gosta de profundidade nem de levitações.
Aquela é Julia Piller. Um personagem ficcional. E a literatura despreza o que não é ficção. Júlia existe aqui. É escritora. Nunca escreveu um livro sequer; nem sei se já escreveu alguma coisa. O que fez de Júlia uma escritora, além da vida de escritora, foi a convicção que, no espaço reservado para o preenchimento da profissão, de um simples recenseamento até uma certidão de óbito, estava sempre registrado: aquela é Júlia Piller, Júlia Sandero Piller, escritora.
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