• Cuma?

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    O lugar dos vídeos favoritos de batedoras usb, “foi o cão que butô pra nóis bebe” e a decoreba desenfreada de hits de Sthepanie e seu Cross Fox

    Uma platéia, poucos minutos e uma falsa impressão foram o suficiente. O dia 11 de abril de 2009 talvez tenha sido o divisor de águas na vida de uma residente da pequena cidade de Blackburn (Escócia), até então na penumbra do universo.

    As experiências de Susan Boyle até a noite de sua apresentação no Britan’s Got Talent foram restritas a gravações para o coral da catedral de sua cidade. Pouco tempo depois da morte de sua mãe (principal incentivadora), Susan decidiu arriscar-se em um programa de TV, interpretando uma versão de I Dreamed a Dream (Os Miseráveis) que a tornaria uma das principais celebridades da internet.

    Sem questionar o valor estético da performance de Susan, assim como a validade de seu estrelato repentino, e navegando um pouco pela internet, tentei fazer uma comparação sobre a interprete e a canção interpretada.

    Não há comparação. O resultado na pesquisa foi algo em torno de 100 x 0 a favor de Susan.

    Mas I Dreamed a Dream, inicialmente presente no primeiro ato do musical Os Miseráveis, baseado no romance mais emblemático de Victor Hugo (que também foi autor de O Corcunda de Notre Dame), teve mais importância do que se pode imaginar. Regravada e interpretada inúmeras vezes, talvez tenha sido na voz de Aretha Franklin que tenha alcançado maior projeção. Entre outras, Aretha a executou na cerimônia de pose do ex-presidente norte-americano, Bill Clinton.

    Indo mais além, durante alguns minutos (e alguns sites) foi nítida a discrepância entre a exposição de Susan, e a do próprio escritor Victor Hugo.

    O que outrora estava presente em outros contextos midiáticos, reforçado pelo poder da imagem televisiva, agora atinge seu supra-sumo no mundo virtual. Todos querem twittar sobre Susan. Todos querem SER Susan. Basta alguns minutos e uma boa oportunidade.

    Assim, a necessidade pela informação (tititi momentâneo) sobrepõe a imensa possibilidade que se esboça diante de qualquer usuário. O passo conseguinte torna-se, então, o preconceito, mesmo que ainda paradoxal.

    Informar-se sobre as últimas fofocas de celebridades globais é coisa de “usuários leigos”. A auto-afirmação da cultura Geek (longe da cultura nerd) se concretiza no descobrimento do último vídeo badalado e a propagação espontânea do mesmo.

    O valor agregado (mesmo que fosse causador de uma pseudo-intelectualidade) encontrado em livros de horror de Lovercraft e Allan Poe, cede espaço para o repositório de vídeos favoritos de batedoras usb, “foi o cão que butô pra nóis bebe” e a decoreba desenfreada de hits de Sthepanie e seu Cross Fox.

    Sem prolongar mais a seção confessionário, ressalto uma contrapartida. O entretenimento sem valor contemplativo/estético obviamente deve estar presente como opção de tempo livre. Mas, saber diferenciar Christopher Nolan de Ingmar Bergman faz toda a diferença na hora de decidir qual a melhor seção de cinema.

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