Meu País
Por: Priscila Armani, em Cinema, Destaques, Review | Nenhum comentário

André Ristum – Filme discute a importância da família e a relação da sociedade com o portador de sofrimento mental
Difícil para mim falar de Meu País sem me emocionar. Esse filme é um dos poucos que posso dizer que me tocou lá fundo, remexendo as minhas feridas familiares. Por isso, não esperem de mim uma crítica embasada em aspectos técnicos. Este não é um texto como os outros que eu escrevi. Estejam avisados.
Não é muita gente que sabe, só os mais próximos, mas tenho uma irmã portadora de sofrimento mental. Ela é mais velha que eu três anos e atualmente estuda na Apae. Ela tem uma vida muito equilibrada, é bastante saudável e minha mãe se dedica muito aos seus cuidados. Cada dia que passa a vejo melhorar mais, aprender coisas novas e conhecer gente diferente. Ela não tem nenhuma "doença". Não há nenhum diagnóstico. Apenas algumas limitações. Mas, no final das contas, quem é que não as tem, não é verdade?
Quando ela nasceu, os médicos desacreditaram a minha mãe de que ela fosse aprender a escrever. Pelo que me contou, passou noites chorando, pensando em todas as dificuldades que a minha irmã enfrentaria. Seria ótimo mostrar aos "doutores" que Fabrícia atualmente tem segundo grau completo e que adora escrever. Tem Orkut, usa o computador. E é totalmente integrada à sociedade.
Ao contrário da personagem Manuela (Débora Falabella), minha irmã nunca precisou ficar internada. Ela nunca soube o que é ficar longe da família. Graças a Deus os sanatórios e manicômios estão acabando. Não é de isolamento que os portadores de sofrimento mental precisam. É de amor, diálogo, paciência, compreensão e carinho.
Não conto para todo mundo a história da minha irmã por um motivo bem simples: as pessoas são preconceituosas. Falsas. Ignorantes. Quando sabem que um membro de sua família tem alguma "limitação", medem as palavras ao se dirigir a você. Quando não sabem, revelam sua verdadeira face. Muitas vezes já flagrei "pessoas de bem" dizendo, por exemplo, sobre aqueles que tem Síndrome de Down, que a pessoa é "retardada". Falam com pena, como se o portador de sofrimento mental fosse um coitado. Quando flagro esse tipo de coisa, sei bem: estou diante de alguém que trata as diferenças com desprezo. Dessas pessoas sempre procuro me afastar.
Quando assisti a Meu País na pré-estreia da Mostra Cine BH, coincidência ou não, eu estava com a minha mãe e a minha irmã. Não sabíamos nada sobre o enredo do filme. Como eu, as duas ficaram visivelmente emocionadas. A história que vimos na tela nos era familiar demais. Antes da exibição começar, o diretor André Ristum falou à plateia sobre seu primeiro longa. Ele disse: "a ideia desse filme começou com uma história muito pessoal minha". E a obra é tão emocionante que, mesmo se ele não tivesse falado nada, tal fato ficaria evidente.
A história do filme é singela e muito bonita. Marcos (Rodrigo Santoro) é chamado às pressas de volta ao Brasil quando seu pai morre. Ele vive na Itália com a esposa Giulia (Anita Caprioli), que vem ao país com ele. Mas uma visita que era para ser rápida acaba se prolongando. Reencontrar o irmão Tiago (Cauã Raymond) e descobrir a irmã Manuela mexem com os sentimentos do protagonista, que se vê dividido entre a família e o sucesso financeiro.
Manuela é portadora de sofrimento mental e Falabella está num dos melhores desempenhos de sua carreira dando vida a essa personagem fascinante. Fica muito evidente o quanto ela estudou para essa interpretação. Com certeza conviveu com algumas pessoas e suas famílias para entender esse mundo tão peculiar. Ao lado de Santoro, está magnífica. Sobre ele, então, nem comento. Um ator maravilhoso. Extremamente talentoso. Que retorna ao tema do sofrimento mental, já abordado em O Bicho de Sete Cabeças. Rodrigo está no caminho certo e não vai demorar a crescer ainda mais dentro de Hollywood. E merecidamente. Cauã é, dos três, aquele que ainda tem mais a aprender. Mas até se sai bem.
O filme é uma produção de padrão internacional, mais um excelente trabalho da excepcional Gullane Filmes, produtora da qual sou fã (fizeram o já citado Bicho de Sete Cabeças, Narradores de Javé, O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, Chega de Saudade, As Melhores Coisas do Mundo, entre outros). Quase tudo o que esses irmãos tocam é ouro! Por isso, não me surpreenderia se o filme for um arrasa quarteirão de bilheteria e fizer uma excelente carreira nos Festivais lá de fora. Estou torcendo para isso. Produções como essa são raras. A discussão sobre sofrimento mental normalmente fica restrita a aqueles diretamente relacionados a ela. E a sociedade permanece na ignorância.
A sensibilidade e beleza de Meu País emocionam, divertem e nos levam a refletir. Afinal, o que é ser normal? E porque todos nós devemos nos submeter a padrões que são tão claramente fora da realidade e do bom senso? Não deveríamos apenas nos preocupar em ser felizes? Também sonho em chegar àquela praia bonita na qual os três irmãos se encontram, mas ela é, para mim, uma espécie de paraíso, onde todos nós teremos o coração aberto para entender e escutar os problemas uns dos outros. Não perco a esperança no ser humano, apesar de tudo.
detalhes
Meu País
Dirigido por André Ristum (1h 30 min)
Saiba onde está em cartaz
Mais de: Cinema, Destaques, Review
Assuntos relacionados: André Ristum, Cauã Raymond, Débora Falabella, Meu País, Rodrigo Santoro
autor











