• Crônica da Casa Assassinada

    Foto Joao Caldas_4681(1)

    Sesc Vila Mariana – Tabus são questionados e a hipocrisia da sociedade é colocada em xeque

    Há alguns anos o diretor Gabriel Villela e o produtor Cláudio Fontana sonhavam em montar este clássico da literatura mineira.

    A peça estreou no Rio, devido a patrocínio, fez temporada de final de semana em Belo Horizonte e fica até meados de outubro no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

     Xuxa Lopes é a protagonista da montagem e havia entre ela e o diretor o desejo de voltarem a trabalhar juntos (a atriz foi dirigida por Villela em Buscar-me que ainda sou teu e Mary Stuart). O restante do elenco também já tem experiências de trabalhos com Villela.

    A primeira pergunta que me veio à cabeça quando soube que a obra A Crônica da casa Assassinada ia ser adaptada para o teatro há algum tempo atrás, a primeira pergunta que me veio?

    Como fazer com que uma história tão intensa, densa, que mergulha o leitor na vida de pessoas solitárias, com sonhos, desejos e inveja, seja transportada para o teatro sem perder a sua essência?

    Dib Carneiro fez a adaptação a convite do diretor Gabriel Villela e conseguiu preservar todo o vigor dos personagens.

    Gabriel Villela salienta toda a intensidade da trama, que tem como ponto forte as cenas de incesto entre mãe e filho, mas sem deixar de lado a poesia e o humor, características dos seus

    As cenas se entrelaçam como num quebra-cabeça e o público vai, cada vez mais, conhecendo a alma dos personagens, seus defeitos e qualidades.

    A obra foi escrita em 1959 e continua atual porque mesmo com a urbanização das cidades, ainda encontramos muitos resquícios de uma vida rural, em que o tempo parece não correr.  Lúcio Cardoso escreveu A Crônica da Casa Assassinada para criticar Minas, a sua terra natal, mas ela se torna universal porque as pessoas ainda estão presas a convenções, pudores, preconceitos e falsos moralismos.

    Xuxa Lopes dá um show de interpretação, com certeza uma das melhores atuações de sua carreira, e tem a companhia de atores afinados, que fazem com competência e vigor os personagens.

    Marcio Vinícius criou um cenário que nos remete a Minas, através da porta que lembra a igreja de são Francisco de Assis de Ouro Preto, lugar que simboliza toda a religiosidade de um povo. Salienta com precisão o cotidiano familiar solitário ao colocar em cena uma enorme mesa, a qual é o lugar do encontro de pessoas que não conseguem uma convivência amigável.

     Há uma carência sentimental que atordoa. O sagrado e o profano, o pecado e o desejo, uma família à beira do abismo, retratada com maestria por Villela. É uma encenação forte, sensual, sexual, que toca fundo nos tabus, preconceitos e sonhos humanos.

    Demétrio e Ana vivem com o coração amargurado, num casamento sem amor. Nina casou-se com Valdo, devido a um acordo de jogo e a sua vitalidade e muito grande para suportar uma vida sem graça. Foi para a Chácara de Vila Velha, mas a rotina sem graça da cidade do interior a sufoca. Timóteo, homossexual, se veste com a roupa da mãe, que já morreu. Está enclausurado porque a família não o aceita, mas ele mesmo acaba se fechando no quarto porque não suporta as falsidades de seus parentes. Nina é o seu sopro de vida, a vida que se esvai a cada dia e é por isso que ela incomoda.

    O jardineiro assombra a casa, símbolo da liberdade de se viver o amor e o prazer sem limites. André é o amor, a jovialidade, mas nasceu de um adultério. Fica encantado por Nina e perde todos os medos e pudores, entregando-se a ela de corpo e alma. Betty, a empregada, ressalta o cotidiano tedioso e a imutabilidade da vida (a Betty sabe de tudo o que acontece e cuida da família há muitos anos). O médico, o padre e o farmacêutico ressaltam a hipocrisia da família Menezes. A qual é assunto em todo o lugarejo.

    Os demais personagens, o padre, o farmacêutico e o médico, são os narradores da saga familiar e contribuem para que a história seja entendida mais facilmente. Mas a casa é a protagonista. A casa que a cada dia fica mais velha, descuidada tão quanto os Menezes estão assolado em dívidas e tragédias. Símbolo de valores ultrapassado, de uma Minas Gerais arcaica.

    O figurino de Gabriel é muito bonito e traz a cor e a voluptuosidade de uma família que apesar de decadente, ostenta e se preocupa em transmitir uma boa imagem.

     A plasticidade é um atrativo da montagem, um dos trabalhos em que o gestual e a movimentação dos atores mais contribuem para que a encenação apresente cenas fortes, mas com muita beleza e poesia. O texto e a interpretação, no entanto, também são valorizados em igual tamanho. Esse equilíbrio proporciona um resultado excelente. Não é à toa que a peça concorre a vários prêmios Shell e provoca muita emoção aos espectadores, pelo menos esse contentamento foi visível na estreia paulistana.

    Já começaram os ensaios do espetáculo Hécuba. A estreia será em novembro, no Teatro Vivo, em São Paulo. A direção é de Villela e no elenco: Walderez de Barros (atriz convidada), Fernando Neves, Flávio Tolezani, Leo Diniz, Luiz Araújo, Luísa Renaux, Marcello Boffat, Nábia Vilela, Rogério Romera.

    detalhes

    Crônica da Casa Assassinada
    Teatro SESC Vila Mariana
    Temporada: sextas e sábados, às 21h e domingos às 18h
    Até 16 de outubro.
    Ingressos: R$24 inteira e R$ 12 usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante.
    R$ 6 trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes.  
    Informações: (11) 5080-3000

    autor

    Historiadora e estudante de jornalismo. Apaixonada por cultura, pesquisa e escreve sobre teatro desde a década de 90. - Leia outros textos de

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