Palavras Notáveis
Por: Renata Ferri, em Colunas, Destaques, Literalmente | Nenhum comentário

De repente me vi dominada por um grande desafio literário. Atravessar as oitocentas e tantas páginas do livro Dom Quixote de La Mancha sem burlar as recorrentes notas de rodapé. Isso me fez colocar de lado o clássico espanhol e formular a máxima: O grande desafio do escritor contemporâneo é criar histórias que sobrevivam o maior número de séculos sem precisar de cansativas notas de rodapé.
Metade de cada página era texto, e a outra metade observações sobre substantivos que deixaram de existir ou nunca chegaram a esse lado do oceano Atlântico. Talvez seja culpa minha, pois eu, com a minha obsessiva curiosidade, não consegui ignorar nem mesmo as mais obvias explicações. Ou pode ser que, Miguel de Cervantes, como muitos escritores, ignorava a possibilidade de um dia sua obra atingir tal impacto na sociedade cultural terrestre.
Claro que o Cervantes não é nenhum James Joyce, mas eu achei a leitura cansativa. Resolvi chutar o pé da página, um pé que parece ter elefantíase, por sinal, de tão volumoso. Deveria existir um Dom Quixote adaptado à atualidade, da mesma forma que quando eu era criança, minha mãe fazia eu ler a Bíblia adaptada à linguagem infantil. Mas ainda bem que não existe, pois eu seria praticamente obrigada a escrever algo criticando isso também.
Me restou a convicção de que no futuro, uma eu evoluída vai desistir de um livro escrito no século XXI por causa dos enfadonhos esclarecimentos sobre o que é caipirinha, cupcake e tênis All Star. Restou também consolo na crítica a Dom Quixote feita pelo Martin Amis:
“Ler Don Quixote pode ser comparável a uma visita sem data para acabar de seu parente velho mais impossível, com todas as suas brincadeiras, hábitos sujos, reminiscências imparaveis e sua intimidade terrível. Quando a experiência acaba (na página 846 com a prosa apertada, estreita e sem pausa para diálogos), você vai derramar lágrimas, isso é verdade. Mas não de alívio ou de arrependimento e sim lágrimas de orgulho. Você conseguiu!”
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Renata escreve para a coluna Literalmente sempre que a intensa rotina de leituras lhe dá tempo.
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