Uma visão desconstrutivista de Sucker Punch
Por: Lucas Jardim, em Cinema, Review | Nenhum comentário

Zach Snyder – Sucker Punch, de cujo roteiro Snyder é coautor, em nada lembra o cinema de autor, mas quando você viu um filme de ação que lembra isso?
Da mesma forma que milhares de outras coisas que surgiram desde a década de 60 (dentre elas, a Lady Gaga), pode-se dizer que a culpa é do Andy Warhol. Ao filmar o poeta John Giorno dormindo por mais de cinco horas para seu filme Sleep, ele conseguiu levar a cabo a sua proposta de criar o “anti-filme”. Claro, Sleep faz parte do movimento desconstrucionista que Warhol estava desenvolvendo à época. Ele queria provar que arte, da mesma maneira que as garrafas pet, era algo descartável e/ou reutilizável. Seus filmes não diziam absolutamente nada, e eu me arriscaria a dizer que eles nem foram feitos para ser vistos. Imagino Warhol considerando-os meras imagens ilustrativas, que podem decorar a parede de uma sala combinando com o abajur no canto esquerdo.
Quase 50 anos depois, Zach Snyder também está ocupado com o seu próprio movimento desconstrucionista. Depois de três filmes baseados em obras pré-existentes, o sucesso comercial permitiu que ele convencesse a Warner Bros. de que ele tinha condições de dirigir um filme “próprio”. Não, Sucker Punch, de cujo roteiro Snyder é coautor, em nada lembra o cinema de autor advogado pelos contemporâneos da Nouvelle Vague, mas também, quando foi a última vez que você viu um filme de ação que lembra isso?
I.
A grande diferença entre Warhol e Snyder é que, sumarizando, Warhol sabia o que estava fazendo. Ele tinha uma formação e um propósito. Snyder, por sua vez, parece achar que está fazendo um cinema relevante. Seu maior sucesso, a meu ver, foi na sua agradável estreia Madrugada dos Mortos, que, apesar de não adicionar absolutamente nada ao clássico do Romero, mantinha o humor tongue in cheek característico do original e tomava sempre o cuidado de não se levar muito a sério.
É uma fórmula fácil e que dá retorno? Claro, o quarto filme da série “Pânico” está estreando nos cinemas enquanto escrevo. De alguma forma, no entanto, Snyder começou a trazer para os seus filmes a pompa e circunstância das obras que os basearam, o que deixou os resultados bem sem-graça e com aquela sensação que só um filme feito por um cineasta de ego inflado consegue dar. Por exemplo, 300 teria saído um filme bem melhor se não tentasse se achar um filme de guerra legítimo e colocasse um pouco de humor na equação. Snyder, no entanto, deixou Gerard Butler dominar o filme repetindo frases dignas de meme por mais de duas horas (e as memes vieram…), numa demonstração de machismo e violência estilizada que, num contexto nacional, deixou o público alienado o suficiente para abraçar, de forma estúpida, o Capitão Nascimento alguns anos depois.
A única coisa que poderia deixar Snyder com o ego maior seria, talvez, adaptar a graphic novel considerada a melhor de todos os tempos. Bem, Watchmen saiu em 2009 e a “Snyderização” do material foi tão gritante que eu nem precisava ser tão fã da obra original quanto eu sou para sair do cinema decepcionado. Com mais ênfase nas lutas do que no contexto sociopolítico, Snyder deixou uma das obras mais emocionalmente complexas dos últimos 30 anos parecendo… é, parecendo um filme dele. Deu pra ver que os visuais deram trabalho, mas não havia nada para preencher duas horas e meia de filme.
II.
O que nos traz de volta a Warhol, e finalmente nos traz a Sucker Punch. Se encher um filme com imagens que não dizem nada era a definição de Warhol para o “anti-filme”, então Sucker Punch é o mais novo representante dessa escola. Numa ambição digna de Torre de Babel, Snyder quis misturar todos os gibis e videogames que ele já leu/gostou/emprestou pros amigos na vida e ainda sair com uma obra coesa. Os irmãos Warchowski fizeram Matrix e deu certo, não é mesmo? Como querer não é, nem nunca foi, poder, Snyder emenda CGI por cima de CGI em sequências tão loucas quanto inúteis que, parecem ser um trailer de videogame que poderia muito bem ser exibido numa E3 da vida. Apesar de essa ressalva parecer unanimidade entre os críticos, nem todo mundo entende porque um filme merece ser criticado por parecer um videogame. Vou pela premissa pessoal de que nunca gostei de ficar assistindo outra pessoa jogar, imagine pagar um ingresso de cinema (caro do jeito que é no Brasil) pra isso, mas entendam como quiserem. O ponto é que Sucker Punch promove uma sensação de vazio, destruindo a estrutura cinematográfica de dentro para fora. Vê-se o niilismo e a cultura da mediocridade estampados no fato de que não há trama, não há sentimento, não há nada; nem divertir ele diverte, o que é dizer alguma coisa quando seu filme já conta com a) cinco meninas bonitas com pouca roupa; b) lutas contra samurais, zumbis e dragões; e c) armas legais e robôs gigantes. Isso para não mencionar o slow motion constante que Snyder tende a empregar em seus filmes, que nunca foi tão irritante quanto aqui. A sequência inicial, por exemplo, perde toda a carga emotiva que deveria provocar por causa do efeito.
Para além da ação boboca, tratemos da trama: menina é internada num hospício pelo seu padrasto para ser lobotomizada e o cara ficar com a herança que lhe é de direito. Uma vez lá dentro, ela se junta a quatro companheiras e juntas, elas imaginam (é, você leu certo) altas missões que, se completas, garantem a elas os objetos de que precisam para fugir. Snyder usou o artifício da imaginação para poder criar as sequências irreais de lutas sem ser perturbado por acusações de inverossimilhança. OK, dentro da mente das protagonistas, é totalmente possível que tais duelos ocorram (ex.: cena em que as cinco meninas, metralhadoras em punho, detonam um batalhão de zumbis nazistas e saem voando num mecha à la Evangelion), só que é palpável a ideia de que o embate não tem ponto nenhum. Essa ideia fica bem à mostra quando, a fim de pegar uma faca no bolso de um cozinheiro, as meninas imaginam que têm de parar um trem de alta velocidade que está levando uma bomba para uma cidade no meio de um planeta longínquo (não seria mais fácil simplesmente pegar a faca?). A busca pela liberdade delas não convence, em parte por culpa do roteiro que não se aprofunda em exatamente nada, em parte por culpa da atuação pífia. A melhorzinha, Jena Malone, que já brilhou em comédias sagazes como Galera do Mal, consegue a façanha de fazer cara de coitada e choramingar o filme todo. Já as atuações de atrizes como Emily Browning e Vanessa Hudgens (!?) não merecem nem comentários. A maior dó é de Carla Gugino, aqui relegada a uma psicóloga/professora carrancuda de balé cujo único talento é falar naquele sotaque russo característico e chato.
III.
Se algo mais ainda resta a ser dito, talvez sejam as mensagens que o filme passa. Não sei qual a visão que Snyder tem de mulheres e não sei se ele teve alguma ideia específica na hora em que decidiu que teria um elenco massivamente feminino nesse longa. Dá a entender que ele somente quis fazer um “300” com mulheres, algo que foi confirmado por ele num tom de brincadeira em uma entrevista. De qualquer forma, não consigo pensar em um filme recente que subjugue tanto as mulheres num nível psicológico quanto Sucker Punch. As cinco meninas, desde seus codinomes (Babydoll, Sweet Pea, etc.) até às suas roupas, são puras representações fetichistas, pedaços de carne jogados de um lado para outro no meio da parafernália de história que o filme deveria ter. A inserção do bordel imaginário e das lutas com figurinhas carimbadas do universo masculino são consequências. É como se as lutas tivessem sido escritas e coreografadas de forma a suscitar o maior tesão possível nos homens da plateia, o que aproxima este filme de uma pornografia velada e muito kitsch.
Além disso, vale ressaltar que as meninas passam o filme inteiro na iminência de serem estupradas, espancadas, mortas ou uma sequencia interessante dessas três coisas. A cena do destino final de Blondie, por exemplo, é de uma misoginia latente. Há interpretações que veem nas missões delas uma apologia à força feminina, mas sinceramente, há de se esperar que garotas constantemente oprimidas e abusadas queiram escapar dessa situação. É uma reação natural, inerente à sobrevivência, e ignorar tal reação só tornaria o filme mais estapafúrdio do que já é. Dentro da meia hora inicial de filme, a personagem de Gugino fala sobre o mundo criado dentro da mente das internas e diz que ele pode ser “tão real quanto qualquer dor”. Não sei muito sobre psicologia, mas posso dizer que o mundo dentro da mente de Snyder ao fazer Sucker Punch representa uma dor bem real. Não só a dor quase física de assistir o que eu julgo ser uma versão live action e mal escrita de um episódio de Sailor Moon, mas também a dor de perceber a vulgaridade com que ele trata o ofício do cinema. Disso, tenho certeza, Warhol não teria gostado.
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