• Penetráveis, de Mariana Muniz

    penetraveis

    Galeria Vermelho – Em entrevista, a atriz e bailarina Mariana Muniz fala sobre seu trabalho e sobre o novo espetáculo

    Mariana Muniz é uma artista cênica que chama a atenção do público e da crítica para os seus trabalhos. Está sempre aberta a desafios e tem uma carreira sólida na dança e no teatro. Aprecia a sua profissão e pretende continuar se dedicando tanto à dança quanto ao teatro.

    Sua companhia está apresentando em São Paulo o espetáculo Penetráveis, inspirado no trabalho de Hélio Oiticica. Há 3 anos eles tem pesquisado sobre as obras do artista plástico e buscado transpor seu espírito vanguardista para os palcos. Em 2007, esse interesse deu origem a Parangolés e em seguida com Nucleares, em 2008. Em Penetráveis, a dança se mistura às artes plásticas e novas formas do fazer artístico são exploradas.

    Mariana formou-se pela Escola de Danças Clássicas do Teatro Municipal no Rio de Janeiro, integrou o Grupo Experimental do Balé da Cidade de São Paulo, criado por Klauss Vianna e fez parte do Grupo Coringa, de Graciela Figueroa. Aprimorou os seus estudos em Nova York, nas escolas de Martha Graham, Mercê Cunningham e Jennifer Mullere; na França, estudou na Sorbonne, com Annick Maucouvert e estagiou na Cia. de Maguy Marin.

    Em entrevista à repórter Nanda Rovere, Mariana fala da sua trajetória nos palcos, da transposição da obra de Hélio Oiticica para o teatro, da experiência nas ruas. A entrevista contou com a presença e participação de seu parceiro e marido, Cláudio Gimenez, que foi pontuando algumas questões e ajudando Mariana a relembrar fatos de sua trajetória profissional. Cláudio é arquiteto, fotógrafo e atua na companhia como diretor, cenógrafo e figurinista.

    Nanda Rovere – Como foi o processo de ensaios para a estréia de Penetráveis?

    Mariana Muniz – Foram cerca de oito meses de ensaio para este trabalho, mas já estamos debruçados no universo do Oiticica há 3 anos. 

    NR – Fale um pouco sobre esta criação em cima da obra de Oiticica.

    MM – Através da construção de estruturas, o artista valoriza a cor e convida o espectador a percorrer a instalação. Esta criação está dentro do conceito que ele sempre desenvolveu, a anti-arte, isto é, a arte que incorpora o espectador, que promove interação e se torna viva a partir desse diálogo físico que estabelece com o público.

    O Oiticica conseguiu fundir linguagens, porque ele foi o primeiro artista que pensou a cor fora do quadro e, sim, a cor do corpo viajando no espaço. Ele era apaixonado pela dança e especialmente pelo samba. Ele propõe o hibridismo das linguagens e por isso ele me interessou muito.

    Nós experimentamos as suas criações e vamos descobrindo quais os movimentos traduzem as sensações que elas nos provocam. Precisamos desenvolver a sensibilidade para que seja possível transportar a ideia do Oiticica para o palco.

    NR – Como transpor esta ideia para o palco, para a dança?

    MM – Como o movimento corporal é essencial para o entendimento da obra, o corpo do ator e do bailarino é o meio para que os Penetráveis, e os Parangolés, ganhem vida. Em Penetráveis, usamos placas de madeiras, algumas grafitadas, que servem como suporte para roupas que apresentam cores fortes e tecidos como o tule.

    NR- Em Parangolés, como era realizada a troca espectador, artista/obra?

    MM – Nesse espetáculo, a roupa era feita de materiais diversos e só tinha vida se a pessoa que a vestisse se movimentasse na dança. O movimento dançante era fundamental para que a obra tivesse significado. O corpo era o grande Parangolé que devia ser percorrido pelos objetos.

    NR – O que há de interessante em Penetráveis que você pode destacar?

    MM- Em Penetráveis a fala está presente nas cenas e há um personagem que aparece durante a apresentação. Ele surgiu durante as apresentações de Parangolés nas ruas, quando apareceu uma mendiga que começou a mexer com a gente e a nos acompanhar dançando. Esta experiência nos marcou bastante e no momento em que começamos a criar Penetráveis eu me vi na pele dessa figura, que acabou fazendo parte de nosso espetáculo e cria um ruído no jogo cênico da mesma maneira que a mulher o fez quando resolveu fazer parte da nossa apresentação. Foi uma experiência incrível, porque ela tinha um outro tempo.

    NR- Você já tinha se apresentado na rua antes?

    MM- Não, foi a primeira vez. É uma experiência muito gratificante porque modifica a nossa relação com os temas trabalhados, os assuntos ficam mais vivos, o público é pego de surpresa e podemos perceber como tocamos o outro. Agora faremos apresentações na Galeria Vermelho, uma viela que oferece espaço para a encenação. Tudo que colocamos em Penetráveis é fruto da nossa experiência na rua porque criamos as coreografias e as apresentamos caminhando aqui pelo bairro, por terrenos baldios.

    NR – Conte-nos como foi a interação com as pessoas.

    MM – Saímos vestidos com roupas normais e carregando tijolos, nas mãos e na cabeça, e isso nos permitiu uma liberdade de movimento impressionante. Queríamos chamar a atenção para o que estávamos fazendo e dessa maneira fomos descobrindo novos modos de provocar os passantes. Também saímos com as placas e elas provocavam certo temor nas pessoas. Todas essas sensações e diversas situações interessantes que vivenciamos na rua estão no nosso espetáculo.

    NR – Qual a diferença entre a rua e o palco?

    MM – É um mistério como a rua está incorporada no trabalho da companhia, mas a diferença é grande no modo de se movimentar e de comunicar com a plateia. Essa experiência, que foi inovadora para nós, vazou para o palco. Parangolés foi feito em teatro convencional, mas a montagem teve mais êxito nas ruas. No teatro, queríamos estar dividindo o mesmo espaço com o público e isso era complicado. Um exemplo do quanto a rua foi importante para a nossa trajetória: Helena Katz, que respeitamos muito e nos assistiu num espaço fechado, comentou que os nossos corpos estavam impregnados da rua sem saber que estávamos levando a peça a espaços externos. Como ela teve essa percepção?

    NR – Você disse que usa a fala em Penetráveis. Como ela entra nos seus trabalhos de bailarina, visto que você também é atriz?

    MM – A relação palavra e movimento está presente na minha trajetória e em quase todos os solos que fiz há falas. Não textos corridos, mas intervenções vocais. Em Penetráveis, não há diálogos, somente palavras, que eu falo durante o espetáculo. O maior desafio será falar junto com uma trilha que é tocada num tom bem alto e que num lugar aberto poderá encobrir as falas. Por esse motivo, vou usar microfone pela primeira vez. O resultado é uma incógnita ainda para mim, porque terei a obrigação de não deixar que o microfone distancie o público.

    NR – A sua formação é de bailarina, certo? Como surgiu o teatro na sua vida?

    MM – Eu comecei a fazer teatro porque uma pessoa que havia trabalhado com o Béjart me viu dançando e disse que eu tinha carga dramática, que a minha voz era boa. Aí eu fiz muitas aulas de voz e comecei a pesquisar sonoridades e me interessar pelo teatro. O Antônio Abujamra me chamou para eu fazer uma peça com ele, aí eu percebi que poderia dar certo e resolvi seguir também a carreira de atriz. E assim as oportunidades foram surgindo. Eu queria fazer a EAD, mas o Celso Frateschi me aconselhou a não fazer nenhum curso profissionalizante na área para não perder o frescor na interpretação. Nunca fiz curso acadêmico, somente cursos para me especializar como atriz.

    NR – Como concilia as atividades de atriz e bailarina e como a sua atividade como bailarina e coreografa contribuem para a sua atuação como atriz e vice-versa?

    MM – Não é fácil conciliar. No ano passado, por exemplo, viajei com espetáculo de dança e com O Fantástico Reparador de Feridas. Tenho a necessidade de pesquisar o movimento e a sua relação com a palavra. Sempre busco no gesto, seja na dança ou no teatro, o sentido das minhas ações no palco. A dança para mim envolve a relação entre o pensamento e o movimento e neste sentido eu me aproximo do trabalho do ator. Eu interpreto sem pensar que estou atuando porque não separo o que é atividade do ator e o que é a função do bailarino. Dá para entender? Para mim as duas atividades estão interligadas e acho que é por isso que nos meus espetáculos o corpo é também corpo/voz.

    NR – E como concilia as funções de diretora e bailarina?

    MM – É complicado. Eu sempre faço participações. É uma ousadia muito grande conseguir dar conta de compor um personagem e uma coreografia e, ao mesmo tempo, ter um olhar distanciado para a direção. Creio que o importante é a experiência, o fazer artístico e mergulhar na montagem.

    Em Penetráveis, não contava que eu teria uma participação grande, eu queria fazer somente uma pontinha, mas a mulher que interagiu conosco foi tão marcante para mim que ela tinha que ser incorporada neste trabalho. Só que eu fui entrar em cena somente quando as coreografias já estavam estruturadas e isso facilitou as coisas para mim.

    A vontade de me comunicar, a vontade de estudar a relação do corpo com o pensamento e com o sentimento e de estar sempre descobrindo coisas é que me impulsiona.

    NR – Você tem feito solos nos últimos anos. É uma preferência?

    MM – Todas as vezes que eu fiz solos foram projetos que foram escritos em programas que contemplam esse tipo de manifestação artística. Eu gosto de fazer solo e as circunstâncias foram me levando a isso. E tem a facilidade da produção também. Tanto que o primeiro trabalho que fiz com a minha companhia foi um desafio porque eu me vi numa outra realidade, em que muitas vontades estão em jogo. No solo também não estamos sozinhos, mas a tarefa de ter que preencher o palco sozinha é desafiadora. Como já falei, o meu próximo projeto é o monólogo em que estou estudando a Libras e estou fascinada com a possibilidade de entender como cada gesto pode significar uma palavra.

    NR – Como surgiu a Companhia?

    MM – Desde Rimas, quando a comecei a fazer solos, já havia a Companhia. Foi uma produtora nossa que lançou a companhia na cooperativa. E éramos quatro: eu, Cláudo Gimenez, Celso Marquez, iluminador, e a produtora Amália Tarallo. A equipe muda constantemente e muitos integrantes vêm dos cursos que eu ministro na Faculdade Anhembi Morumbi de dança e teatro, atividade que já lança as bases para a minha criação. Na faculdade eu posso fazer experimentos e usá-los na companhia.

    NR – Como mantém a companhia e o que pode falar sobre o Fomento em Dança?

    MM – Nós estamos num momento difícil do Fomento, devido a impostos e a maneira como o projeto está sendo gerenciado. Acabei de inscrever meu grupo para o projeto de manutenção e circulação, mas ainda não sei o que vai acontecer. Todos os trabalhos que fizemos relacionados ao Hélio Oiticica foram viabilizados pelo Fomento. Sem o Fomento é muito difícil dar continuidade ao nosso trabalho, por isso estou verificando outras possibilidades de apoio financeiro para a manutenção da nossa equipe.

    NR – Como você recebe as indicações a Prêmios e em que isso afeta a sua trajetória profissional?

    MM – Recebo com muito prazer porque me dá força para continuar e me faz pensar sobre a minha trajetória. Quanto a me ajudar a conseguir apoio para os meus espetáculos, eu creio que deve influenciar, mas o que me toca é que percebo que estou conseguindo me comunicar com as pessoas e que eu posso investir na minha carreira. Fazer trabalhos que não passem um mínimo de conteúdo para a plateia não vale a pena. A boa receptividade das pessoas ajuda a me manter viva, atuante e estudando.

    NR – Qual a diferença entre trabalhar no Brasil e no exterior? Como foi a sua experiência de estudar na França?

    MM – Eu fiquei um ano na França e fiz estágio lá e dei aulas. Fui muito bem recebida. Logo que eu cheguei aqui, eu fiz um workshop com a Suzanne Link e fui convidada para trabalhar na Alemanha. Ela era muito amiga da Pina Bausch e me aconselhou a cuidar da minha carreira investindo em trabalhos no exterior. Queria que eu fizesse teste para a companhia da Pina Bausch. Mas eu havia voltado da Europa e sabia que lá é muito difícil para um profissional se manter. No Brasil, é complicado para um bailarino se manter, mas no exterior a competitividade é muito grande e a batalha é grande para se ganhar relativamente bem.

    NR – Nas suas viagens, o que tem te chamado a atenção na dança e teatro?

    MM- Citar nomes de companhias e artistas é complicado porque ficamos muito pouco nas cidades, a cada dia estamos num lugar diferente. Depois das apresentações precisamos desmontar os cenários muito rapidamente. Tivemos uma experiência interessante em Catanduva, durante as viagens de Speranza, dona Esperança. Um grupo de teatro, cujo nome não consigo lembrar no momento, tive aula comigo e eles ficaram muito encantados. Nunca tinha presenciado um acompanhamento tão sutil de uma plateia e uma participação tão interessante de um grupo, tanto que depois eles fizeram questão de ir falar comigo e me contaram a experiência que tinham nos palcos. Garça foi outro lugar marcante. Nunca vi tanta gente interessada e era um dia que chovia muito, com muita neblina. Em Piraju aconteceu um fato inusitado, que revelou um alto nível de entendimento e uma vontade enorme de manter contato conosco: eu não pude acompanhar a equipe e depois da apresentação o secretário me ligou para conversarmos sobre o espetáculo. O que eu senti em todas as viagens foi uma sede muito grande de ver e dialogar com as coisas que chegam de São Paulo.

    NR – O que tem chamado a sua atenção na dança e no teatro paulistano?

    MM – Tenho percebido o movimento significativo dos musicais e na área da dança me tocou bastante o Ricardo Iazzetta fazendo Noiva Despedaçada, tanto na qualidade quanto no envolvimento dele com a proposta cênica. Ah, assisti a Doze homens e uma sentença, com direção de Eduardo Tolentino, e gostei muitíssimo.

    NR – Na sua opinião, por que a dança ainda não tem destaque na mídia como merece? (Você concorda?)

    MM – A dança é mais complexa para se comunicar com o público porque envolve a sensação da nossa fisicalidade, às vezes, muito mais do que no teatro. Fala-se muito no corpo, mas no corpo que é só forma e tem que ser esculpido de fora para dentro. O corpo na dança contemporânea, ou na dança e no teatro que faço, não é uma atitude formal, exige um trabalho em profundidade.

    NR- Como é a sua relação com a internet?

    MM – Procuramos ter uma integração com o nosso público. Eu tenho um site com informações sobre a Cia e a minha carreira. Também disponibilizamos no Youtube trechos de nossos espetáculos. Quem faz as gravações é o Osmar Zampieri, nosso videomaker, que é bailarino. É preciso estar ligada na internet e confesso que eu passo muito tempo desconectada; só entro quando eu chego em casa após ensaios e apresentações.

    detalhes

    Penetráveis, com a Cia Mariana Muniz
    De 17 a 19 de fevereiro, às 20h30
    Dia 20 de fevereiro, às 19 horas
    Galeria Vermelho
    Rua Minas Gerais, 350, Consolação, São Paulo
    Informações: (11) 3138-1520

    autor

    Historiadora e estudante de jornalismo. Apaixonada por cultura, pesquisa e escreve sobre teatro desde a década de 90. - Leia outros textos de

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