• Uma madrugada que não amanheceu

    cidadeBonita

    Delírios de figuras fantasmagóricas na cidade Bonita

    A cidade de Bonita me deixa tentado. Recebi o convite de um espírito obsessor, uma dessas almas penadas, um miasma astral, para passear na cidade de Bonita. Não foi a Paulinha quem me convidou. Embora ela beijasse bem, a ponto de sugar toda minha energia. E se você quiser ser o primeiro a beijar a Paulinha num dia, você tem que beijá-la logo de manhã cedo, quando ela acorda. De maneira que marcar um encontro com a Paulinha é igualmente complicado como ser o primeiro a beijá-la no dia.

    Então eu vagava pelas ruas escuras da cidade de Bonita. Uma cidade vizinha cai bem diante dos meus olhos. Bonita fica ao lado de uma favela. O engraçado é que nesta favela, a figura do favelado, estereotipado, não existe mais. Acho que os favelados tornaram-se universitários. Bonita tem um som de flauta e uma aparência esquizofrênica, com cenários móveis. Em bonita tudo está ficando de madrugada rapidamente.

    Tenho a companhia de uma alma das trevas. Continuo andando por Bonita, de sapato de couro, uma camisa social de mangas longas cor de talher, jeans, meu supracitado cachecol mágico e outras pequenas descrições. O espírito sem luz estava vestido pateticamente habitual, de fantasma. Apesar de estar ali e daquele jeito, não senti medo nem vontade de comer pizza. E dizem que a sensação da falta de medo é terrível, mas sempre achei que não existem coisas terríveis, que tudo não passa de boato.

    Paramos num lugar sem cor e ficamos vendo sensações que nos fazem rir que estavam fixados nas paredes de um supermercado e no decote das namoradas. O espírito obsessor olhou pra mim e disse, “tenho que ir para a sua casa e me esconder debaixo da sua cama ou dentro do seu armário, bú”. Eu pensei que não teria problema. Já estava amanhecendo em Bonita, e aquelas coisas todas que acontecem num dia quando ele está amanhecendo: expressões poéticas, delírios filosóficos, espanto, coceira no nariz e ereções involuntárias. O espírito obsessor ainda me ofereceu um pouco de sexo fácil e de graça. E juro que não era a Paulinha.

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    Caio Campos também escreve para o blog Dublês de Poetas

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