• Em Busca do Ouro, com Charles Chaplin

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    Charles Chaplin – Um clássico imperdível, dirigido e protagonizado pelo adorável vagabundo que encantou e ainda encanta milhões de pessoas

    Charles Chaplin é um dos maiores nomes do Cinema. Isso é inegável. Mas, ao que tudo indica, essa constatação virou lugar comum. Digo isso porque são raros os jovens que, atualmente, tenham visto algum de seus filmes. Ou valorizem a sua sutil arte em preto e branco. Numa época em que recursos como o 3D são colocados como os "salvadores" do Cinema, quem se interessa por um singelo vagabundo de bigode e chapéu? Com recursos escassos perante os que vemos na tela grande nas produções contemporâneas, Chaplin conseguiu o que muitos dos filmes produzidos hoje jamais conseguirá: ser atemporal.  A simplicidade de seus roteiros, suas cenas, os argumentos de suas obras, fazem com que continue a ser imitado até hoje. Falemos de um de seus filmes que, mesmo tantos anos depois, continua no imaginário popular através de várias referências: Em Busca do Ouro.

    Feito originalmente em 1925 e relançado em 1942, o filme foi apresentado primeiramente mudo e depois com trilha sonora elaborada por Max Terr, à exceção da cena em que o personagem dele dança com a personagem Geórgia, parte essa embalada pelo conhecido balé A Bela Adormecida, composto por Tchaikovsky no final do século XIX. Ironicamente, essa trilha foi indicada a dois Oscar, perdendo ambos. Digo que isso é irônico porque, afinal de contas, o filme era mudo, não é mesmo? E o motivo para Chaplin ter perdido é bem óbvio para quem conhece sua história de amor e ódio com a Academia. Ele foi o primeiro a usar um Oscar como encosto de porta (até hoje só ouvi falar de Marlon Brando também tendo feito o mesmo). 

    Mesmo quem nunca ouviu falar de Chaplin deve ter algumas das imagens desse filme na cabeça, como a cena em que ele come as próprias botas ou faz a "dança dos pãezinhos". Quanto à primeira, uma curiosidade interessante: ele comeu aquelas botas de verdade. Elas eram feitas de massa de confeiteiro e eram comestíveis, como se fossem bolo! Perfeccionista, ele mandou fazer vários e filmou a cena diversas vezes. O resultado final é impecável e deixou muita gente se perguntando como ele havia conseguido cozinhar o couro e comê-lo com garfo e faca!

    Outra cena genial é aquela na qual a neve e o vento entram na cabana e o arrastam, ele resiste patinando de uma forma engraçada e cuja coreografia surpreende pela sofisticação (estávamos em 1925, não nos esqueçamos!). Quando dança com Geórgia também é engraçado e encantador, sendo que no imaginário dos jovens de hoje esse momento irá remeter muito à valsa dançada por Aurora e seu príncipe no clássico da Disney de 1959. E é natural que assim o seja, não só pelo fato da música ser a mesma mas também porque, guardadas as devidas proporções, a trajetória dos dois personagens se parece muito: encontram o verdadeiro amor e quase juntamente a riqueza material. 

    Chaplin manteve durante toda a sua vida seu método de filmar em segredo. Após falecer, descobriu-se: não usava roteiros prontos. Nos dias de hoje, isso é quase um suicídio. Os filmes custam milhões e milhões de dólares, envolvem equipes de mais de 300 pessoas, tem toda uma complexa rede girando em torno deles para que funcionem. De modo que a falta de um roteiro não só é impraticável como custa muito caro. Na época, Chaplin tinha liberdade para fazer isso: foi um dos criadores da United Artists, era garantia de bilheteria e lidava com temáticas simples, partindo sempre de argumentos como "Carlitos vai ao Parque" ou "Carlitos adota uma criança". Tendo isso em mente, Chaplin ia filmando e experimentando situações. Fazia inúmeros takes. Imagine o preço de tanta película gasta! Seus filmes eram bem mais baratos do que os de hoje, mas, ainda assim, eram bem caros pros padrões da época.

    Outra curiosidade sobre Em Busca do Ouro: a versão de 1925, a original, tinha mais de 10 minutos além dessa de 1942, que é a mais fácil de encontramos no mercado atualmente. Também tinha um desfecho diferente: em 1925, Chaplin e a mocinha se beijam no final, algo oportuno para ele, que estava romaticamente envolvido com a atriz. Já em 42, quando não tinha mais o caso com ela, não era interessante a cena, para sua tão conturbada vida pessoal. De modo que ele a substitui por uma outra cena que filmou na época e nem de longe é tão rica quanto a primeira. A cena do beijo é encontrada no youtube, só procurar bem que se acha.   

    No cinema mudo tudo dependia de uma boa infraestrutura de cenários e dos atores, principalmente destes. A expressividade corporal era imprescindível, de uma forma que não dava pra embromar. Você tinha de ser muito bom para que as pessoas entendessem o sentimento que você estava querendo passar. Mesmo com aqueles quadros com os diálogos, era necessária certa desenvoltura que, nos dias de hoje, seria até excessiva. Os atores atuais são comedidos em seus movimentos, pois em alguns casos estão cercados de câmeras de todos os lados. Me pergunto até que ponto isso é uma involução ou evolução.

    Fato é que ainda encontramos raros atores que conseguem nos dizer, apenas com um olhar, o que o personagem está sentindo. Na minha humilde opinião, é a força desse olhar que leva as pessoas ao cinema, sendo o 3D apenas "um amor de verão", se é que vocês me entendem. Chaplin sabia bem disso. E é por isso que, quase cem anos depois, ainda estamos falando de sua genialidade. Me pergunto se alguns dos cineastas que estão no seu auge hoje terão esse privilégio no futuro.

    Abaixo, um dos momentos mais memoráveis e singelos, do filme e do Cinema, quando Chaplin faz a "dança dos pãezinhos". Procurem assistir o filme todo, para entender o contexto dessa cena. É bonita, mas, por causa do momento em que acontece, de uma tristeza enorme, de cortar o coração:

    detalhes

    Disponível para aluguel e compra, a Charles Chaplin Collection possui 4 DVD's e reúne a obra completa do cineasta. Procure na loja ou locadora de sua preferência.  

    autor

    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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