• Estação Poética

    Jandira Costa – Escritora de primeira viagem, poeta de coração, Jandira Costa compartilha conosco seu cotidiano, em versos

    Felicidade

    Ainda criança
    íamos de mãos dadas

    a passear no universo
    comum de mãe e filha,
    quando, fitando-a
    profudamente
    perguntei:

    - Mamãe, o que é felicidade?

    Entre um muxoxo

    e perplexa, puxou-me
    a orelha e respondeu:

    - Isso é pergunta que se faça?

    Criada em 2009 no Rio de Janeiro, a editora Usina de Letras ainda é pouco conhecida no Brasil. Seu objetivo é viabilizar a publicação de obras de novos talentos da nossa literatura, oferecendo aos escritores espaço e consultoria editorial ao qual eles não tem acesso normalmente. Um desses novos talentos é Jandira Costa, escritora que está lançando Estação Poética, livro constituído por 35 poemas. Usando versos, ela conta um pouco de sua história, compartilhando com os leitores as emoções da infância, a vida em família, a realidade da região onde nasceu. Com alegria e, ao mesmo tempo, sutileza, passamos a ser seus cúmplices. Em entrevista ao Opperaa, a autora explicou um pouco mais sobre o livro e sobre seu processo criativo. Os dois poemas que estão nessa página foram extraídos da obra. 

    Porque decidiu publicar este livro? O que a motivou?
     
    Escrevo desde criança e, quando iniciei o curso de Letras (Português e Literatura) na UFPb, em João Pessoa, um professor de Literatura Portuguesa, Virginius da Gama e Mello, gostava de ler meus meus poemas e dizia, com um certo ar de graça, que eu escondia um poeta em mim (risos) com uma visão fotográfica das emoções e só precisava revelar o pensamento e transpor para o papel.
     
    Porque escolheu a poesia como forma de escrever suas memórias? Sempre foi poeta?

     
    O meu pai era poeta e cantava o cotidiano em cordel. Herdei sua poesia, sensibilidade e a inspiração vem por conta das lembranças e do aprendizado ao longo da vida.
     
    Porque os poemas são escritos em português e em italiano?
     
    Vivi uma bela história de amor e morei na Itália por um tempo, onde fiz amigos e prometi verter Estação Poética para o italiano, assim eles teriam uma melhor compreensão dos poemas. Tive sorte de conhecer a Francesca Felice, italiana radicada no Brasil e que cultiva uma paixão por textos literários, o que tornou possível esta mediação linguística. A presença de termos regionais às vezes dificulta a tradução. O trabalho da Francesca foi notável. Os amigos poetas de João Pessoa, Antônio Mariano e André Ricardo Aguiar, cuidaram da apresentação: orelha e prefácio da obra. Na verdade, o livro é uma cartilha de amor.

     
    Há exemplares sendo vendidos na Itália?
     
    Não, mas graças ao professor Roberto Max Storai Lucich, coordenador do curso de extensão Panorama Italiano, da Universidade de Brasília, e com a participação de alunos apaixonados pela cultura e língua italiana, o meu livro foi apresentado, divulgado e, na ocasião, um vídeo foi produzido. Quando viajei à minha terra natal, em setembro último, doei exemplares para bibliotecas de universidades e outras instituições. Penso em divulgá-lo, na Itália, por meio de embaixadas. Atualmente os livros podem ser adquiridos através da Editora Usina de Letras, no Rio de Janeiro.

     
    Seus leitores tem lhe dado feeback? De que tipo?
     
    A maioria dos meus leitores são amigos ou conhecidos e foi muito gratificante cada comentário. Os colegas da empresa onde trabalho, mesmo voltados para assuntos de Ciência e Tecnologia, abriram espaço para a poesia e isto prova que a ciência é importante, mas o poeta humaniza.
     
    Como é o seu processo de escrita? Como coloca as idéias no papel? O que te inspira?

     
    O ato de escrever é complexo, mas a primeira ideia surge como um "flash". No poema "Vigília" descrevo a busca da palavra "(…) como agulha no palheiro, onde transponho madrugadas e pesadas pálpebras", até concluir o pensamento. São etapas de leituras, como quem lapida matéria bruta: corta, rejeita, substitui ou refaz. Em "Naufrágio" faço um comentário sobre ideias que não se completam: " (…) e o papel naufraga, no mar de palavras, despido".

    Dentro de mim existe uma consciência de felicidade e isto me anima. Tive uma infância feliz. A família, o trabalho, os amigos, tudo tem sua importância e me esforço para conviver bem com as diferenças. Olho o mundo em volta e procuro não me dar tanta importância. Neste Natal, por exemplo, penso numa árvore imensa e todos se abraçando, mas o que me inspira mesmo é conhecer e saber que existem pessoas como você, Priscila e que meu livro (que privilégio) se encontra na sua mesa de cabeceira.

    Naufrágio

    A folha em branco
    flutua no oceano,
    à deriva.
    As ideias flanam
    e o papel naufraga,
    no mar de palavras,
    despido.

    detalhes

    Estação Poética, de Jandira da Costa Barbosa
    Nº de Páginas: 104
    Preço: R$ 25,00
    Pode ser adquirido através de contato com a escritora ou com a editora Usina de Letras

    autor

    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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    A POP4 é uma revista de crítica de cultural e entretenimento. Surgida a partir do projeto Opperaa - 2008