B1, Antônio Tenório da Silva em Pequim
Por: Priscila Armani, em Cinema, Review | Nenhum comentário

B1 – Tenório em Pequim – O atleta brasileiro Antônio Tenório da Silva finalmente ganha a atenção que sua trajetória de vida merece.
Apesar de ser o único atleta do mundo a levar quatro medalhas de ouro consecutivas em Paraolimpíadas e de ter sido o porta-bandeira da comitiva brasileira nas Olimpíadas de Pequim, o judoca brasileiro Antônio Tenório da Silva permanece desconhecido para boa parte da população. Essa lacuna indesculpável na história do esporte brasileiro é suprida por B1 – Tenório em Pequim, documentário dirigido por Felipe Braga e Eduardo Hunter Moura, ambos estreando na direção de longa-metragem com este belo trabalho.
O filme conta a história do atleta, mesclando o acompanhamento de sua rotina profissional de treinos e estágios com entrevistas a respeito de seu estilo profissional; um pouco de sua vida pessoal e revelando curiosidades sobre o Judô e o funcionamento das Paraolimpíadas, que, no final das contas, quase não se diferenciam das Olimpíadas efetivamente.
O nome da obra deriva da classe de competição de Tenório: B1 é aquele atleta considerado totalmente cego. Apesar disso, não há sentimentalismo ou pena por parte de ninguém. E o próprio filme constrói diante de nossos olhos um protagonista forte, que é um esportista profissional respeitado, humilde, consciente e independente, que fala por si mesmo. Quando ele completa sua trajetória, temos instrumentos suficientes, fornecidos pelo filme, para julgar seu mérito. "Se eu ganhar a vitória é de todos, se eu perder a derrota é só minha", uma de suas falas mais impactantes e, ao final, percebemos que ele não poderia estar mais certo.
Os depoimentos são informativos e interessantes. A história é construída de forma não-cronológica, culminando nas Paraolimpíadas de Pequim. No início do filme, de forma inteligente, são aproveitadas falas do protagonista com outros personagens para introduzir a história dele, já que muitos dos espectadores estão vendo-o pela primeira vez. Por exemplo, a entrevista que ele concede a uma jovem repórter. Ele diz a ela: "Eu me chamo Antônio Tenório da Silva, sou atleta…" e se apresenta para ela e para o público. Isso é um aproveitamento interessante do material captado durante o acompanhamento feito pela equipe de filmagens e que respeita a capacidade da audiência de interpretar por si própria as informações que está recebendo. Aliás, o filme todo é assim. Nada é mastigado. Confia-se na inteligência de quem assiste, o que é excelente.
A câmera foge do padrão "tremido" que tem sido recorrente em muitos filmes que tenham alguma ação, nesse caso as lutas de Judô. Ela acompanha os movimentos dos personagens de perto e de longe, mas não treme muito. Seu deslocamento é bem ponderado. Anda com os personagens mas não treme. Muito raramente acaba sendo atingida involutariamente pelos golpes dos atletas.
A captação de som direto exigiu um esforço hercúleo dos técnicos de som Leandro Lima e Bruno Armelin, já que filmaram em condições de muito barulho. Para captar as vozes muitas vezes colocaram o microfone o mais perto possível dos personagens, o que exigiu muitos close-ups, mas mesmo assim o microfone direcional aparece na tela pelo menos duas vezes. O esforço fica ainda mais óbvio quando Tenório diz "eu tenho de distinguir a voz do meu treinador dentre as demais" e passamos a ouvir claramente a voz do treinador em meio à algazarra do torneiro. Para captar tão claramente as ordens do treinador, eles devem ter ficado com o microfone quase colado na boca dele. O que faz com que mais o escutemos do que o vejamos. E quando ele aparece, não está falando nada de relevante. Isso porque a câmera não pode captar o microfone. Então ou é a fala ou a imagem.
O uso do som de luta também é feito de diversas formas bem interessantes. Destaque para quando a tela fica preta e apenas ouvimos o combate, num momento decisivo. Uso simplesmente genial do som. Inserir ”falas retrospectivas" durante o confronto final também foi toque de mestre. Quanto à trilha sonora, é forte e impactante, presente principalmente nos momentos de combate, para criar tensão e emoção. De fato, o trecho mais emocionante do documentário é aquele que mostra as reações dos competidores e seus técnicos, ao som de um piano belíssimo, de encher os olhos de lágrimas e que sintetiza bem o que significa para aqueles competidores estar nas Olimpíadas. São usados vários instrumentos na trilha instrumental do filme: bateria e violoncelo na hora da eliminatória, somados ao som direto da cena; violinos e cordas; e até mesmo o rock com sua bateria mais pesada.
Se, como diz Tenório, "judô é o único esporte que não tem sorte", o mesmo vale para o Cinema, seja no Brasil, seja em qualquer parte do mundo. Ambos precisam de talento para funcionar. E Felipe Braga e Eduardo Hunter Moura demonstram tê-lo de sobra em B1 – Tenório em Pequim. Torçamos para que a parceria seja frutífera e nos traga outras produções como essa, para podermos nos orgulhar do Cinema nacional de uma vez por todas e para que ele mostre finalmente ao mundo todo o seu potencial.
detalhes
B1 - Tenório em Pequim
Dirigido por Felipe Braga e Eduardo Hunter Moura (1h 39 min)
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