• Hepburn, a eterna Bonequinha de Luxo

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    Bonequinha de Luxo – Apesar de não ter nada de especial, trilha sonora, protagonista e figurino contribuem para que Bonequinha de Luxo tenha fãs em todo o mundo.

    Na expectativa de completar 50 anos de seu lançamento, Bonequinha de Luxo, filme dirigido por Blake Edwards (responsável por Um Convidado Muito Trapalhão e O Retorno da Pantera Cor-de-Rosa), é um filme que se tornou um clássico, seja pelos vestidos e bijuterias usados pela personagem Holly Golightly que a tornaram muito bonita, seja pelo próprio tempo, que acaba transformando qualquer coisa ‘velha’ num ‘clássico’.       

    Acho que o motivo é mais o primeiro, já que o mundo da moda adotou Hepburn como sua musa desde esse filme. A personagem virou um ícone fashion e hoje em dia compõe camisetas, bolsas e bottons. Apesar disso, poucas pessoas da geração Y, muito menos da geração Z, se deram ao trabalho de assistir a Bonequinha de Luxo. Um olhar mais apurado, isento do fato de que já se vão tantos anos, nos faz questionar a qualidade do filme. Música, ok. Figurinos, ótimos. Mas e aí? Cativante? Empolgante? Diferente? Nada disso. E, ao mesmo tempo, já não há mais a abertura para se falar bem ou mal de uma obra totalmente descontextualizada de quando foi concebida. No entanto, acredito que posso dizer que provavelmente esse filme foi o Sex And The City de sua época, levando-se em consideração o contexto e as devidas proporções, claro.

    Mas vamos à história. Holly Golightly (Hepburn) é uma adorável garota que seduz os homens por dinheiro. Ela sempre recebe U$$ 50 "para o toalete". Sai com eles para jantar e os classifica em ratos e super-ratos. Até que conhece Paul Varjak (George Peppard), um escritor que vem a se tornar seu vizinho. Eles começam uma amizade inocente, já que ele já tem um envolvimento amoroso. Saem para vários lugares juntos, se tornam realmente próximos.

    A história foi inspirada, muito de leve, em livro de mesmo nome (Breakfast at Tiffany’s) de Truman Capote, lançado em 1958. Este ficou simplesmente enojado com o resultado final. A começar pelo fato de que a atriz que ele havia escolhido para ser a protagonista, Marilyn Monroe, não fez o filme (por vontade do agente dela e também da Paramount). Também trocaram o diretor, originalmente John Frankenheimer era o escolhido (no mesmo ano fez O Homem de Alcatraz, indicado a 4 Oscar), Hepburn se recusou a trabalhar com ele. Ela podia escolher quem quisesse, afinal já era uma atriz vencedora do Oscar quando fez Bonequinha de Luxo, o ganhou em 1953 por A Princesa e o Plebeu. Assim, sendo a Julia Roberts de sua época, optou por Edwards.     

    O livro contava a história de uma prostituta bissexual que conhecia um vizinho escritor gay (personagem no qual Capote inspirou-se em si próprio) e os dois se tornavam amigos e companheiros de algumas noitadas. Agora, em que isso se parece com a história descrita há dois parágrafos atrás? No filme, Hepburn sequer aparece dormindo com qualquer um dos homens com quem saía, dando a entender que eles apenas lhe davam dinheiro por causa de seus lindos olhos. O escritor também foi um personagem que ficou totalmente distorcido. Capote não cabia em si de tanta ira. Até mesmo o desfecho foi totalmente modificado. No ‘frigir dos ovos’, apesar de muitas cenas terem sido filmadas exatamente como descritas no livro, podemos considerar o roteiro como praticamente original. E que funcionou bem, já que a obra foi um grande sucesso de bilheteria. Todas as mudanças foram feitas, obviamente, para tornar a história mais palatável ao gosto do conservador espectador norte-americano da época.  

    A música Moon River é bem bonita mesmo e é praticamente o motivo pelo qual devemos assistir ao filme. Foi escrita especialmente para Hepburn, que não tinha nenhum treinamento em canto, e adaptada às suas dificuldades de alcançar notas mais agudas. A composição da faixa, por Henry Mancini, e também da Trilha Sonora, rendeu a ele dois Oscar, de Melhor Canção e Melhor Trilha Sonora. Ironicamente nunca foi premiado por seu trabalho mais conhecido, a inesquecível canção-tema de A Pantera Cor-de-Rosa. Toda a trilha, no geral, funciona, e estes foram Oscar bem merecidos. Curioso saber que, comercialmente, a versão desta música cantada por Hepburn só foi lançada após a morte desta, em 1993.

    As sequências de maior destaque são, definitivamente, a da festa e a da chuva. Movimentos de câmera em 360º e sequências de travelling são bastante usados na primeira. Esses movimentos predominam em outras partes do filme também. Destaque para o uso, bem de leve, do filtro Glow, tanto em Hepburn quanto em Peppard, que dá um leve ‘brilho’ aos dois, antes de uma cena peculiarmente importante em Bonequinha de Luxo. Observando-se bem, consegue-se perceber. É bem pouquinho, mas muito interessante. Para quem não sabe, o Glow predominava em filmes preto-e-branco e servia para suavizar o rosto das atrizes em close, dando uma leve desfocada que as fazia terem um ar mais ‘etéreo’.  

     
    Em geral, Bonequinha de Luxo envelheceu mal e não seria tão bem aceito se fosse feito dessa forma atualmente. Ao mesmo tempo, uma readaptação seria interessante, e teria mais chances de ter um roteiro mais fiel ao que Capote escreveu (não, eu não considero Amar… não Tem Preço como um remake). No geral, é uma obra levemente divertida, uma comédia romântica de seu tempo, que ainda conseguiu, apesar de todos os seus defeitos, ser mais sofisticada que boa parte dos filmes que Hollywood coloca no mercado hoje.

    detalhes

    Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's) 
    Dirigido por Blake Edwards (1h 55 min)
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    autor

    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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