• Mas se tudo desse certo

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    Um conto sobre traição, imaginação e cabeças de bacalhau.

    Eu dormia quando fui acordado por uma voz doce e misteriosa dizendo, “Mar, meu salgadinho”. A voz se instalava por inteiro, comprida e nua como o início da primavera. Sensual e tímida, entrava pelos móveis e se misturava entre os quadros, instalando-se no ar da manhã e no frescor preguiçoso que se apoiava sobre meu travesseiro, “Mar, meu salgadinho”. Um bocejo assim e ali, depois mais um e mais dois, de maneira que a voz, feminina, jovial e vívida, como uma macieira no ápice da primavera, ia ficando cada vez mais atraente, se comparada a uma janela no porão. “Mar, meu salgadinho”.

    Melodia, ah, essa melodia. Mas já eram dez horas da manhã e eu não levantava nesse mundo nem por boceta alguma, embora aquela voz que saía agradável e soava com mesma intensidade, me fizesse remexer por debaixo dos lençóis, fazendo acreditar que estava mais vivo que minha própria esperança por isso. “Mar, meu salgadinhôô”. Essa entonação no último balbuciar deixou-me um pouco cismado. Descobri que não é pelo prazer que acordamos para a vida, e sim pela cisma. Tudo que fazemos é por cisma de alguma coisa ou por ensimesmados que somos.

    Tem sempre algo agressivo e hostil esperando por você no próximo parágrafo, ou não se engane tão facilmente. A indiferença pode levar o leitor a acreditar num desprezo do autor pela narração não linear de fatos. Isso é a falta de caráter literário, ou falta de concisão, coesão, lógica, picolé de morango e outras auto deliberações que desrespeitam o leitor.

    Por que ainda estava na cama, embora aquela voz continuasse me chamando célere e cada vez mais firme? Tudo que é firme é rude. E toda mulher rude parece um pouco com a chatice do operador de elevador às sete da manhã. Ou com a simpatia do padeiro bigodudo. A mulher tem que ter algo de vulnerável na voz. Um brilho ingênuo. Algo de inseguro, isso me parece muito feminino e, por isso, perfeito. É com essa premissa, além do machismo, que foi construído todo o romantismo do mundo.

    “Porra, Mar”, gritou a voz – se é que voz grita ou se existe mesmo cabeça de bacalhau -, até então era apenas uma voz que interagia lânguida e fina até se revelar grotesca. Olhei pro lado e a Paola continuava dormindo. “Juremar, seu filho da puta, eu sei que você está aí com uma vadia”. Escutei a interpelação, já com o coração gelado e com os músculos contraídos. Pensei em levantar, mas ignorei meu medo. “Juremar, seu embucetado”. Pensei que isso já estava ficando demais, embora eu desconhecia a proporção do muito e da importância das coisas em demasia.

    A Paola tinha um sono leve de mulher encantada e podia acordar a qualquer momento. Então resolvi levantar e olhar pela janela para ver de onde vinha essa voz. “Juremar, você está me traindo com a Paola!”. Eu respondi com firmeza que não, “é cisma sua”. Essa vadia está na sua cama”, insistiu a voz. Repliquei, “Não está. Escuta, Voz, se estivesse, seria apenas uma prova do seu amor, de provação, um teste que estaria fazendo para provar o meu amor a você, do nosso amor”. Não sabia com quem conversava, nem a razão pela qual me justificava. Talvez o entendimento da insensatez. Orgulho de vencer a própria insegurança. A certeza da estima e do autocontrole.

    Argumentei mais algumas bobagens pela janela, entrei em assuntos de conteúdo. Cheguei a consultar a arqueologia conceitualista da minha retórica, embora tarefa pouco atraente, nessas horas ela sempre ajuda. Todo pensamento consultado é um vício e vem acompanhado de expressões sem olhares dissimulados e com ausência de lábios cortados e maçãs rosadas, pensei. Reparem, leitores. Repitam algum conceito de Pierce ou Theodor Adorno (ou qualquer outro conceitualista que você conheça), de frente para o espelho, e veja se você não fica parecendo um atendente de lanchonete dizendo que acabou o pastel. É igualzinho. Pelo menos para mim é tão óbvio e sensato que imaginar que outra pessoa não pense o mesmo é vestígio do declínio da civilização e perda total da polidez.

    “Juremar…” “Jure…” a voz foi enfraquecendo até desaparecer! A voz foi vencida. Rendida pela palavra. A voz acuada pela interpretação. A voz indo embora, sendo dominada por um silêncio maníaco de glória e vitória. A voz sumindo aos poucos como uma assombração derrotada, como uma assombração enfraquecida, como uma assombração que perdeu, que se fodeu, perplexa e assustada. A voz e o medo se foram, a cisma ficou. Paola continuou dormindo – a propósito, peladinha – e, femininamente, colocava as duas mãozinhas no cobertor, puxando-o graciosamente para cima, na tentativa de cobrir todo o rosto. Eu fiquei em pé, de costas pra rua, de costas para aquela janela, esperando o café chegar. Mas não tinha café.

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    Mais conhecido como Caiocito. Está quase completando alguma coisa, sendo este quase, mínimo. É especialista na retórica sofista e inventiva. E também dá opiniões estéticas sobre comportamento. Siga-o no twitter. - Leia outros textos de

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