Curumim Disse Sim e Curuminha Disse Não
Por: Nanda Rovere, em Artes Cênicas, Review | Nenhum comentário

Teatro Cleyde Yáconis – Saiba mais sobre Curumim Disse Sim e Curuminha Disse Não e confira entrevista com o diretor Paulo Ribeiro.
Até o dia 31 de outubro o Teatro Cleyde Yáconis recebe a peça Curumim Disse Sim e Curuminha Disse Não, escrita e dirigida por Paulo Ribeiro.
O espetáculo reúne lendas do nosso folclore, algumas conhecidas, outras que mereciam maior atenção do público e dos estudiosos da cultura brasileira. São duas histórias que se passam numa aldeia, cujos moradores têm o seu futuro ameaçados por uma doença. Para tentar salvar seu povo, o pequeno índio Curumim sai em busca de remédio e conta com a companhia de um jovem índio e um velho pajé. No meio de caminho, Curumim se perde, encontra seres que o ajudam a reencontrar os seus parceiros e passa por um momento decisivo: preservar ou não as tradições do seu povo, mesmo que isso lhe custe a vida? Já a pequena Curuminha vive a mesma aventura a seu modo e seus atos acabam contribuindo para que a comunidade consiga enfrentar com mais segurança os problemas do cotidiano.
A peça é uma livre adaptação para o universo infantil da obra intitulada "Aquele que diz sim e Aquele que diz não", de Bertolt Brecht. Recheado de música, que conduz toda ação, o espetáculo apresenta muita poesia textual e beleza visual para estimular a reflexão, a criatividade e o encantamento das crianças. A cenografia é do próprio diretor e autor, em conjunto com Leo Diniz, que também assina o figurino. A iluminação é de Cizo de Souza. Elementos do cenário e figurino ambientam a ação na mística floresta.
Os dois protagonistas passam pelas mesmas aventuras e têm a mesma missão de definir o futuro de seu povo. A encenação e os diálogos, por esse motivo, tendem a ficar repetitivos. Em alguns momentos a peça é um pouco cansativa, mas pequenos detalhes, sobretudo na interpretação dos atores e nas ações dos personagens, fazem a diferenciação das duas partes da peça e imediatamente a apresentação se torna novamente dinâmica.
Cibele Troyano é excelente atriz; dá um show de humor e versatilidade, sobretudo como Cobra-grande. Nábia Villela sempre emociona porque se entrega de corpo e alma ao canto e busca dar às suas personagens carisma. André Marçal diverte o público como Curupira. Victor Lei e Mariana Siqueira não vivem papéis que permite versatilidade e talvez por isso parecem ainda um pouco "presos" ao texto.
Paulo Ribeiro é um nome importante na área do teatro paulistano e tem se destacado na produção de musicais. Nos últimos anos, tem levado ao palco montagens que primam pela qualidade técnica, beleza cênica, poesia e textos inteligentes, que suscitam reflexões e aprimoram o conhecimento. Com obras originais e adaptações, o artista reúne sucessos como Amor, Rapsódia dos Divinos e O Poeta e as Andorinhas. Em 12 anos de profissão, dividiu o seu tempo dirigindo, produzindo e escrevendo. Nesta entrevista, ele fala sobre o seu novo espetáculo, sobre O Poeta e as Andorinhas, em cartaz no Teatro Imprensa, pontua momentos da sua trajetória e conta características do seu processo de criação.
Nanda Rovere/Opperaa – Como surgiu a idéia de transpor as ideias de Brecht para crianças e qual o motivo de ambientar a história numa aldeia?
Paulo Ribeiro – Sempre que leio, grandes obras ou estudo grandes escritores, penso de que forma essas obras e esses escritores, podem ser úteis ao homem de hoje e de amanhã, sejam eles adultos ou crianças. Ao adaptar uma dessas obras ou retransmitir o pensamento de um desses mestres, busco sempre atualizá-los, reinventá-los e aproximá-los do nosso tempo, da realidade que vivemos hoje. E o que muitas vezes me espanta é perceber que a ciência e a tecnologia evoluíram e evoluem a passos largos, mas o homem pouca coisa mudou de fato. Por isso tenho voltado os meus olhos para as crianças, na esperança de poder contribuir na construção de uma sociedade mais justa, mais humana e consciente. Foi assim que surgiu a idéia de transpor as idéias de Brecht e Oscar Wilde para crianças e jovens. Quanto ao fato de ambientar a história numa aldeia e entrelaçá-la aos mitos do nosso folclore, essa foi a maneira mais original, livre e alegre que encontrei para transmitir à criança pensamentos enriquecedores, sem com isso apelar para o didatismo e, ao mesmo tempo, encontrei a possibilidade de aproximá-las de nossas raízes e tradições, que são fontes de sabedoria e pureza.
NR- Fale também sobre O Poeta e As Andorinhas, já que num primeiro momento Oscar Wilde parece um artista muito complexo para ser compreendido pelas crianças.
PR – O Poeta e As Andorinhas é uma adaptação para o palco de contos e estórias de Oscar Wilde já destinadas a crianças e adolescentes, e o que torna esse texto original é a maneira que encontrei para entrelaçar a própria história de vida desse gênio e sua obra mais famosa: O Retrato de Dorian Gray. Procurei preservar a essência de cada uma delas ao reconstruí-las para as crianças e adolescentes, e ao mesmo tempo atenuá-las em suas complexidades. E o caminho para isso foi à leveza, a poesia e a verdade que está por trás de todas elas. A criança e o jovem sempre encontram uma maneira de filtrar, assimilar, simplificar e trazer para seu entendimento tudo que muitas vezes para o adulto é mais difícil de aceitar.
NR- O Poeta e as Andorinhas estreou em 2008. Quando um trabalho fica muito tempo em cartaz você mexe na direção?
PR – Raramente faço alguma alteração em meus espetáculos depois da estréia. Pelo contrário, busco sempre dar uma manutenção para manter o frescor da criação, o ritmo e o vigor que, vez ou outra, se perde ou se desgasta quando a temporada é muito longa. Essa manutenção e essencial para qualquer espetáculo, e quando acontece à substituição de algum ator ou técnico, tenho sempre a preocupação de preparar o substituto na mesma base e processo da equipe original.
NR- Você utiliza uma linguagem específica para que as idéias de Brecht e Oscar Wilde sejam facilmente compreendidas pelas crianças?
PR – Não necessariamente, meu caminho é sempre falar com clareza e leveza. Não importa sobre o que, ou de quem estou falando, é a criança e o jovem que habitam em mim que deixo se expressar da maneira mais simples possível. O que muitas vezes impressiona as pessoas é o alto nível das produções, principalmente ao que se refere a custos orçamentários, porém, ter ou não ter grandes orçamentos não é exatamente o que determina a qualidade artística dos meus trabalhos.
NR- De que maneira as músicas estão inseridas nas histórias das peças?
PR – Sempre utilizo a música em meus trabalhos como complemento dramatúrgico ou apoio cênico, seja na atmosfera, no ritmo ou simplesmente por achar que a música é a maneira mais direta de chegar aos sentimentos. Sou um amante da música naturalmente e talvez seja por isso que tento inseri-la ao máximo nas minhas criações.
NR- Nesse sentido, qual a diferença entre dirigir musicais e textos tradicionais?
PR – Nos musicais a música torna-se eixo principal de todas as atenções, é ela que conduz tudo, desde a história propriamente dita até as interpretações. Nos textos tradicionais a música é apenas mais uma ferramenta importante que o diretor pode ou não utilizá-la de maneira mais direta ou indireta, assim como a iluminação, os figurinos ou a cenografia.
NR- Há especificidades para escrever e dirigir montagens direcionadas a crianças e adultos?
PR – Não sou preso a especificidades, sou um criador que busca falar com as crianças e os adultos sempre de igual para igual, e não subjugar a capacidade deles. Não acredito em fórmulas e no que dizem ser certo ou errado, penso que o bom teatro, a boa arte é aquela que comunica e encontra no seu público a compreensão.
NR- Como surge a "inspiração" para os textos originais? O que te move a escrever?
PR - Sou um artista inquieto, estou sempre fugindo da zona da acomodação. Gosto de transitar perigosamente por todas as vias. Não sei explicar de onde vem a inspiração, sei apenas que vem das coisas mais simples do meu ser, do meu cotidiano mais banal. Quanto ao que me move a escrever é exatamente o contrário. São as coisas mais profundas e latentes à minha alma. É a necessidade de expressar sentimentos, de encontrar respostas para as coisas que não compreendo, e achar que posso compartilhar com alguém algo que verdadeiramente acredito.
NR- Fale sobre a concepção dos seus espetáculos e as parcerias que estabelece com elenco e equipe técnica.
PR – Tanto os meus textos quanto as minhas encenações, possuem muito da minha personalidade, é claro. Mas nada que eu possa considerar um estilo especifico. Estou sempre buscando me renovar, me reinventar em tudo que faço. E na busca de novas aventuras, procuro sempre renovar as equipes, os elencos e os parceiros. E geralmente aqueles que compartilham desse mesmo pensamento de renovação, frequentemente estão envolvidos em meus trabalhos.
NR- Como vê o boom de musicais na atualidade, sobretudo os direcionados ao público infantil?
PR – Vejo com bons olhos. Acabei de dirigir Alladin, um desses grandes musicais no estilo Broadway, e a experiência foi maravilhosa, principalmente ao ver a nossa capacidade em realizar superproduções que em nada difere as internacionais. Já possuímos profissionais gabaritados para realizarmos o que quiser, e muito em breve já estaremos criando grandes musicais que tenham o nosso jeito e a nossa identidade.
NR- O teatro sempre deve valorizar a reflexão ou ele pode trazer mera diversão também?
PR – Penso que uma coisa não anula a outra. Tanto o riso quanto a lágrima são importantes em nossa evolução, tudo pode ser arte. Quanto à indústria do entretenimento, penso que ela atende uma necessidade inerente a todos nós, o que muitos reclamam é da concorrência desleal, desproporcional. Mas na verdade isso sempre existiu e sempre existirá, o que precisamos aprender é equacionar tudo isso.
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Curumim Disse Sim e Curuminha Disse Não
Até 31 de outubro
Ingresso: R$ 20 (inteira)
Teatro Cleyde Yáconis
Avenida do Café, 277, Jabaquara, estação Metrô Conceição
Informações: (11) 5070-7018
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