• Coco Chanel e Igor Stravinsky, a percepção de Kounen

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    Coco Chanel e Igor Stravinsky – Mads Mikkelsen e Anna Mouglalis dão vida a personagens revolucionários.

    O diretor holandês Jan Kounen tem carreira curta e poucos filmes. Até então não havia feito nenhum trabalho de expressividade. Foi quando, em 2009, dirigiu Coco Chanel e Igor Stravinsky, uma livre adaptação de obra de Chris Greenhalgh, que alcançou notoriedade. O filme foi escolhido para encerrar as exibições em Cannes no ano passado. 

    No enredo, bem equilibrado, a versão do diretor para o que foi um caso entre os dois. Stravinsky foi um compositor, pianista e maestro russo, considerado por muitos um dos compositores mais importantes e influentes do século XX. A revista Time o escolheu como uma das 100 pessoas mais influentes do século passado. Não à toa, Chanel também figura nesta lista. A estilista de renome internacional dispensa apresentações, tendo sido vanguardista tanto em suas criações quanto na sua vida pessoal. Polêmica, atraiu muitos admiradores, como a família real britânica e a esposa do presidente dos Estados Unidos Jacqueline Onassis. Mas também teve de lidar com o ódio dos franceses, por ter sido considerada uma das apoiadoras do Nazismo durante a Segunda Guerra Mundial.

    Esse último aspecto da vida da modista é evitado tanto em Coco Antes de Chanel, outra cinebiografia recente dela, quanto neste filme de Kounen. Mas no filme mais recente pelo menos há um motivo óbvio para isso: a obra restringe-se ao romance dos dois, ocorrido em 1920, que durou pouco tempo. O Nazismo só viria muitos anos depois. Nesse caso, então, a omissão pelo menos faz sentido.

    O filme começa com a exibição história em Paris, no ano de 1913, do ballet A Sagração da Primavera, quando Chanel teria tido seu primeiro contato com o trabalho do músico. Em seguida, a obra leva o público até 1920 e mostra os dois protagonistas se conhecendo. Stravinsky tem em Chanel uma incentivadora e ela o convida a ficar na sua casa, com a esposa e seus quatro filhos, para conseguir compor. Daí em diante, o roteiro e a liberdade poética do diretor se encarregam do resto.   

    O roteiro é muito bem construído, de forma a respeitar o contexto histórico dos dois personagens, o que ambos estavam vivenciando na época em que se passa o filme. Isso deve ter exigido bastante pesquisa. A obra também consegue captar elementos de suas respectivas personalidades e o quanto ambos eram geniais em suas respectivas áreas de atuação. É uma cinebiografia de ritmo contemplativo, com uma fotografia muito bonita e o uso de ângulos interessantes de câmera, com a escolha de opções de filmagem interessantes, com muita experimentação. O diretor não hesita em usar vários plongée e filmar de cima inclusive em travelling em sequências que, de outra forma, não seriam de tanto impacto. Seus closes também são bastante trabalhados. Coloca a câmera para andar com os personagens em alguns momentos. E o mais interessante: consegue fazer com que suas opções de filmagem coloquem poesia e sensibilidade em belíssimas cenas de sexo, que fazem toda a diferença no ‘tempero’ da trama. 

    Merecem destaque as atuações de Mads Mikkelsen e Anna Mouglalis como os protagonistas. Os dois atores estão muito bons em seus papéis, viscerais e comedidos na medida certa. Enquanto Mouglalis é uma Chanel com mais glamour, livre para interpretar sem a carga emocional que Tautou foi obrigada a carregar, consegue, também, transmitir  a inexpressividade e indiferença pela qual a personagem foi conhecida, amada e odiada em todo o mundo. É uma versão mais "sóbria", "evoluída", da Chanel que Tautou começou a esboçar.

    Já Mikkelsen teve a responsabilidade de dar vida a Stravinsky, uma personalidade pouco conhecida do grande público de hoje, mas nem por isso as coisas ficaram mais fáceis. Para muitos, ele será a primeira referência do personagem no cinema. Sua percepção angustiada do personagem, atormentado pela situação que vive somada às pressões do trabalho, é bastante razoável e será aceitável para boa parte do público. Apesar de que, para alguns, parecerá inevitavelmente afetado. 

    Nada nunca é perfeito, especialmente em filmes de época, e nessa história também há buracos. O principal deles diz respeito a Vera de Bosset, sequer mencionada ou mostrada durante a obra, que seria um caso de Stravinsky durante boa parte de seu casamento e que era, inclusive, conhecida por sua esposa. Ela viria a ser o grande amor da vida dele. E o que o filme sugere é que ele não teria se relacionado ao mesmo tempo com as três (A esposa Katerina, Chanel e Vera, a amante). Isso é até possível de ser verdade, visto que ele conheceu Vera em 1921. Mas a verdade é que jamais se pode saber com certeza.       

     
    Inteligente, bem filmado, bem construído, com trilha instrumental belíssima e na qual, naturalmente, as obras do compositor russo tem grande participação, Coco Chanel e Igor Stravinsky é uma obra intrigante. Não tem nada de especial mas, ao mesmo tempo, cativa. Seja para os fãs da estilista ou do músico, é uma interpretação histórica bem satisfatória. Particularmente para os admiradores de Chanel, é uma perspectiva que lhe faz bastante justiça.

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    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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