• Confira Este Lado Para Cima, da Brava Companhia, e entrevista com o grupo

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    Brava Companhia – Confira entrevista com o grupo. veja também review do espetáculo Este Lado Para Cima – Isso Não é um Espetáculo

    A Brava Companhia tem uma trajetória pautada por realizações que buscam o contato direto com o espectador e retrata em suas apresentações o dia a dia da população.

    Os artistas procuram relatar a vida de indivíduos comuns que lutam pela sobrevivência e pelos seus direitos de cidadão e querem suscitar reflexões, já que eles expressam os descontentamentos para com a nossa realidade através do teatro.

    A peça Este Lado Para Cima – Isso Não é um Espetáculo é a mais nova realização do grupo e fala da exploração do trabalho, da supervalorização do dinheiro e do mercado de consumo ocasionando a opressão e o autoritarismo.

    Oito atores narram em tom épico várias histórias e se revezam em personagens que representam os poderes do Estado, a religião e a política, além das classes de trabalhadores.

    Os detentores do poder ficam confinados numa bolha que se situa acima dos demais indivíduos e de lá controlam a sociedade e tentam solucionar uma situação de crise.

    Como o objetivo é estar atento ao que acontece no cotidiano do povo simples, trilha sonora, cenário e figurino são inspirados no modo de pensar, de ser e de agir dessas pessoas. No figurino e cenário foram usados elementos que estão ligados ao mundo do trabalho e a música tocada ao vivo aproxima quem assiste à encenação da trama. 

    Ligado à periferia de São Paulo, a Brava Companhia circula pela cidade, faz apresentações pelo Brasil e participa de festivais. Ocupa um antigo espaço que serviu de mercado na região de M’Boi Mirim e que hoje recebe o nome de Sacolão das Artes.

    Entre os sucessos em seus 12 anos de existência está A Brava, uma visão particular da história de Joana d’Arc.

    Conheça a história e objetivos da Companhia na entrevista realizada para o site às vésperas da estreia do mais novo trabalho intitulado Este Lado Para Cima – Isso Não é um Espetáculo.

    Nanda Rovere/Opperaa – Como surgiu a Brava Companhia e qual o objetivo de vocês enquanto artistas e cidadãos?
    Brava Companhia – A Brava Companhia “começou a nascer” em 1998, quando alguns jovens que haviam descoberto o Teatro na escola decidiram formar um grupo, que passou a atuar na região sul da cidade de São Paulo,  apresentando-se em praças, parques, quadras e ruas. Em 2007, o grupo se divide e uma das “metades” assume o nome de Brava Companhia. Nosso objetivo é fazer um teatro divertido, que assume e cumpre uma função social no mundo, que é apontar e discutir alguns dos absurdos que existem na nossa sociedade.

    NR- Como o teatro pode contribuir para um mundo melhor?
    BC – Buscamos fazer isso de forma inteligente, provocativa, bem-humorada e sempre dialogando com a classe trabalhadora, da qual fazemos parte. É a maneira pela qual buscamos transformar a realidade que nos cerca, para tornarmos o nosso mundo um lugar melhor para todos.

    NR- De que maneira surgem as idéias para as montagens (pesquisas, percepções do cotidiano…)?Fale um pouco sobre o processo de criação do grupo.
    BC – A partir do que a Companhia julga ser importante pesquisar e discutir no momento. Para chegar a essa decisão, várias conversas são realizadas entre todos os integrantes, até que se decida por um mote para a montagem. Algumas funções também são decididas (quem dirige, quem atua, quem cuidará dos cenários, etc) e, a partir daí, todos partem para a pesquisa de informações sobre o que será discutido. Após algum tempo de pesquisa (teórica, sonora, visual, iconográfica, etc), todo o material levantado é levado para a sala de ensaio e transformado em pesquisa prática, por meio de jogos e improvisações. Nesse momento, a montagem começa a se materializar de fato, e é também quando começa a se esboçar uma idéia de dramaturgia, músicas, cenários, figurinos, etc.

    NR- Por que a opção pela rua como espaço de encenação?
    BC – A Brava Companhia é um grupo que não limita suas encenações a determinados espaços e quando vamos para a rua é uma opção política. As ruas de grandes cidades como São Paulo quase já não podem mais ser chamadas de espaços públicos, principalmente em áreas centrais, tamanha a quantidade de impedimentos para a realização de qualquer ato que interfira na rotina da cidade, que é ditada pela lógica mercantil. Ou seja, as ruas estão sendo privatizadas e qualquer manifestação que atrapalhe o fluxo do capital e das mercadorias corre o risco de receber alguma forma de repressão.

    NR- Qual o impacto de uma encenação na rua?
    BC – Levar nossa encenação para a rua é uma maneira de causar algum distúrbio dentro dessa rotina e de retomar, mesmo que só por alguns instantes, o espaço público para o público. Criar encenações para a rua também é uma forma de ampliar a possibilidade de encontro com o público das periferias mais distantes da cidade – onde a realidade é um pouco diferente. Nesses locais, as ruas ainda não são tão controladas e, devido à ausência de aparelhos públicos de cultura,  tornam-se uma das poucas opções de espaço para a manifestação cultural.

    NR-Todas as montagens primam pela improvisação pelo contato com o público? O que essa interação – essa proximidade – traz de ensinamento para vocês como artistas e seres humanos?
    BC – As montagens da Brava Companhia trazem elementos do teatro épico de Bertolt Brecht, entre eles a ausência da “quarta parede”. Isso torna o nosso teatro mais próximo de quem o assiste, dando, inclusive, a possibilidade ao público de interferir no que está assistindo. É desafiador por nos manter sempre atentos a como receber e “jogar” com essas interferências, e por possibilitar ao nosso público algum nível de participação verdadeira na obra.

    NR – Como é o apoio do poder público e privado para o teatro de rua?
    BC – O aporte financeiro a manifestações teatrais, assim como para a Cultura de um modo geral, é pequeno. Alguns avanços têm sido conquistados, devido à mobilização e pressão permanente da classe teatral junto ao Poder Público (a Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo em 2002 e, recentemente, o Prêmio de Fomento ao Teatro Brasileiro), mas ainda há muito a ser feito. A visão geral a ser superada que impera em nosso país é a da Cultura como mais um “bom negócio”.  A Lei Rouanet é um bom exemplo disso: o Estado abre mão de sua responsabilidade com políticas públicas para a Cultura e transfere dinheiro público para realizar projetos culturais que acabam sendo escolhidos pelos departamentos de marketing de grandes empresas.

    NR – A reformulação da Lei Rouanet poderá beneficiar os artistas de rua e de espaços alternativos?
    BC – A Lei beneficia, basicamente, grandes produtores independentes, que movimentam uma linha de montagem de “obras consagradas”, “grandes clássicos” e refugos da Broadway, ou seja, só produções altamente comerciais. Beneficia também as empresas que divulgam sua marca junto a essas produções com todos os custos pagos com dinheiro público. Tal reformulação tenta minimizar essa situação, destinando parte dos recursos obtidos pela renúncia fiscal para Fundos Setoriais das Artes. É um avanço em relação ao modelo anterior, mas ainda é pouco. É preciso que pautemos a Cultura no nosso país como direito, e não como mercadoria.

    NR – Como está a atuação da Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo, depois da ameaça do corte no orçamento no final do ano passado?
    BC – Mesmo após os ataques realizados pelo Secretário Carlos Augusto Calil, tentando burlar a lei com alterações despropositadas, sem consulta pública prévia, a Lei de Fomento segue firme, garantindo o apoio a projetos de grupos estáveis que buscam a pesquisa e uma produção teatral de ponta para a cidade de São Paulo. Isso graças à mobilização e ação permanente da classe teatral da cidade, com o apoio de fazedores de teatro de todo o país.

    NR – Como essa Lei ajuda o grupo a se manter?
    BC – Garante apoio financeiro principalmente em regiões da periferia sul da capital e na nossa sede localizada no Sacolão das Artes, ocupação cultural de um prédio público no Bairro Parque Santo Antônio. Ações como: circulação de nossos espetáculos, transporte do público para apresentações em nossa sede, apresentações para escolas públicas da região, realização de debates e de 2 cursos livres de Teatro em nossa sede.

    O Fomento também possibilita nossa qualificação técnica por meio da contratação de profissionais para treinamentos específicos e garante uma ajuda de custo mensal para a realização de todas essas ações, que podem ser conferidas pelo nosso blog

    NR – Quais grupos se destacam no teatro de rua no Brasil? Como é a interação/contato com eles?

    BC – Se há algo que merece destaque hoje no Brasil, para além de qualquer individualidade, é a mobilização e articulação dos grupos de teatro – de rua ou não. Grupos e artistas de todo o território nacional têm realizado com frequência encontros e debates sobre o seu fazer artístico e, principalmente, sobre a manutenção de políticas públicas efetivas que garantam esse fazer. O Movimento de Teatro de Rua de São Paulo e a Rede Brasileira de Teatro de Rua têm desempenhado importante papel nessa articulação.A Brava Companhia busca sempre, na medida do possível, uma participação ativa junto a esses movimentos.

    NR – Qual a importância das mostras e festivais para o reconhecimento do grupo (e para o intercâmbio entre artistas e culturas)?
    BC – Quando a mostra ou festival consegue superar a forma de mero “evento cultural”, ela se torna muito importante. Mas isso só acontece quando seus realizadores criam, em sua programação, espaços reais de encontro, de troca de idéias, de compartilhamento de experiências, e não se preocupam apenas com a “quantidade de atrações”.

    NR – Fale sobre a importância da ocupação do Sacolão das Artes. Como conseguiram o espaço e a integração com a comunidade local?
    BC – O Sacolão das Artes foi anteriormente um sacolão hortifrutigranjeiro. Desativado por conta de práticas irregulares de seu permissionário, o espaço foi desativado e ficou abandonado por alguns anos, sendo reivindicado pela população local. Durante a mobilização dessa população e de lideranças locais para pressionar o Poder Público pela reabertura do espaço, a Brava Companhia foi convocada, por conta de seu histórico de realizações na região. Em agosto de 2007, o prédio foi reaberto, ocupado por artistas, grupos culturais e lideranças comunitárias da região. Hoje o espaço é frequentado pela população da região, que ali consegue ter acesso ao seu direito a cultura, não apenas como espectador, mas também como fazedor. Além de uma programação que contempla todas as linguagens artísticas, a população também pode participar de cursos, debates, mutirões, conversas, etc. O local também é utilizado para reuniões, eventos comunitários, ensaios e apresentações de grupos e artistas da região.

    NR – Quais as diferenças entre se apresentar em regiões periféricas e nas regiões centrais?
    BC – Há várias diferenças. Esse tema mereceria um estudo mais amplo, mas aqui vou destacar de forma sintética dois aspectos bem objetivos: espaço físico e constituição do público. O espaço físico é distinto: enquanto no centro temos praças rodeadas pelo comércio e pelos bancos, e por isso extremamente vigiadas por policiais e outros agentes da ordem, nas periferias geralmente nos apresentamos em ruas, campos de futebol, quadras de escolas ou espaços de ONGs. Em locais centrais é preciso pedir autorização prévia aos órgãos oficiais para a apresentação não correr o risco de ser impedida, enquanto nas periferias fazemos articulações com líderanças comunitárias para “fechar” uma rua ou utilizar um campo de futebol. No centro, contamos com um público que é formado parte por pessoas que recebem alguma divulgação e outra parte que é fisgada in loco, no momento da apresentação. Já nas periferias, o público mora no entorno do local da apresentação.

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    O ERRANTE - terça-feira, 17 de agosto, às 20h, no Sacolão das Artes, Av. Cândido José Xavier, 577 - Parque Santo Antônio / SP. O Errante narra a história de um andarilho que erra, de cidade em cidade, em busca de seu grande amor.
    ESTE LADO PARA CIMA - domingo, 22 de agosto, às 17h30, no calçadão do Pólo Cultural - Grajaú / SP
    e domingo, 29 de agosto, na Praça do Campo Limpo - Campo Limpo / SP.

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    Historiadora e estudante de jornalismo. Apaixonada por cultura, pesquisa e escreve sobre teatro desde a década de 90. - Leia outros textos de

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