No qual me explico como dublê de poeta
Por: Caio Campos, em Colunas, Dublês de Poetas | Nenhum comentário

Não sou jornalista. Apesar de ter feito faculdade de jornalismo, larguei esse sonho infantil de mulherzinha. Não me acho esnobe por dizer isso. Quando atingi o supra sumo da inteligência humana, continuei querendo ser poeta, e, se comparado ao jornalismo e astrologia, também não está muito longe de ser uma “profissão de mulherzinha”.
Outro dia fui ao médico, e tive que passar pela atendente e responder umas perguntas, dentre as quais, a de qual profissão eu exercia, não hesitei, e respondi “poeta”. A atendente insistiu, e tornou a perguntar, “qual é a sua profissão, mesmo?”. Eu respondi, “atendente de hospital é profissão?”. A moça ficou ofendida. Por mais que eu tenha respondido com aquela pergunta, não quis ofender a moça. Mas quem não tem pinto, não entende essas coisas de quem tem pinto. Depois me veio um arrependimento cristão pela resposta que eu dei, mas passou rapidamente quando lembrei que era ateu.
Esse lance de vocação me intriga. Depois que perdi a esperança no “dom divino”, me tornei mais um operário deste Brazil brasileño. Trabalhei em todos os setores da sociedade e não consegui identificar profissão superior ao de Dona de Casa. Casei-me, fiquei desempregado e virei Dona de Casa por um ano. Vivi por conta de comer a comida que cozinhava, lavar as louças e roupas que sujava, catar as gimbas de cigarro que fumava. E nos intervalos que tinha para descansar, assistia televisão. Foi nessa época que atingi o supra sumo da inteligência humana. Como Dona de Casa, havia superado todas as divagações políticas e ideológicas, tornando-me a própria subversão.
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