• A Origem, do ambicioso Christopher Nolan

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    A Origem – Em A Origem, Christopher Nolan transforma sonhos em realidade e arte

    Christopher Nolan, o homem que não tem medo de sonhar grande. Diretor britânico, com pouco mais de dez anos de carreira, já tem em seu currículo obras que o consagram como um dos nomes mais importantes do Cinema atual e são elas Amnésia, feita no ano 2000 e considerada uma obra-prima inovadora e Insônia, de 2002, que feita em sequência à primeira só confirma o talento do cineasta. Corajosamente, aceitou retomar um dos personagens mais amados e odiados da história dos quadrinhos, Batman, que já havia sido exaurido por uma série de filmes ruins e conseguiu fugir tanto dos padrões impostos por Tim Burton quanto por Joel Schumacher, algo que era, até então, considerado praticamente impossível. Deu nova vida ao personagem e também por causa disso passou a ser respeitado por Hollywood.

    Não só a Indústria, mas Nolan tem conquistado também os espectadores, algo muito importante para abrir portas às experimentações de outros realizadores ambiciosos como ele. Seu novo filme A Origem, em cujo roteiro já trabalha há 10 anos, é a perfeita metáfora do Cinema como um sonho, de concretizar uma ideia na tela da forma mais próxima possível de como ela está na mente. Desde sempre o Cinema foi a possibilidade de se construir o inconstruível, dizer o indizível, materializar o imaterializável. E com a ajuda dos efeitos especiais, o diretor leva a extremos essa possibilidade de mudar a ordem das coisas e perverter expectativas.

    São sequências de ação de tirar o fôlego, uma atrás da outra. Mas o melhor é que elas acontecem todas a serviço do enredo, sem serem excessivas ou descontextualizadas. Na história, temos Cobb (Leonardo Di Caprio), uma espécie de "agente" que trabalha "roubando sonhos", se inserindo na mente das pessoas e descobrindo seus segredos. Quando em determinada missão tudo dá errado, sua cabeça é posta a prêmio. É quando ele decide aceitar a arriscada proposta de Saito (Ken Watanabe), sua única alternativa. E fará o caminho contrário: ao invés de extrair, terá de inserir um sonho. Fica óbvio aqui que esta é uma simplificação do complexo enredo e, para quem ainda não assistiu, há ainda muito mais do que isso. Surpresa esta que não pretendo estragar.  

    As cenas são simplesmente geniais, usando os efeitos especiais no seu nível máximo, todos a serviço da história (só a equipe que cuida da parte visual do filme tem quase 150 pessoas). O roteiro é excepcional, não é à toa que demorou tanto para ficar pronto, e está pedindo para ser agraciado com um Oscar. Os diálogos são rápidos, para se acompanhar o enredo não se pode nem piscar. Algumas pessoas podem se perder em meio a tantos detalhes. É preciso estar bem atento. Certas falas se repetem até se contextualizarem. E quando se contextualizam é como se um grande quebra-cabeça se encaixasse e tudo fizesse sentido. Uma sensação sem igual para quem assiste.

    A tensão à flor da pele é intensificada no espectador pela trilha instrumental orquestrada, que é simplesmente sensacional e que torna indispensável assistir ao filme no Cinema. Ela dá o ritmo, nos faz ficar emocionados, agitados, apreensivos. Sem dúvidas um dos trabalhos mais marcantes da carreira de Hans Zimmer, já conhecido por tantos outros filmes, que variam de Hannibal a Madagascar. Sua escolha da música Non, Je Ne Regrette Rien, de Edith Piaf, para ser uma peça chave do enredo chega a ser irônica e obviamente remete à importância da personagem de Marion Cotillard na história, já que foi justamente interpretando Piaf que a atriz ganhou seu primeiro Oscar. Outra interpretação que podemos fazer é pela letra da música, cujo refrão diz "não me arrependo de nada", ter certa relação com o que vivem ela e o protagonista.

    Além de Piaf, fica claro que A Origem faz referências quase subliminares a outras obras do Cinema e, coincidência ou não, a mais evidente delas está nas trajetórias de Teddy Daniels, de Ilha do Medo, e Cobb, os dois papéis tendo sido feitos por Di Caprio num curto período de tempo. Há, inclusive, cenas parecidas dos dois: logo no início do filme de Scorsese Daniels, enjoado pelo balanço do mar, vai até uma pia e lava o rosto, se olhando no espelho, angustiado. Cobb faz o mesmo em certo momento da obra de Nolan, lava o rosto e bate na cara, igualmente transtornado. E ao longo dos dois filmes vamos descobrindo que o motivo do transtorno de ambos os protagonistas é, basicamente, o mesmo. Mas isso não tira o brilho de nenhuma das duas obras ou dos personagens. Do ator, muito menos.  

    Aliás, é inevitável abrir aqui um parênteses para comentar a monstruosa evolução de Leonardo Di Caprio como ator. Começou bem se destacando em O Diário de um Adolescente em 1995, quando era ainda um garoto. Com Titanic, em 1997, parecia condenado a se tornar um ídolo para as adolescentes e ficar marcado por aquele tipo de papel, do rapaz romântico e sonhador. Felizmente teve a oportunidade de, em 2002, trabalhar com Scorsese, que apostou em seu talento e o colocou como protagonista em Gangues de Nova York, com o qual sai de uma sequência de filmes medíocres e ruins. Soube trabalhar com as pessoas certas para progredir de uma forma a estar pronto agora para receber, sem quaisquer questionamentos, um Oscar de Melhor Ator, depois de três indicações. 

    Além dele, se destacam em A Origem Joseph Gordon-Levitt, se desvenciliando de 500 Dias com Ela e mostrando que tem potencial pra mais que isso; Ellen Page, igualmente deixando Juno pra trás; Tom Hardy, que depois de Star Trek, da Maria Antonietta de Sofia Coppola e Oliver Twist se prepara para substituir Mel Gibson na nova versão de Mad Max; e Ken Watanabe, um dos atores japoneses que mais tem brilhado em Hollywood e merecidamente. Como se vê, um elenco promissor e que, nas mãos de Nolan, soube trabalhar em equipe de forma excelente. 

    Atores em sintonia, excelente trilha sonora e efeitos especiais, literalmente, de sonho. Do que falta falar? Os movimentos de câmera, claro! Eles são essenciais para nos fazer entrar na história e estão presentes desde o primeiro minuto de filme, quando o mar que molha Di Caprio bate na câmera e ela o focaliza balançando. Temos também a câmera que corre com o protagonista, aliás uma não, pelo menos cinco, que mostram ele e seus perseguidores simultaneamente, numa corrida alucinada de tirar o fôlego, incluindo um beco tão apertado que parece intransponível. Como essa, há muitas sequências no filme, rápidas, emocionantes e até mesmo em angustiantes slow motions, com o diretor manipulando o tempo ao seu bel prazer, para nosso prazer e tortura. As câmeras acompanham os protagonistas também embaixo d’água, sempre em planos mais fechados no rosto dos atores e da cintura para cima, recurso este que sempre nos deixa com a sensação de maior proximidade deles.     

    Denso, eletrizante, poderoso e bizarro. A Origem é um épico com um nível de refinamento e complexidade como poucos vistos na história do Cinema e definitivamente nenhuma outra estreia vista em 2010. É um filme elaborado, que deixa que o espectador faça suas escolhas. Mas, ao mesmo tempo, apresenta um enredo universal e bastante simples, no qual qualquer um de nós pode se imaginar. Talvez essa seja, acima de tudo, sua maior força. É disso que se trata o Cinema, de contar histórias. E nesse caso, ao final de 2 horas e 30 minutos, parece que estamos acordando, assustados e felizes. Tomara que Nolan continue nos levando para sonhar grande com ele.

    detalhes

    A Origem
    Dirigido por Christopher Nolan (2h 30min)
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    autor

    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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