• O Brazil de Terry Gilliam

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    Brazil – o filme – Qual Brazil será este? Será o nosso Brasil? Será o Brasil imaginado por Gilliam? Ou poderá ser qualquer nação?

    Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, Brazil não é um filme sobre nossa bela nação tupiniquim. Lançado em 1985, este filme foi dirigido por Terry Gilliam, que é mais conhecido por seus trabalhos no grupo de humor britânico “Monty Phyton“ e pela sua obra mais recente, O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, notório por ser o último filme onde Heath Ledger atuou.

    Gilliam concorreu ao Oscar de melhor roteiro original com Brazil, que também ajudou a escrever, e este foi o segundo filme de sua carreira. Durante as filmagens, o diretor ficou tão tenso que teve um problema bem sério: perdeu temporariamente o movimento das pernas, ficando semanas sem andar. Outra tensão que enfrentou foi quanto ao título do filme. Queria que se chamasse “1984 1/2″, uma homenagem ao clássico escrito por Orwells e ao clássico 8 1/2, de Fellini. Mas acabou tendo de desistir desse nome, colocando o título de Brazil na obra por motivos que ninguém sabe ao certo.

    Isso porque a obra trata de uma sociedade futurista, que não é identificada, e cujo funcionamento depende de uma enorme burocracia, onde papéis valem muito mais do que vidas. Há uma onda de ataques terroristas, suprimida por meio de prisões e mortes arbitrárias. Tudo de forma desumana. Desaparecimento de pessoas e disparidade social também remetem às décadas de 60 e 70 vividas por nossa história.

    Várias vezes no filme é usada a música “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, e aparentemente é por isso que a obra foi nomeada Brazil, apesar de tantas coincidências com o contexto brasileiro. Pelo menos é o que Gilliam várias vezes deixou subtendido. Outra justificativa possível para o nome: o mundo onírico onde o personagem Sam Lowry (Jonathan Pryce) fica em seus sonhos teria esta música como sua trilha sonora devido ao caráter “paradisíaco” de nosso país. Será? Não dá para ter certeza. Eu, particularmente, identifico na burocracia do filme a nossa burocracia e nas torturas a nossa ditadura militar. Mas o realizador nunca disse que sim nem que não.

    Mas, para quem ainda não viu, o enredo de Brazil mostra uma sociedade futurista, na qual vive Sam Lowry, funcionário do governo, que constata um erro em uma prisão e a morte de um inocente. Ao descobrir o engano, tenta consertá-lo, mas logo percebe que o mal está feito e sofre crises de consciência. Nesse meio tempo, sonha com uma mulher desconhecida (quase todos os personagens de Gilliam sonham com mulheres antes de conhecê-las) e a identifica como a vizinha do homem morto por engano. O protagonista se mete em várias confusões tentando lidar com os erros do sistema no qual sempre trabalhou e acaba tendo de enfrentá-lo quando este se volta contra ele.

    Destaque para a atuação de Katherine Helmond, que faz a mãe de Sam. Ela consegue ser perfeitamente irritante e intrometida, mas omissa no único momento em que é necessária. Robert De Niro, como Tuttle, também desempenha bem seu papel, mas quando a obra acaba ficamos ‘procurando’ por ele. Seu personagem fica mal resolvido.

    O filme nos deixa com bastante em que pensar. Para quem não teve contato com obras de Terry Gilliam antes de Dr. Parnassus, este é um prato cheio, trazendo o diretor em sua melhor forma. Vários dos conceitos que ele trabalha ao longo de sua filmografia estão neste filme. Para nós, brasileiros, é uma experiência enriquecedora assistí-lo considerando a possibilidade de que talvez aquele seja realmente o retrato de nosso país. O que nos leva a refletir, por consequência, se o que vemos foi o que nos aconteceu no passado ou se devemos temer que este seja o nosso futuro.

    detalhes

    Brazil - o filme (1985)
    Dirigido por Terry Gilliam (2h 12min)
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    autor

    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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