• Vencer, a biografia de Ida Dalser

    Vencer_Giovanna_Mezzogiorno

    Marco Bellocchio – Numa época em que as mulheres não tinham voz própria, Ida não hesitava em gritar a verdade.

    Desde o primeiro de seus 35 filmes, Marco Bellocchio deixou sua marca no cinema italiano. E com sua obra mais recente, Vencer, não poderia ser diferente. Indicado para o Oscar de filme estrangeiro oficialmente pela Itália em 2009, depois de vários prêmios por lá, conseguiu ficar entre os nove finalistas, mas não na lista final. Fez sucesso em Cannes, indicado à Palma de Ouro naquele ano. E é uma obra corajosa, que não só registra uma das facetas mais vergonhosas da história italiana, mas também dá voz a uma personagem daquele país que caiu no esquecimento, por força das circunstâncias.

    Apenas no ano de 2005, quando a Segunda Guerra já havia deixado de ser uma lembrança incômoda para muitos italianos, o jornalista Marco Zeni resgatou a história de Ida Dalser, mãe do primeiro filho do ditador Benito Mussolini. Foram quase 70 anos de esquecimento da história de vida de uma mulher determinada, que só queria o que era seu de direito: o reconhecimento que merecia. Grande responsável por alanvancar a carreira política do futuro ditador, foi desprezada por este, que primeiramente registrou o filho e posteriormente negou a existência dos dois. A obra mostra toda a sua trajetória e a atuação de Giovanna Mezzogiorno dá à personagem a intensidade necessária para que o filme funcione e nos emocione.

    No filme, a biografia de Ida é pontuada pela carreira de Mussolini, de modo que as duas histórias se confundem. Por exemplo, em 1922, o Facismo é instituído na Itália. E vemos a personagem ler no jornal a respeito e se desesperar. Cada passo que o homem que ela ama dá, dita um capítulo de sua vida. Porque assim ela quis e, à medida que os fatos avançaram, assim foi-lhe imposto.    

    Detalhe interessante a ser observado é que há muitas imagens e propagandas de época, que ditam o ritmo do filme e ilustram a ascenção rápida do ditador ao poder. Nelas, há imagens em preto e branco e palavras de ordem pulam na tela: Guerra! Audácia! Além disso, há várias cenas de projeções de filmes, que pontuam os anos através da evolução da técnica cinematográfica. No início do filme, o cinema é o local onde as pessoas vão para saber as notícias sobre a Primeira Guerra. Já quase no final, uma grande platéia assiste a O Garoto, de Chaplin e fica evidente o quanto a arte evoluiu, de mero relato jornalístico até a comoção das massas.           

    Outro registro peculiar que a obra faz é o de mostrar como funcionavam os manicômios na década de 30, que eram, na verdade, depósitos de pessoas indesejadas na sociedade. Naquela época não havia nenhum tipo de tratamento, as pessoas eram amarradas às camas e tratadas como animais. Devemos notar também que nessa década o papel da mulher na Itália, assim como em boa parte do mundo, era o de ser esposa submissa, que ficava restrita ao lar e não participava das decisões políticas ou tinha qualquer voz própria, o que explica o quanto a protagonista é reprimida, por ser uma mulher "atípica", independente, à frente de seu tempo e "incômoda", porque sabia quais eram os seus direitos e não hesitava em exigí-los sob qualquer circunstância. 

    Destaque para a trilha sonora, grandiosa, clássica e que dita o ritmo da dramática vida da protagonista. Tambores, coral de vozes, violinos e, por fim, a orquestra inteira conseguem expressar musicalmente toda a dor sentida tanto pela protagonista quanto pelo seu filho Benito, que, assim como o Mussolini jovem, é interpretado por Filippo Timi, ator que também tem um desempenho magnífico. É bom ressaltar a inteligente decisão de retratar Mussolini jovem, preservando a imagem já conhecida, visto que uma reinterpretação desta poderia resultar em fiasco. O diretor opta por também colocar as ações do início do filme entrecortadas por imagens de mulher em abandono e desespero, cuja função só compreenderemos mais à frente na narrativa. 

    Com Vencer, Ida Dalser finalmente ganha voz e ficaria feliz em saber que foi biografada de forma belíssima, numa obra impactante, comovente e que nos mostra o quanto a sede pelo poder é capaz de destruir tudo ao seu redor. Esquecida pelo amor e pela História, ela jamais deixou de proclamar a verdade, sendo ainda mais corajosa que seu compatriota Galileu Galilei, que apenas depois de salvo teve a coragem de dizer "Eppur si muove".

    detalhes

    Vencer
    Dirigido por Marco Bellocchio (2h 08 min)
    Em cartaz em várias cidades brasileiras

    autor

    - Leia outros textos de

    Deixe seu comentário






    (*)campos obrigatórios.

    Editorias

    A POP4 é uma revista de crítica de cultural e entretenimento. Surgida a partir do projeto Opperaa - 2008