Cadeia de consumo. Da concepção à venda pela internet
Por: Salomão Terra, em Colunas, DotArt | Nenhum comentário

dotArt – O que esperar de um ciclo de hábitos de consumo a produtos culturais modelados por novas formas de comércio?
Você está numa roda de amigos. Os assuntos são os mais diversos, e de repente o papo cai em cinema – ou literatura. Alguém recomenda um livro. “Ah, li algo que me lembra muito você!”. A partir daí, e buscando se informar mais sobre a sugestão de compra, ao final da noite, você vai para casa, acessa a internet e “joga” no Google o título da obra, ou autor. Há uma lista de definições biográficas, o site da editora, blogs e por fim o link para Submarino (ou qualquer outra loja) com a obra em questão à venda.
O cenário já se tornou comum, e, com pequenas variações pode ser aplicável a sugestões teatrais, de cinema, ou qualquer possibilidade de consumo a produtos de entretenimento. Eis aí uma questão relevante ao mercado e à indústria cultural: até que ponto a complexa teia que envolve produtores, formadores de opinião, sites de ecommerce e consumidores remodelam e condicionam o hábito do consumo cultural pela internet?
Comecemos pelo ponto inicial, da criação em si. Hoje é comum que uma das pontas mais significativas do processo, o artista, tenha em mente formas de exibição e publicidade de seu trabalho, otimizando custos e potencializando a expansão, isso quando não se vale do ambiente digital para, de forma colaborativa, conceber sua obra. O ponto forte: redes sociais. Nelas artistas aprendem cada vez mais a criar grupos, eventos, páginas… tudo aquilo necessário para engajar sua audiência, criando laços de reconhecimento entre obra (ou acontecimento) e público. Ponto negativo: é quase nula a parcela do orçamento destinada a formatos comerciais, em si. Obras que envolvam recursos em maior expressividade, como longas-metragens ou peças teatrais, ainda são pouco visíveis no universo de mídia diplay (banners) ou até mesmo links patrocinados.
Percorrendo um pouco mais a cadeia produtiva, chegamos aos formadores de opinião. Nesta miríade incontrolável e complexa de blogs, sites, twitter e vlogs que se encontram produtores de conteúdo autorais pré-dispostos a recomendações espontâneas dentro do seu campo – e rede – de interesse. Quantas vezes você decidiu conferir um filme na sala de cinema após um comentário positivo de um editor de site que você seguia no Twitter? Ponto positivo: a variedade. Nada melhor que a multiplicidade de vozes e posicionamentos para contrabalancear percepções de um produto tão amplo quanto a arte. Ponto negativo: a falta de referência. É justamente na multiplicidade de canais e vozes que ausenta-se uma referência institucionalizada e editorialmente crítica, legitimada, para defender com relativa autoria reflexões mais profundas e academicamente respaldadas.
O passo seguinte da cadeia pode ser tido como a comercialização, em si, dos usuais sites de compras de ingressos ao grandes portais como Amazon e Submarino. Nestes ambientes de consumo e comodidade, usuários segmentam seus gostos e têm sua vida facilitada por mecanismos cada vez mais apurados (do ponto de vista da usabilidade, arquitetura da informação…) para movimentarem novas formas de comércio. Ponto positivo: é possível encontrar quase tudo. De livros e DVDs a raridades no leilão do site Ebay. Ponto negativo: comodidade e falhas de logística. O consumidor torna-se cada vez mais estagnado durante o processo, raramente se deslocando até um local físico. O volume de comprar também gera falhas grotescas e incômodas nas entregas e disponibilidade de produtos. Algumas empresas de logística enfrentam gargalos incalculáveis (advindos sobretudo do despreparo em compreender a lógica virtual) em períodos de datas comemorativas.
Em última instância figura o consumidor. Com tantas opções, da concepção da obra à sua venda, este talvez seja o elo mais afetado da cadeia consumista cultural. Com ferramentas para se engajar, conhecer, difundir e ter a compra facilitada, cabe a ele decidir em que investir. Ponto positivo: liberdade de escolha e competitividade. Mais do que nunca o consumidor tem em suas mãos o poder de barganha e a vantagem de um mercado cada vez mais competitivo ao seu lado. Ponto negativo: consumo não qualificado. Seria cedo para se falar de social commerce? Talvez não. É num universo de recomendações e escolhas livres que reside o principal gargalo desta história, a formação de um hábito de consumo cada vez mais fugaz e menos apreciável, reflexivo e consciente.
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