O cotidiano inquestionável de O Grão, de Petrus Cariry
Por: Priscila Armani, em Cinema, Review | Nenhum comentário

Petrus Cariry – O Grão, primeiro longa do realizador, esboça-se como obra de qualidade inquestionável.
O jovem Petrus Cariry é um desconhecido das grandes plateias brasileiras. E tem poucos quilômetros rodados. O cineasta dirigiu apenas três curtas-metragens antes de seu primeiro longa, O Grão, feito em 2007, mas que só estreia agora em alguns cinemas do país. E tem um talento excepcional. Assistir a essa obra, onde ou quando ela estiver em cartaz, é uma oportunidade que os cinéfilos não devem deixar de aproveitar.
Isso porque este é, até o momento, o meu candidato às prévias do Oscar para o ano que vem. Levando em consideração tudo o que vi até o momento, claro. Taí um longa com chances de levar o carequinha de ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Por sua qualidade técnica, beleza e simplicidade de seu enredo e o fato de ser um filme atemporal, todas estas características sempre muito prezadas pelos membros da Academia.
Basicamente, O Grão consiste em mostrar o cotidiano de uma família pobre, moradora de um município próximo a Fortaleza, composta por uma avó, pai, mãe e dois filhos. Zeca (Luís Felipe Ferreira) é o mais novo, Fátima (Kelvya Maia) a mais velha, que sonha em se casar apesar de não ter sequer onde morar. Damião (Nanego Lira) compra e revende cabras para sustentar a família. Josefa (Verônica Cavalcante), sua esposa, juntamente com a mãe dele, Perpétua (Leuda Bandeira), e Fátima trabalham costurando e vendendo peças artesanais. O pequeno Zeca brinca com o cachorro, vai à escola e ouve as histórias de sua avó.
Se o enredo comove, devido à sua simplicidade e, ao mesmo tempo, reflexão que propõe, quanto à parte técnica esta é uma obra irretocável. A fotografia é muito bonita, talvez uma das melhores entre os filmes brasileiros que já estiveram em cartaz esse ano. O uso da sombra e da luz natural, impressiona, incorporando, inclusive, elementos da natureza ao enredo. Como explicar o vento que agita os tecidos e lençóis nos varais em certa sequência, de uma forma tão poética que parecem ser artificiais? Mas, ao mesmo tempo, eles carregam uma peculiaridade, que nos diz serem espontâneos. Aproveitados da forma certa pelo diretor.
Quanto à edição e mixagem de som, realizadas pelo próprio diretor, a obra é, das que estreou em 2010, a que melhor explorou as possibilidades do som ambiente regional, colocando os grilos ‘para cantar’ à noite e os pássaros de dia, revelando um cuidado enorme com os detalhes e querendo colocar o espectador ‘dentro’ do enredo, como um participante extra. Uma série de sons marca o filme: o sino das cabras, o barulho dos comerciais na TV, que raramente vemos; e até mesmo o Walkmen de Fátima, que não ouvimos mas que nos lembra da modernidade, é o instrumento que contextualiza em que tempo se passa a história. Fora esses, há a música instrumental da trilha, com flauta, piano e coral de vozes. Em certos momentos, ela se torna sinistra, com a intenção (ou não) proposital de confundir o público.
A câmera de Petrus tem um papel fundamental para ditar o ritmo de O Grão e é a principal responsável pelo seu êxito. No princípio, ela filma a estrada de dentro de um veículo em movimento, depois enquandra uma cena cotidiana pela porta e começamos a nos sentir parte da família. Ela filma os espaços vazios, mostra os personagens em seu ritmo próprio, devagar, contemplativo. Mas não se movimenta na primeira parte do filme. Faz tudo isso como uma espécie de olhar testemunhal, enquandrando as cenas de forma que lembra um buraco quadrado dentro dos quartos e da cozinha, que nos dá acesso a aquela vida particular. Além disso, em alguns momentos, não nos deixa ver tudo, esconde algumas informações de nós, colocada estrategicamente em frente a algum obstáculo, com apenas os sons nos dizendo qual ação está acontecendo. Essa angústia não dura muito tempo e, a partir de certo momento, ela começa a se movimentar, mostrando Zeca andando em traveling pela cidade e a avó e a neta costurando. Chega a haver um longo plano que mostra a avó dos pés à cabeça, lentamente, enquanto ela conta uma história. Interessante observar que o cineasta começa o filme enquadrando Perpétua e o neto de longe, mas a medida que a história avança e vamos adquirindo familiaridade com eles, a câmera se aproxima cada vez mais de seus rostos.
Seja pelo fato de conter uma história que jamais envelhece ou por sua qualidade técnica ou até mesmo pelo fato de apresentar de uma forma muito poética o ponto de convergência na vida de todas as pessoas (mesmo que elas se recusem a perceber isso), algo ainda raro no Cinema, O Grão é um filme brasileiro que dá orgulho à nossa nação e que nos faz ficar otimistas quanto à qualidade do Cinema Brasileiro. É daquelas obras que nos faz pensar que, mais dia menos dia, a gente ainda sobe no palco do Kodak Theatre. E que estreia de Petrus Cariry! O que mais será que este promissor realizador guardará na manga?
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O Grão
Dirigido por Petrus Cariry (1h 28 min)
Assuntos relacionados: Luís Felipe Ferreira, O Grão, Petrus Cariry
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