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    dotArt – De What Happened to Mary? a Lost, muita coisa mudou… ou não

    Confissão n°1: não assisti a Lost. Confissão nº2: não nutro um fanatismo existencial pela nerd arte dos seriados. Tudo bem que mais recentemente me rendi e decidi conferir um pouco de Big Bang Theory.

    Aliás, aí vão algumas curiosidades sobre os diretores da série: Chuck Lorre dirigiu Two And A Half Men e Bill Prady foi produtor de Star Trek e Gilmore Girls, além de ter sido candidato a governador da Califórnia, em 2003.

    Confissão nº3: agora percebo que talvez a experiência com Big Bang Theory tem sido responsável pela redenção do gênero seriados no meu hall de prioridades de cosumo cultural. A queda da categoria se deu em virtude de um simples fato: o fanatismo descontrolado – e irritante – de profissionais de internet (minha área de atuação) em relação a Lost. Isso me parecia, em quase 100% dos casos, um comportamento default. Você estava lá, conversando sobre música, cinema ou qualquer outro assunto, quando de repente o seriado “entrava em cena” para excluir todos aqueles, que como eu, aparentemente não perderam muita coisa ao final da história (nesse momento você deve estar irritado com a expressão “não perderam muita coisa”, e, para réplicas sinta-se à vontade com o formulário de comentários abaixo).

    Por outro lado, acredito que um lastro do impacto da internet (e em específico das redes sociais) tenha alcançado todo um gênero áudio-visual de forma mais incisiva e rápida. Fico imaginando como seria a percepção da audiência à evolução de Arquivo X (hummm, última série que REALMENTE acompanhei), em que os fãs eram capazes até mesmo de contar quantas balas Fox Mulder havia gasto em uma temporada. Coincidentemente, o personagem nutria certo apego a objetos sexuais (coisa que só os fãs sabem, ou imaginam saber!), e, mais recentemente, David Duchovny interpreta Hank Moody em Californication, seriado com intensa tensão sexual, para não dizer bem escrachado sobre esse aspecto.

    Essa tensão sexual, inclusive, passava longe do formato original de seriados. O primeiro norte-americano, What Happened to Mary? (1912), da Edison Studios, trazia a ex-camponesa e então atriz (dotada de muuuuuitos dotes artísticos), Mary Fuller, que antes da estreia, já havia entrado em cena diretamente na primeira versão de Frankstein. A moça alcançou imensa popularidade, rivalizando Mary Pickford (atriz preferida do cultuado cineasta David Griffith), tendo atuado até 1917, quando desapareceu repentinamente dos sets, para tentar, em 1926 uma volta às telonas. Mary já havia sido diagnosticada como portadora de sofrimento mental, sendo internada e falecendo em 1947, aos 25 anos, de forma quase indigente. Após tentativas e buscas dos vídeos originais, não encontrei nenhum material disponível na internet (sim senhores nem tudo está perdido, mas se alguém por aí conseguir encontrar, comente este texto, por favor!).

    Outra curiosidade, era que os seriados, em geral, procediam a sessões de cinema convencionais. Sim, a coisa toda era bolada para ser exibida em telona, e não num monitor de 19 wide, sobre as suas pernas numa manhã de domingo entre intervalo de freelas. Sob esse ponto de vista, outro fator era extremamente relevante. Em geral, a audiência devia esperar e se deslocar até as salas. Muitas vezes, essa espera ultrapassava o período semanal, aumentando expectativa e obviamente gerando respostas bem mais negativas ou positivas na audiência. É como que para saber se Leonard conseguiria ficar com Penny, você precisasse esperar meses e gastar uma grana se deslocando, ao invés de ler uma twittada de um usuário afoito/spolier contando sobre TODOS os episódios de BBT.

    Enfim, as transformações estão aí, de formas inevitáveis e irreversíveis. Enquanto o ritmo caminha a passos velozes, torrents são trocados e o volume de audiência cresce consideravelmente. O que resta agora? Esperar por um novo Lost? Ou quem sabe uma versão vampiresca e menos maluca de Mary Fuller?

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