• O bizarro e o humor na mistura de Almas a Venda

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    Almas a Venda – Tudo o que Paul Giamatti queria era atuar bem, mas conseguiu muito mais

    Quanto você acha que vale a sua alma? Que diferença faz na nossa vida se temos alma ou não? Podemos considerá-la um órgão a mais do corpo humano? Essas e outras perguntas são colocadas para os espectadores que assistem Almas a Venda, terceiro filme da cineasta Sophie Barthes. Somos levados a refletir, de forma bizarra e engraçada, sobre esses e mais uma série de questionamentos, éticos e religiosos, que emergem da obra.

    No enredo, bastante peculiar, Paul Giamatti (o nome do protagonista na história e do ator na vida real é o mesmo, o que é muito interessante, além dos dois terem a mesma profissão) é um ator exaurido pela montagem da peça Tio Vania, do escritor russo Anton Tchekhov. Ele se sente estressado visto que o espetáculo está em vias de estrear e recebe um conselho diferente: que tal guardar a sua alma num depósito, para se sentir mais leve? Naturalmente o personagem (e o público) estranham bastante a questão, mas a medida que a história se desenrola somos levados a encarar isso com naturalidade, havendo um complexo mas familiar sistema por detrás da prática, que nos convence da verossimilhança da história, algo essencial para que o filme funcione.

    Isso envolve certos detalhes, similaridades com o nosso dia-a-dia, que convencem até mesmo os mais céticos como, por exemplo, a máquina na qual as almas são manuseadas, que lembra bastante um aparelho de tomografia computadorizada; o modo como o consultório é construído e os termos da negociação, parecidos com os de cirurgias plásticas; e o ‘tratamento’ que a alma recebe, de uma forma que lembra assustadoramente um órgão humano comum. O conjunto de fatores somado às reações maravilhosas do protagonista, que explora a comicidade do tema nos momentos certos mas sem deixar de usar a seriedade quando ela é necessária, conquista a audiência. Destaque para a cena de quando ele conta para sua mulher o que lhe aconteceu. É emocionante, intenso, mas, ao mesmo tempo, engraçado e leve. 

    Quanto aos aspectos técnicos, Barthes faz umas experimentações com a câmera que chamam a atenção, como, por exemplo, distorcer e desfocar a imagem para indicar a percepção pessoal do personagem ou colocar o protagonista olhando a si mesmo em frente a um espelho partido, numa ótima alusão ao seu estado interior. Ela também brinca com cortes, transitando de um sapato branco para um espaço em branco num momento decisivo da trama. Em geral, a qualidade dos diálogos e das cenas impressiona bastante. Algumas falas do protagonista são peculiarmente dúbias e levam a uma reflexão que vai além do riso, algo bastante raro, seja em dramas, comédias ou tragicomédias. Particularmente, eu não saberia dizer em quais destes gêneros a obra se encaixa. A trilha sonora também torna bastante propícia a reflexão de quem assiste, sendo melancólica e pontual, usando bastante o piano e com alguns sintetizadores de fundo.

    Almas a Venda é um filme que nos faz rir, mas também nos faz pensar e nos emociona. Ele propõe situações bizarras, surreais, mas estranhamente críveis. Sensível, engraçado e surpreendente, é um enredo que marca quem assiste. Mesmos os mais céticos tem de admitir, a coisa toda é tão bem feita que fica difícil não enxergar a história como passível de acontecer, num futuro não muito distante de nós. E isso é o mais intrigante. 

    detalhes

    Almas a Venda
    Dirigido por Sophie Barthes (1h 41 min) 
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    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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