M.I.A., Maya ou qualquer excentricidade notável
Por: Lucas Jardim, em Música, Review | Nenhum comentário

Em 2008, no meio de sua apresentação no Bonaroo Festival, M.I.A. anunciou que cancelaria todos os shows restantes da sua turnê e que adorava estar curtindo o seu último show com "os seus hippies". Claro, era um gesto ousado, ela vinha divulgando um cd de sucesso e não tinha feito nem metade dos shows agendados. Para não falar que o uso da expressão "último show" alvoroçou toda a mídia musical independente. Boatos de que ela trocaria a música pelo cinema pipocaram de todos os cantos. M.I.A. deixou o circo pegar fogo e sumiu de cena.
Aos poucos, notícias sobre um novo álbum foram surgindo. Antes de sabermos o nome dele, sua tracklist, ou qualquer coisa concreta, tudo já tinha acontecido. Ela já tinha lançado um clipe de 9 minutos que continha, entre outras coisas, sexo explícito, perseguição étnica, corpos sendo despedaçados por minas e uma criança de 12 anos tendo seu crânio graficamente atravessado por uma bala. Ela já tinha sido atacada pelo New York Times numa entrevista super antiética. Os produtores que haviam participado do álbum já haviam prometido diversas sonoridades diferentes.
M.I.A. descobriu a dura realidade de que, em 2010, é difícil ser ela mesma. A ausência de sua persona provocadora abriu espaço para, por exemplo, Lady GaGa, outra dama dos extremos. Atualmente, é GaGa quem causa o incômodo que M.I.A. causava, com a vantagem de não estar restrita à esfera independente da música. Além disso, com cinco anos decorridos do lançamento de seu primeiro álbum, ela já não é mais nenhuma novata, o que permite que o mundo pop duvide de sua estética e de seu modus operandi. Como a provocadora que é, M.I.A. reage a tudo isso criando ainda mais controvérsia, o que explica o clipe que mencionei, os ataques ao YouTube e ao Google, e a retaliação à jornalista do New York Times que a entrevistou.
Nesse turbilhão, observem, escrevi três parágrafos e ainda não usei uma linha sequer para falar sobre o disco novo, o tipografia-feita-trocadilho /\/\ /\ Y /\ (é, o título é esse mesmo). Isso ilustra algo muito claro: M.I.A. corre o sincero risco de ser engolida pela própria controvérsia. Quem sairia perdendo seria o público. "Maya"; (vou usar a grafia preguiçosa de agora em diante, ok?) é o trabalho mais confrontante de uma artista já conhecida por fazer esse tipo de coisa – e, provavelmente, um dos melhores discos que você ouvirá esse ano.
Antes de lançar seus álbuns, artistas descrevem seus discos da forma mais obtusa possível, o que quase nunca corresponde à realidade. M.I.A. descreveu este aqui como uma "comoção digital" e, realmente, ela não poderia te-lo descrito melhor: "Maya" é um álbum que se regozija na própria dissonância. "Steppin Up", por exemplo, parece ter sido gravada num almoxarifado industrial, tantos são os seus ruídos. "Teqkilla" se assemelha à versão hardcore de um conto sobre o estilo de vida Paris Hilton – uma saga de orgias, álcool e violência, com M.I.A. emitindo ruídos espasmódicos antes de gritar, totalmente torpe: "quero uma dose de tequila em mim!". "Born Free" usa como base um sample de "Ghost Rider" do Suicide e uma bateria animal (cortesia de Iggor Cavalera) para criar um hino louco de resistência, e "Meds and Feds" apela para pura cacofonia, usando um sample de "Treats" do Sleigh Bells para criar o equivalente musical de um martelada no cerebelo (a parte engraçada é que a música é muito boa).
Nessa miríade de barulhos, o single "XXXO" surge com um electropop fofo, com a cantora entoando numa voz deliciosamente corrigida "Você quer que eu seja alguém que eu realmente não sou". Ele disputa com o suave reggae de "It Takes a Muscle" o título de canção mais bonitinha escrita pela artista. Escutando o disco, a controvérsia ao seu redor é até justificada. Ele é o som de uma mulher lutando contra quaisquer amarras que cheguem ao seu campo de visão, o som da fuga desenfreada e inexplicada. Para além da rumores, "Maya" é um álbum que encara a esquizofrenia do mundo moderno de frente. E nos faz dançar com ela.
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