Alucinação de qualidade
Por: Renata Ferri, em Colunas, Literalmente | Nenhum comentário

Recentemente descobri uma rede social chamada Stumbleupon. A pegada é a seguinte: Você lista uma série de assuntos que são do seu interesse e então o programa fornece inúmeros sites relacionados com aquilo que você listou. Passei os primeiros três dias completamente entretida lendo tudo o que há disponível na web sobre mistérios alienígenas. Sim, eu sou o tipo de pessoa que se empolga com teorias de vida extraterrestre.
Mas não, você não está na coluna errada. Estou aqui para dizer que, dentre os assuntos listados por mim estava a literatura. Depois que esgotei tudo que havia de interessante sobre ET’s, passei a ser bombardeada por sites que davam dicas sobre como curar o bloqueio literário, ou como escrever um romance épico passo-a-passo. Estive tentada a destrinchar o conteúdo das páginas em busca de ajuda, afinal, quem acompanhou a ultima aparição dessa coluna aqui no Opperaa sabe da minha desesperadora prisão de ventre cerebral criativa esperançosamente temporária. Mas não se preocupem, o bom senso me impediu de considerar esse ou qualquer tipo de auto-ajuda.
É normal que uma ótima cozinheira exiba uma interminável coleção de livros de receita, e esteja sempre aprendendo novas maneiras de fazer arroz com brócolis pelo telefone com as amigas. Mas um verdadeiro escritor é anti-social, metido e auto-suficiente. Acham que não existe nada mais brilhante e precioso do que somente as ideias que borbulham dentro do próprio cérebro. E é apenas a partir dessa atitude que se pode construir uma verdadeira obra literária.
Caso alguma de vocês pessoas de boa índole tenham um ente querido que não haja proferido nenhuma palavra sonoramente compreensível nos últimos dias, apresente um aspecto desesperado, porém eufórico, cabelo oleoso por falta de banho e olheiras, certifique-se de que ele(a) está passando por um magnífico processo de criação literária. Se ainda tiver dúvidas, procure por muitas bitucas de cigarro, canecas vazias de café e garrafas de whisky pela metade ou menos da metade. É fato: você tem um geniozinho(a) em casa.
Fazer livros é como trabalhar na fórmula de um poderosíssimo alucinógeno. É criar algo que leve os leitores a visualizar situações, lugares e pessoas que não existem, e mesmo assim, sentirem-se inspiradas por toda essa realidade fictícia. A não ser que se trate de alguma biografia tediosa, escrita por um desses jornalistazinhos.
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Renata escreve para a coluna Literalmente sempre que a intensa rotina de leituras lhe dá tempo.
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