• Sobre a legitimidade do pop, Kylie Minogue e Aphrodite

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    Kylie Minogue – Aphrodite conta com colaborações de Jake Shears (Scissor Sisters), Stuart Price e Calvin Harris

    Dia desses conferi uma entrevista com Chris Anderson, editor-chefe da Wired, explicando a sua teoria da "Cauda Longa" e como o mercado estava caminhando para algo cada vez mais setorizado e de nicho. Como meu quarto é uma verdadeira experiência multimídia, eu tentava prestar atenção no Chris Anderson ao mesmo tempo em que ouvia o novo álbum da Kylie Minogue, Aphrodite.

    Falar de nicho e Kylie Minogue acabou me saindo apropriado. Afinal, ela é artista pop que, de forma mais descarada, se apegou a um gênero e trabalhou dentro dele à sua maneira. Atualmente, depois de 20 anos do lançamento de seu disco de estréia, falar de dance-pop e Europop significa falar de Minogue. Ela é uma das poucas das divas de relevância que sobrevive no mercado moderno sem se entregar aos maneirismos do hip-hop e conseguiu chegar até aqui sem um disco de R&B, de baladas ao piano, ou qualquer outra estratégia de marketing parecida.

    Diva até parece um termo inadequado. Uma diva é uma personalidade dominante e inconstante, o que Kylie definitivamente não é. Apelando para a comparação clichê que toda pessoa que avalia música pop deve fazer um dia: Madonna é uma diva, Kylie é uma mulher que sabe de suas qualidades e sabe o que deve fazer para realçá-las em um disco.

    O que nos traz à Aphrodite. O décimo primeiro disco da cantora conta com colaboradores que vão de Jake Shears, vocalista do Scissor Sisters, a Stuart Price. É o som do teclado característico de Price que domina o primeiro single "All the Lovers", e "Get Outta My Way". Ademais, Calvin Harris dá um groove super bem-vindo a "Too Much" e Starsmith pega carona na sonoridade das discotecas de 2002 e 2003 em "Put Your Hands Up (If You Feel Love)". O álbum prossegue numa sucessão de ótimas músicas até o final, mas nada poderia preparar o ouvinte para o final apoteótico de "Can’t Beat the Feeling". A canção consegue a difícil façanha de ter o melhor hook de sintetizador do disco inteiro, explodindo em cor e som logo assim que o primeiro refrão entra.

    Você provavelmente lerá que a manutenção da sonoridade dance-pop é prova de uma artista estagnada. Quem disser isso provavelmente não escutou o cd. Minogue está superatualizada, fazendo parcerias acertadas e dando ao seu som a cara de 2010 sem descaracterizá-lo. Os teclados vibram em harmonia e o charme de Minogue dá às canções forma e sentimento. Price, no cargo de produtor executivo, mantém o nível de produção altíssimo e faz com que o mix seja o mais coeso possível (algo que o lançamento de 2007 de Minogue, o X, falhou retumbantemente em conseguir). Isso permite que esse álbum seja apreciado tanto no seu quarto quanto na sua balada favorita.

    A crítica sempre fez o favor de ignorar Minogue, na medida em que ela ignorava a crítica para se dedicar ao seu nicho musical de corpo e alma (algo que Chris Anderson decerto aprovaria), sem maiores preocupações com evolução musical ou algo do gênero. Muitas coisas serão divulgadas na mídia sobre Aphrodite. Independentemente delas, Kylie fez um álbum excelente, capaz de competir facilmente com os discos pop feitos por gente mais jovem e um verdadeiro primor para quem curte música para se divertir. Manter tal vitalidade depois de 20 anos de carreira (e um câncer, para quem se lembra) é algo, decerto, digno de nota.

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    Adora chuva, cheiro de livro novo e drinques coloridos. Cursa direito e jornalismo, o que lhe traz alguns conflitos existenciais. Não consegue ficar uma semana sem ouvir pelo menos duas bandas novas e só se imagina fora do ambiente urbano num pesadelo daqueles bem chocantes. Curte o Twitter mas não vê ponto no Formspring. - Leia outros textos de

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