Invisível de Paul Auster e o mergulho na escrita
Por: Salomão Terra, em Literatura, Review | Nenhum comentário

Paul Auster – 15 romance do escritor norte-americano, Invisível, chega ao mercado editorial nacional
Se o clichê ame-o ou deixe-o em geral se aplica ao universo fonográfico ou cinematográfico, no mundo literário ele tem endereço certo, e este é Paul Auster.
Em 1987, quando apresentou ao mundo a Trilogia de Nova York, coleção de 3 novelas que o colocaram no hall dos mais promissores escritores contemporâneos da América, Paul Auster despontou no cenário editorial como absoluto e profícuo operário das letras. Alguns anos se passaram e uma série de lançamentos – tidos por muitos como aquém de seu potencial – deixaram em seu público uma visão dúbia sobre a obra escritor. Agora, chegando ao seu 15º romance, intitulado Invisível, o ele não abre espaço para dúvidas de que tem em sua escrita primor e estética ímpares.
A obra, que chega ao nosso mercado em versão da Cia das Letras, tem uma composição tão complexa quando a própria cerne literária, em que múltiplas vozes, formas e personagens se entrecruzam num universo que parte de cenas enigmáticas, ao drama, ou tensão sexual, em poucos parágrafos.
De todos os lançamentos deste ano, Invisível talvez seja o de maior apelo metalinguístico e de perspicácia formal. Nele, Paul Auster parece brincar – literalmente – com seu texto (quando por exemplo não faz distinção entre voz narrativa e fala), locais e tempo (dando saltos de três décadas no enredo) e mesmo lugar (retratando NY, Paris ou uma ilha deserta). Quando o ponto em questão é o enredo, mais complexa se torna a obra, numa sobreposição de várias histórias.
Como protagonista (inicial) temos o jovem Adam Walker, figura aparentemente de grande simpatia e virtuose. É um estudante universitário do final da década de 60 residente na Big Apple, como tantos outros. Em uma festa conhece o enigmático casal de franceses Rudolf Born (de sobrenome homônimo a um de seus escritores preferidos) e Margot (mulher sensualmente espirituosa). Partindo de uma proposta para lançar uma publicação em terras yankee, Born envolve Walker numa espiral emotiva que culmina numa pressuposta cena criminosa, gatilho de todo o desenrolar da trama.
Já no segundo capítulo, Auster começa a manipular os fios da trama, jogando de encontro ao leitor uma visão totalmente diferente da anteriormente retratada, tendo como narrador James Freeman, o companheiro de quarto de Walker, num salto histórico de 30 anos. A partir daí, tudo se desenrola como uma avalanche enlouquecedora e de percepções diversas.
Neste ponto, o autor coloca no próprio texto um jogo semântico em que questiona seu próprio papel (será?) em tom íntimo e quase autobiográfico. Abaixo um trecho de fala do narrador:
“A Parte Um era escrita na primeira pessoa, e, quando comecei a Parte Dois (que tratava de mim mesmo de maneira mais direta que a primeira parte), continue a escrever na primeira pessoa, fui ficando cada vez mais insatisfeito com o resultado e acabei parando. A interrupção durou vários meses (meses difíceis, meses de angústia), e então, certa noite, a solução me ocorreu. Meu ângulo estava errado, me dei conta. Ao escrever sobre mim mesmo na primeira pessoa, eu havia abafado a mim mesmo, havia me tornado invisível, e tornei impossível, para mim, encontrar aquilo que estava procurando”.
Talvez aí, o próprio Auster tenha justificado o título de sua obra. Como não há alusões diretas a uma possível invisibilidade de personagens, eventos ou pontos-chave, a brincadeira sobre o próprio ofício de mergulho interno no momento da concepção de uma obra literária, e a nulidade (ou invisibilidade de seu autor), sejam os motivos e pontos altos deste belo e essencial romance.
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Confira mais sobre Invisível no site da Cia das Letras.
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