• A sensibilidade hitchcockiana em Festim Diabólico

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    Festim Diabólico – Cineasta analisa de forma magistral o doentio desejo do ser humano de ser superior aos seus semelhantes

    Desde que o mundo é mundo que o Ser Humano tenta se sobressair. Nós simplesmente não nos conformamos com o fato de que somos todos iguais em nossa essência. Temos sede de poder. De nos destacar. De sermos considerados especiais. Superiores.

    Esse desejo leva, diariamente, as pessoas a cometerem todo o tipo de ação, desde pequenas e bobas contravenções até a criação de ideologias hediondas para justificar seus atos, como é o caso do Nazismo, o supra-sumo do egoísmo. Nesse sentido, cabe uma reflexão talvez até polêmica demais: e se fosse dada a você a oportunidade de se destacar de alguma forma, mas para isso fosse necessário tirar vidas, qual seria sua atitude? Pior ainda: e se estas vidas a serem sacrificadas fossem consideradas sem importância por você e pelo grupo no qual convive?

    O valor de uma vida humana depende do ponto de vista e é essa verdade que Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock vem esfregar na nossa cara, de maneira magistral. Ao mostrar dois jovens inteligentes, ricos e bonitos acreditando-se serem os "super-homens" de Nietzsche ele nos faz sentir repulsa pela atitude arbitrária deles de se considerarem superiores. E faz isso de uma forma genial, filmando com a câmera em planos sequência de dez minutos, o máximo que se conseguia filmar nesse tipo de plano na época. Para dar a impressão de que a obra é toda uma sequência só, os cortes são feitos de forma suave, quase imperceptível, com os planos terminando em pequenos detalhes, como a roupa de um personagem, por exemplo.  

    A história do filme foi baseada em um caso real, o de Leopold e Loeb, dois jovens extremamente inteligentes que, na vida real, também mataram apenas movidos pelo desejo de cometer um crime perfeito. O filme de Hitchcock se diferencia do caso por uma série de detalhes que imprimem ao filme a marca própria do mestre do suspense. Por exemplo, o fato de que o pai e a noiva do rapaz assassinado são convidados para uma festa enquanto o corpo dele se encontra num baú, na sala onde estão jantando, não aconteceu no crime verdadeiro. Mas o fato de que foi um detalhe mínimo e fatal que entregou tanto Leopold e Loeb quanto Brandon (John Dall) e Phillip (Farley Granger) é comum ao acontecimento e à ficção, sendo que fica visível a criatividade e talento do cineasta mais uma vez na escolha desse detalhe. 

    A obra é recheada de momentos inesquecíveis e diálogos brilhantes, como quando a câmera acompanha Brandon até a cozinha e a porta se abre de relance e o vemos esconder o objeto do crime com uma expressão divertida no rosto. Também há um diálogo interessante e elogioso que menciona os atores Cary Grant e Ingrid Bergman, sendo que o primeiro era a primeira escolha de Hitch para o papel do professor Rupert Cadell e Bergman era uma das atrizes com a qual o diretor mais gostava de trabalhar. Destaque também para a discussão envolvendo o professor, Brandon e o pai de David (Dick Hogan), este último repudiando veementemente o argumento de que algumas pessoas são "superiores" a outras, sem saber que estava, de certa forma, defendendo o próprio filho.

    Quando na sequência final James Stewart, o professor, começa a falar sobre o crime e a câmera focaliza os locais onde se deu a ação também é um momento belíssimo. Stewart, inclusive, faz nesse filme uma das atuações mais memoráveis de sua carreira, especialmente por um simples e genuíno tremer de suas mãos quando se volta para a câmera com uma corda na mão. É muito emocionante. A obra, como um todo, prende a sua atenção desde o primeiro até o último minuto de projeção. Outro detalhe interessante é que este é o primeiro filme colorido que Hitchcock fez, em 1948. Corajosamente, ele faz referências ao Nazismo (afinal, a Segunda Guerra Mundial tinha terminado há pouquíssimo tempo) e à obra Crime e Castigo, de Dostoiévski, em alguns dos diálogos.

    Festim Diabólico é o trabalho não só de um gênio do Cinema, mas de um conhecedor da alma humana, que sabe que, mesmo sentindo uma aparente repulsa pela teoria, o público torce para que o crime perfeito se concretize. Cabe reflexão. Será que realmente se acabou aquele desejo insano e intolerante de extermínio do próximo, despertado de maneira perigosa por diversas ditaduras ao redor do mundo? E qual será a ideologia dos tempos atuais para justificar as mortes "sem importância" dos "seres inferiores" que a mídia não vê? Trabalhadores que, apenas por morar em favelas, são espancados diariamente por policiais; índios que sofrem com o alcoolismo e com sua falta de lugar dentro da sociedade; pessoas que enfrentam preconceitos por suas escolhas pessoais, sejam elas quais forem. Hitchcock estava mexendo muito mais com a nossa alma do que qualquer crítico de cinema da época pudesse vislumbrar, de uma forma tão visionária e atemporal que foi preciso se passarem muitos e muitos anos até que a ficha caísse.

    detalhes

    Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock (1948)  

    autor

    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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