A saga de um homem em O Profeta
Por: Priscila Armani, em Cinema, Review | Nenhum comentário

Roterista experiente, mas diretor com poucos trabalhos no currículo, Jacques Audiard deve ter se surpreendido pela indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que O Profeta recebeu neste ano. Isso porque este é um filme teoricamente simples, sem maiores pretensões, mas que conta de maneira forte e impactante a história de sobrevivência de Malik El Djebena (Tahar Rahim) dentro da prisão, um jovem de 19 anos que, da noite pro dia, se vê com uma pena de seis anos pela frente para cumprir.
Para que esta história funcionasse, era necessário, acima de tudo, um ator carismático mas que, ao mesmo tempo, despertasse no público medo, antipatia, simpatia e curiosidade. Para a tarefa, o jovem Rahim foi uma escolha perfeita, na medida em que evolui de um inexperiente preso para um homem respeitado, lembrando de maneira quase assustadora o Michael Corleone de O Poderoso Chefão em sua trajetória (salvas as devidas proporções e contextos). Quando vai para a penitenciária, se depara com seu primeiro dilema, que irá lhe render uma companhia ingrata para o resto da vida. Ultrapassada esta fase, passa a trabalhar para César Luciani (Niels Arestrup), o "manda-chuvas" da prisão, extremamente preconceituoso contra os companheiros muçulmanos ou de outras religiões. A partir daí, entende-se que o que era apenas conflito de interesses, a princípio, na verdade envolve nuances muito mais complexas que isso.
Tahar também sabe passar, fisicamente, essa evolução, além de transmitir emoções como poucos atores. Em momentos de nervosismo, sua mão tremendo e a expressão de medo de seu rosto são o bastante. Não há necessidade de mais nada além de seu olhar para gerar a compreensão necessária. Ainda assim, o cineasta sempre colabora e, tecnicamente, a projeção tem momentos muito bonitos. Dois merecem especial menção: o primeiro, quando, em meio a um peculiar e apertado tiroteio, a edição e mixagem de som nos contam o que acontece ao personagem, numa das sequências mais emocionantes e marcantes do filme; e o segundo quando o amigo indesejado de Djebena apresenta um efeito especial bastante semelhante ao de Michelle Williams em certa cena de Ilha do Medo, este último só identificável para quem assistiu aos dois filmes.
Destaque também para o grande número de closes que o diretor dedica aos rostos dos personagens, focando em suas emoções, sejam elas quais forem. E é interessante observar que quando a câmera adquire o ponto de vista do protagonista, ela se transforma num furo de luz numa tela preta, dando ao público certa angústia, essencial, especialmente, na abertura do filme, momento em que o personagem principal já cativa o espectador de cara.
Quanto à trilha sonora, foi realizada pelo sempre profissional Alexandre Desplat, e mistura de maneira bem concebida elementos contemporâneos com clássicos, desde rap até piano e violino, num mix que reflete o estado de espírito dos personagens e, ao mesmo tempo, ‘casa’ perfeitamente com as imagens, como toda boa trilha deve ser.
O Profeta é uma saga cativante, com todos os elementos empolgantes e tristes trazidos por um protagonista complexo, profundo, que levanta uma série de questões. Por causa delas e desse personagem belamente roteirizado e interpretado de maneira maestral por Rahim, é uma obra que vale a pena ser vista, analisada e pensada, acima de tudo pelo mote principal desse homem: "Eu não trabalho pra ninguém. Só trabalho para mim mesmo". Vale refletir.
detalhes
O Profeta
Dirigido por Jacques Audiard (2h 30min)
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Assuntos relacionados: Alexandre Desplat, Jacques Audiard, Niels Arestrup, O Profeta, Tahar Rahim
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