Philip Roth sem rodeios em A Humilhação
Por: Salomão Terra, em Literatura, Review | Nenhum comentário

O escritor norte-americano Philip Roth tem todos os ingredientes para uma auto canonização. De herança judia, nascido na cidade de Newark em 1933, aos 26 anos publicou a bem aclamada coleção de novelas Goodbye, Columbus. Complexo de Portnoy e Pastoral Americana, duas outras obras lançadas nos anos posteriores, reforçaram suas proficiência no ofício literário rendendo-lhe prêmios e reconhecimento.
Outro ingrediente na fórmula da escrita de Roth são temáticas que orbitam a natureza do desejo sexual com a busca pela auto compreensão. Sempre com pitadas de humor e elementos de crítica aos costumes, homens em idade avançada e a origem judaica. Em Complexo Portnoy temos a pulsão sexual e a família judia em cena. Em Pastoral Americana, tudo isso com o acréscimo da crítica à sociedade e o surgimento de Nathan Zuckerman, protagonista desta e de outras histórias do escritor que então já imprimia traços autobiográficos em suas personagens.
Em sua trigésima obra, Roth não foge à máxima em seu núcleo conceitual. A Humilhação, que chega ao país pela editora Cia das Letras, traz a figura de Simon Axler como um ator de teatro em idade avançada, que após ter perdido sua aura criativa, se vê às voltas com processo de reconstrução emocional e o envolvimento emotivo/sexual com uma jovem lésbica.
A obra recebeu críticas negativas no exterior. Um crítico inglês do Observer, por exemplo, afirmou que: “o novo romance de Roth é, por seus padrões, preocupantemente pobre… dificilmente pode ser chamado de um romance, sendo mais um fantasia sexual de um homem velho vestido com a farda da literatura”.
A bem da verdade, podemos considerar A Humilhação como um livro de meios-termos. Dificilmente será aceito como uma das principais publicações do autor, até mesmo por tudo que Roth nos apresentou até hoje. Mas sob um espectro mais amplo, do contexto literário mundial de hoje, não é de toda uma obra para passar às sombras.
“Ele perdera a magia. O impulso se esgotara. Ele nunca havia fracassado no teatro, tudo o que fizera sempre fora vigoroso e bem-sucedido, e então aconteceu esta coisa horrível: ele não conseguia representar”. Assim o autor abre seu texto (dividido em três partes: Sem Deixar Vestígios, A Transformação e O Último Ato) como espetáculo teatral. A construção do protagonista Simon Axler segue métrica narrativa quase dramatúrgica, que hora esconde, hora revela suas minúcias, tradicionalmente levando a um clímax e o desfecho trágico.
Há personagens que servem como hipérboles, como Sybil Van Buren, inicialmente companheira no pequeno período em que Axler se interna numa clínica psiquiátrica, posteriormente sendo resgatada para espelhar sua pulsão de morte. Em contrapartida, Pegeen Mike, sua jovem amante lésbica, divide a cena ao longo de quase toda a história, trazendo em si “dicas narrativas”. Ela exemplifica a estagnação ou a transformação pessoal, tomando atitudes esperadas, mesmo a despeito das expectativas. Para concluir, Roth se vale de uma cena de Tchécov para dar sentido ao desfecho trágico.
Assim, constrói-se o enredo, que em suas limitações (espaciais inclusive) envolve o leitor. Mas na contrapartida, e talvez este seja o ponto mais atacado pela crítica, Roth não usa, pelo menos inteiramente, toda sua capacidade de construção gramatical. Aqui, percebe-se que o autor age de forma mais direta, sem rodeios ou bordaduras que poderiam enriquecer trechos com alto potencial dramático.
Em passagens de alta tensão sexual tudo é muito direto. Roth não faz concessões a falar sobre vibradores, penetrações ou brincadeiras intimas. Vai direto ao ponto, de forma vulgar e sem pudores. Quando resgata a família também o faz assim, não construindo, como em outras obras, subterfúgios para criticar a sociedade norte-americana e seus tipos clássicos. Ele também não induz através de sutilezas indícios de elementos autobiográficos, sendo mais direto e praticamente assumindo: “eu sou Simon Axler”.
A Humilhação talvez desperte por aqui críticas negativas. Talvez seja esse o objetivo de Roth ao construir uma obra direta e de certa forma ranzinza. Mas há que se concordar que os livros deste autor sempre transvestem – com as fantasias mais variadas – questões da gênese humana, mesmo que estas tenham sua natureza obtusa e pouco compreensiva.
detalhes
Conheça mais sobre A Humilhação pelo site da Cia das Letras. Sobre o autor, biografia e obras podem ser acessadas no site da Roth Society.
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