• A China de Xinran em As Filhas Sem Nome

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    Xinran – Em As Filhas Sem Nome, Xinran desvela o lugar marginal em que vivem as mulheres da zona rural chinesa

    Aos contrastes, é  possível dizer, grande parte da população mundial já está habituada, pois nesse plano viveu desde o início do colonialismo e assim permaneceu durante e depois do imperialismo e neoimperialismo do século XX, em uma dinâmica que, embora comum, gera realidades diferenciadas ao incorporar os processos internos e específicos de cada região. Na China, que ainda sofre pelos excessos do fechado controle governamental, isso se revela substancialmente. Nas desigualdades desse país, partindo da experiência feminina e da tradição rural chinesa, situa-se o romance de Xinran, As Filhas Sem Nome.

    Sob a imagem mundial de gigante econômico e de modernas metrópoles em crescimento, descobre-se uma zona rural atrasada, patriarcal, fundamentada na agricultura familiar, analfabeta, marginalizada e completamente alheia a qualquer ideia que remeta à modernidade. A primazia masculina, nesses rincões chineses, submete as mulheres, que estão destinadas a uma função reprodutiva e servil.  As “palitinhos”, como são chamadas, servem apenas para “botar ovos”, de preferência que gerem um varão, que será útil na lavoura e no sustento da casa.

    Nesse contexto, apresenta-se a família de Li Zhongguo que, para sua amargura e vergonha, teve seis filhas, a quem ele atribuiu nomes de acordo com a ordem de nascença: Um, Dois, Três, Quatro, Cinco e Seis. As protagonistas da história são as filhas Três, Cinco e Seis, as únicas que rompem com a lógica familiar ao deixarem o campo para tentar mudar sua realidade na cidade de Nanquim.

    A fábula de As Filhas Sem Nome é justamente a trajetória das três jovens na cidade, enredada de maneira dinâmica, rica em detalhes e cheia da sabedoria popular e aspectos próprios da cultura chinesa. A escritora Xinran é uma mulher de Nanquim, onde viveu e trabalhou durante muito tempo como jornalista até se radicar na Inglaterra devido à censura do autoritário governo chinês. Por isso o ambiente urbano encontrado pelas irmãs sem nome é tão bem apresentado, o que faz o leitor se sentir como se estivesse também nas ruas da cidade à procura de um emprego, em meio a incertezas e desconfianças, com medo do que pode vir a acontecer em um mundo novo e desconhecido.

    Ultimamente, tem havido uma profusão de filmes e narrativas que geralmente abordam a realidade desses povos mais distantes do ocidente, transmitindo a sensação de simples exploração do exótico e da miséria alheia. Isso acaba se revelando, no caso de alguns autores, como oportunismo de um olhar que hoje se dirige ao oriente e às causas das minorias. Na obra de Xinran, especificamente, por sua abordagem delicada e consciente e, possivelmente por ser, ela também, mulher e imigrante, não se tem essa sensação.

    Se as personagens do livro ocupam um lugar marginal, o olhar da autora também parte de um espaço fronteiriço e, de certa maneira, privilegiado, quando se avalia sua capacidade de reconstruir a realidade da questão feminina na China no plano da ficção. Obviamente, isso não é determinante na criação artística, mas influi no cuidado da composição, já que há uma identificação entre autor e personagens.

    As Filhas Sem Nome, assim como As Boas Mulheres da China, também de Xinran, foi inspirado em histórias reais, descobertas em algumas entrevistas realizadas pela autora. Apesar de o grande romancista brasileiro Erico Verissimo nos lembrar de que “nem tudo que acontece no plano real torna-se necessariamente verossímil quando transposto para o plano da ficção”, na obra de Xinran isso não acontece e, de fato, as três irmãs sem nome ganham vida própria e inquietam o leitor com sua história.

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    Conheça mais sobre a obra no site da editora Cia das Letras.

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    Anda perdido pelos caminhos da ficção, tem ideias subversivas, ânimo incerto e um relacionamento aberto com o Cinema, as Letras e a Comunicação. Gosta de vozes femininas e imagens escondidas. Erra com as palavras e não raramente tropeça numa verdade. É jornalista e mestrando em Teoria da Literatura. - Leia outros textos de

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