Conheça Afluentes do Rio Silencioso de John Wray
Por: Salomão Terra, em Literatura, Review | Nenhum comentário

John Wray – Recém lançado no Brasil, Afluentes Do Rio Silencioso é o retrato da NY segundo uma promissora figura literária
Inquestionavelmente, o metrô novaiorquino é um dos mais antigos e extensos sistemas de transportes do mundo. São 468 estações em 369 quilômetros de rotas levando cerca de 1.580.000 passageiros/ano.
Some a este pequeno universo um ecossistema de etnias variadas, estações clássicas, cores, movimentos e toda a sorte de habitantes/atividades.
Em meio a tal universo, surge Lowboy, ou William Heller, protagonista do mais recente romance de John Wray, jovem autor norte-americano tido recentemente como promessa entre a nova geração de escritores de seu país. Afluentes do Rio Silencioso é seu terceiro livro, e no Brasil ganha versão pela Cia das Letras.
Em entrevistas recentes, Wray frisa que o enredo de sua obra pode ser resumido em duas sentenças: 1. Um jovem garoto, esquizofrênico, que sai pelos metrôs da cidade procurando uma garota para transar pela primeira vez tendo como objetivo salvar o planeta do aquecimento global; 2. uma jovem e estranha mãe solteira de origem europeia em busca de seu filho contando com a ajuda de um detetive de meia idade fissurado em criptografia.
Dessa forma também se compõe a narrativa. O leitor é levado a contrapor sua leitura por um livro dúbio, em que hora temos um mergulho na mente perturbada do garoto, outra na relação ambígua de conflito e cumplicidade entre mãe e detetive. Em tese, teríamos aí uma simetria que equilibra fluência na leitura, enredo e construção das personagens, mas talvez um dos pontos negativos seja justamente o amplo escopo ao qual o autor se propõe, por vezes tornando a leitura cansativa, em especial quando o sub-texto do protagonista aparece em forma de fluxos de consciência extensos e gramaticalmente mal articulados.
Paradoxalmente, John Wray retira de personagens bem definidas o trunfo de sua obra, a começar por pontos em comum que os ligam, como neuroses e nomes duplos.
William Heller, ou Lowboy, é a figura central. Jovem, com 16 anos, sofre de esquizofrenia e encontra-se internado em uma clínica. Desenvolve fixação por questões climáticas e acredita estar sendo perseguido por dois outros jovens. Em determinado momento foge de sua internação em direção ao sistema de metrô da cidade. Ele tem um único objetivo: salvar o mundo perdendo sua virgindade com uma antiga companheira de escola, a jovem Emily, figura singular. Independente, ela tenta auxiliar o garoto, mas termina por ficar à mercê de seus devaneios e agressividade.
Na superfície, Yda, ou Violet Haller é a mãe desesperada em busca de Lowboy. Solteira, ela encarna a figura da super-protetora que dá pistas sobre o sumiço do garoto. No aspecto narrativo, é ela quem fornece backgrounds para compreensão do passado em forma de flashbacks. Violet divide cena com o detetive particular Ali Lateef, pseudônimo de Rufus White. Personagem de meia-idade, ele se questiona sobre sua própria proficiência e para complicar, se sente atraído por Violet.
Valendo-se desse vasto universo, John Wray equaciona seu texto nas proporções um capítulo para Lowboy, outro para Violet/Lateef, alternando as percepções pessoais de cada um dos dois últimos em capítulos subsequentes.
Por fim, Afluentes do Rio Silencioso está longe de ser um clássico da literatura norte-americana recente, mas torna-se valioso por apresentar ao leitor a escrita promissora de John Wray, mais uma das inúmeras facetas da Big Apple, além de narrar uma história cativante sobre o autêntico protagonista Lowboy, uma projeção das neuroses contemporâneas peculiares a todos nós.
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Conheça mais sobre Afluentes do Rio Silencioso pelo site da Cia das Letras, e mais de John Wray através de seu site pessoal.
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