• J M Coetzee escreve sobre si próprio em Verão

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    Autor sul-africano mergulha em recorte de sua biografia com Verão

    Questionado sobre a personalidade de seu conterrâneo J. M Coetzee, o jornalista, e também autor sul africano Rian Malan, o definiu:

    “Coetzee é um homem com autodisciplina e dedicação quase monástica. Ele não bebe, fuma ou come carne. Ele circula vastas distâncias para manter a forma e gasta pelo menos uma hora na sua escrivaninha todas as manhãs, sete dias por semana. Um colega que trabalhou com ele por mais de década, afirma ter o visto sorrindo apenas uma vez. Um colega frequentou diversos almoços em que Coetzee sequer pronunciou uma palavra”.

    Mas afinal, o que define uma personalidade? Mais complexamente, a personalidade de um escritor vencedor de dois Booker Prizers e um Nobel de Literatura.

    Talvez, várias dessas perguntas possam ser iluminadas com a mais recente “autobiografia ficcionalizada” lançada pelo escritor, que no Brasil leva o nome de Verão, em edição da Cia das Letras.

    A obra integra série de livros em que o autor faz um exercício de memórias e ficções sobre acontecimentos de sua vida. Outros dois títulos foram lançados, Boyhood e Youth. Em Verão, há um recorte que contempla metade de década de 70 e seu final, momento em que o autor volta à sua terra após viver nos EUA e Inglaterra, como professor.

    Sobre várias perspectivas, Verão é uma obra complexa e icônica, a começar pela escolha do narrador, Vincent, um biógrafo inglês interessado em escrever uma obra sobre Coetzee. A partir daí, traça-se um complexo paradigma narrativo, em que Coetzee coloca-se como uma personalidade já morta.

    Como plano de fundo, tem-se a cidade do Cabo, terra natal do escritor. Há passagens por regiões profundas da África do Sul, França e até Brasil, mas convergindo sempre a localização sul africana. Conflitos políticos, percepções sociais (como à sua raiz Africânder, de descendentes europeus) e até relacionamentos amorosos são fios condutores do enredo.

    Na busca pelo perfil de Coetzee, o protagonista Vincent procura cinco personalidades que tiveram importância significativa em sua vida, a maioria mulheres. Inicialmente temos Julia, uma vizinha casada pertencente a alta classe do país que termina por criar um envolvimento amoroso com o autor. Posteriormente, entra em cena Margot, prima que manteve sentimentos contidos em relação a Coetzee durante quase toda a vida. Adriana, a próxima personagem, é uma brasileira refugiada na África do Sul, mãe de uma das alunas do escritor. Aqui, há um intrigante jogo de amor e repulsa. Posteriormente Martin, breve amigo e companheiro de universidade e por fim a francesa Sophie, com a qual o autor travou pouco relacionamento.

    Em termos formais, Verão é basicamente um livro de diálogos. Vincent se coloca como um entrevistador bem articulado que tem prazer em mergulhar profundamente nas percepções de seus entrevistados. Ele mesmo é questionado inúmeras vezes colocando assim contrapontos interessantes à maioria das vozes, diga-se de passagem cruéis em relação a história do autor. O recurso também imprime estilo ímpar, livre e envolvente ao leitor. Em um dos capítulos, sobre sua prima Margot, a uma inversão de papéis em que o entrevistador lê o que já havia produzido aguardando considerações da “entrevistadas”.

    E assim Verão se apresenta ao público de Coetzee como uma de suas mais significativas obras, presenteando-o com jogos lúdicos de texto, esperáveis de um dos maiores nomes vivos da literatura mundial.

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    Confira mais sobre a obra pelo site da Cia das Letras.

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