• A psicodelia de O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

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    O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus – Conhecido por ser o último filme de Heath Ledger, obra dirigida por Terry Gilliam é uma viagem surrealista à imaginação das pessoas

    Terry Gilliam é mundialmente conhecido por seu trabalho no grupo humorístico inglês Monty Phyton, mais como roteirista, animador e criador de uma identidade visual pro grupo do que como ator e comediante. Também se tornou notório por seu estilo de filmar, sempre recheado de paisagens fantásticas e por enredos que desafiam a sanidade dos personagens. Seu novo trabalho, O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus não foge dos padrões costumeiros. E é interessante e instigante assim como todos os demais trabalhos do diretor.    

    O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus resgata a vertente surrealista de Gilliam presente especialmente em filmes como Brazil e As Aventuras do Barão de Munchausen. No enredo, Parnassus (Christopher Plummer) é um homem que viveu mais de mil anos graças a um pacto feito com o diabo. A história começa do ponto em que este, interpretado de maneira irônica por Tom Waits (aquele músico ao qual Scarlett Johansson dedicou seu primeiro disco), vai até o protagonista para cobrar a dívida de uma velha aposta. Ele tem direito à guarda de Valetina (Lily Cole), sua filha. Quando o homem se desespera, tromba inesperadamente com Tony (Heath Ledger), numa situação das mais incomuns. Em meio ao desespero de pai, Parnassus acredita que talvez o jovem desconhecido possa salvar sua filha.  

    O filme ganhou uma nova dimensão, em termos de publicidade, depois da morte de Ledger quando ele havia gravado apenas 1/3 das suas cenas. A obra ficou rotulada como sendo o seu último filme, o que gerou atraso na finalização e uma comoção em torno da produção. Seu papel também foi interpretado por Johnny Depp, Jude Law e Collin Farrel, com uma solução extremamente inteligente do roteiro para a delicada situação. As aparições dos três são bem articuladas, de modo que mesmo um espectador que não soubesse da morte do ator não notaria a sua ausência. E, o mais importante, nenhum dos três deixa "a peteca cair". O personagem Tony tem uma continuidade e a linha dramática dele é a mesma, durante todo o filme.     

     
    Com relação à parte técnica, Gilliam é extremamente cuidadoso. Os efeitos são exagerados na medida certa. As paisagens fantásticas são todas a serviço do psicodélico enredo. Nenhuma delas está ali à toa, apenas para nos deixar boquiabertos. Todas, desde a mais simples até a mais fabulosa, tem uma mensagem a passar. Elas formam um par perfeito com a trilha sonora, seja a instrumental, que cria um clima fantástico que nos deixa tensos e angustiados, ou a criada especialmente para o filme, com algumas das letras inclusive elaboradas pelo próprio diretor ("We Love Violence" e "We Are The Children Of The World", esta última uma clara paródia a We Are The World, de Michael Jackson).

    Merece destaque também o jeito de Gilliam filmar, com um uso constante do zoom out com plongée várias vezes ao longo da produção, criando desoladas perspectivas. Quanto aos diálogos, são recheados do ácido humor inglês, bem característico dos textos do diretor, que fez o roteiro em parceria com Charles McKeown, com quem não trabalhava desde As Aventuras do Barão de Munchausen. Os personagens são sarcásticos, politicamente incorretos, ironicos, e, acima de tudo, humanos, tendo suas fraquezas exploradas a exaustão, especialmente pelo diabo. Interessante observar que Waits dá a esse personagem tão clichê uma perspectiva bastante interessante, dando-lhe um ar blasé, engraçado e ordinário ao mesmo tempo.

    O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus é uma história singular filmada de forma bem feita, o que explica as indicações ao Oscar 2010 nas categorias Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino. Mistura aspectos auto-biográficos de Gilliam a influências de Salvador Dalí. É uma colorida e incisiva crítica a todos aqueles que desejam realizar suas vontades a qualquer preço. É uma obra que oferece perspectivas desafiadoras e que deve ser assistida por motivos que vão muito além da morte de Ledger. Essa triste perda não deve atrapalhar a percepção do público a respeito do filme.

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    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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