• O mito de Meng Jiangnu em A Mulher Que Chora, de Su Tong

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    Ícone da literatura chinesa tem sua obra A Mulher Que Chora lançada no Brasil

    De todas as línguas, talvez o Madarim seja a que sofra as mais contundentes investidas de um governo. Fruto de evoluções e instrumentalizada na tentativa de unificação nacional, a língua “oficial” da China perpetua por séculos de vicissitudes e transformações.

    Tão complexo como entender a cultura e sociedade de um país, aprender sua língua pode ser tarefa árdua e digna de nota. Na tentativa de transpor para o português, e apoiando-se em versão inglêsa da obra original, a editora Cia das Letras lança há pouco A Mulher Que Chora, obra emblemática do não menos notável escritor chinês Su Tong.

    Embora seja ícone da literatura de seu país, o autor ficou famosos por ter sua obra Lanternas Vermelhas levada ao cinema por Zhang Yimou, inclusive concorrendo a uma estatueta do Óscar.

    Pois bem, para compreender o romance, primeiro é necessário saber que em verdade trata-se de uma leitura moderna do mito de Meng Jiangnu, uma história popular da China contada há anos. A fábula narra episódio sobre a construção da Grande Muralha, através de uma história de amor e personagens burlescos, imersos na topografia chinesa. Há aqui situações arquetípicas, fantasmas, situações de morte e vida, além de um retrato político-cultural da história do país.

    Em A Mulher Que Chora, Su Tong joga em primeiro plano a relação entre Binu e Wan Quiliang. Ela, uma típica jovem habitante de uma aldeia chinesa, e ele um jovem desemposado levado abruptamente para auxiliar na construção da Grande Muralha, assim como demais homens do país que encontra-sem em saúde perfeita.

    Ainda ligada fortemente ao seu jovem marido, Binu decide atravessar a China em direção à perigosa localidade para qual seu marido foi levado, apenas para lhe levar agasalhos de proteção contra o frio. No primeiro momento a jovem é tida como louca e ostracizada por outras mulheres de sua aldeia. Parte rumo ao seu destino tendo de início um sapo como companheiro, o qual acreditava  ser re-encarnação da mãe de um trabalhador da Muralha. 

    A partir daí, Binu perpassa por diversas regiões de seu país, encontrando tipos quase sempre perigosos e situações que colocam à prova seu objetivo inicial. A propósito, aqui vemos cenas típicas de um filme de Tim Burton, como um abrigo de homens-cervos, prontos para matar a jovem moça. Encontram-se também retratos de uma cultura prioritariamente machista e rebuscada por intrínsecas relações políticas, contra as quais, mesmo a mercê de seu destino, Binu luta.

    Sobre o aspecto formal, A Mulher Que Chora se articula como uma prosa de relativa extensão. O texto é fluído e dotado de particularidades linguísticas e dialetos. Justamente neste ponto, talvez a tradução da Cia das Letras, já em segunda mão a partir da versão inglesa, tenha perdido por não apresentar notas de rodapé ou simplificar composições e aspectos semânticos. A apreciação pelo aspecto gramatical, de composição, é quase nula sendo relegado ao leitor apenas a possibilidade de degustar o aspecto histórico da fábula. É como se Su Tong pudesse ser substituído por qualquer escritor por não ter uma tradução direta.

    Ao final das contas, A Mulher Que Chora pode ser encarada como uma obra curiosa e de aprazível leitura, não por aspectos literários, mas por sintetizar o universo global e particular de uma cultura tão rica e cheia de notórios contos populares.

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    Confira mais informações sobre a obra pelo site da editora Cia das Letras.

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