• Viggo Mortensen é um pai comovente em A Estrada

    A_Estrada

    Dirigido por John Hillcoat, filme trata da temática apocalíptica de forma sensível e impactante.

    O diretor australiano John Hillcoat, com poucos filmes e muitos vídeo-clipes em seu currículo, acertou em cheio quando decidiu fazer parte de A Estrada, filme baseado no livro vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção do autor norte-americano Cormac McCarthy. Isso porque ele presenteia aos seus espetadores com uma ficção científica que foge aos clichês do gênero e é, ao mesmo tempo, perpassada por grande sensibilidade.   

    A primeira diferença entre A Estrada e outras produções apocalípticas é o fato de sua proposta ser incrivelmente mais simples e crível. Não há mundo a ser salvo, doenças a serem curadas, bíblias a serem levadas ou qualquer mirabolante propósito além do básico: sobreviver. É esse objetivo, que pode parecer entediante para alguns, que norteia as ações dos protagonistas, de uma forma impactante. Eles andam pela estrada, sempre rumo ao sul, na esperança de encontrar… comida. Sim, é apenas disso que eles precisam. E o filme conta suas histórias e os percalços que enfrentam no caminho.

    Outro fato que faz com que esta obra seja realmente diferente é a forma como ela concebe o fim do mundo. Não há alienígenas, robôs nem anjos do apocalípse querendo acabar com a raça humana. Também não há lições de moral através de diálogos de exaltação religiosa. Na narrativa, como o mundo terminou é apenas um detalhe de pouca importância. Relevante mesmo é manter-se vivo da forma como dá num ambiente inóspito, frio e permeado por catástrofes naturais nada extraordinárias como incêndios e terremotos. 

    Toda a obra é bastante verossímel em seus detalhes: a aparência do mundo destruído, as ações que os personagens tomam, seus conflitos existenciais, o questionamento religioso. Como manter a humanidade em meio a tanta tristeza? Como não ceder à tentação de se tornar um dos "caras maus"? Conseguimos facilmente nos identificar com essas questões e, muitas vezes, refletimos sobre como agiríamos na situação X ou Y que A Estrada apresenta. Não é clichê nem forçado. O filme como um todo é de um realismo quase assustador.

    Viggo Mortensen é um pai que caminha com seu filho de dez anos (Kodi Smit-McPhee) pelas estradas, rumo à costa norte-americana, em busca do mar e de uma possível salvação que possa vir dele. No caminho, enfrentam uma série de perigos oferecidos pelo mundo pós-apocalíptico, no qual sobreviver é um grande desafio. 

    Hillcoat nos oferece uma perspectiva interessante. As paisagens devastadas ganham os ângulos abertos que merecem. Mas o foco do filme não é a destruição e sim os personagens. Por isso, há uma atenção especial neles. Quero dizer, o figurino já conta-nos muitas coisas. Sua precariedade vai além das roupas, inclui cabelos imundos, rostos sujos e unhas grandes e imundas. E quando eles passam pelos locais abandonados, sempre há closes expressivos no que está ao redor deles. São esses os detalhes que nos contam as histórias desses lugares. Diálogos explicativos são desnecessários. Apenas as imagens em foco formam um quebra-cabeça inteligente, que atende a nossa curiosidade e respeita nossa capacidade de juntar as peças. 

    A trilha sonora instrumental é impecável. As canções "casam" bem com o desespero da história e ditam, em muitas das cenas, o estado de espírito dos personagens. Nick Cave e Warren Ellis conceberam-na com sensibilidade. E, mais uma vez, Hillcoat retoma sua profícua parceria com Cave. 

    Destaque para a atuação de Mortensen, muito comovente e realmente impactante. Ele tem uma relação muito tocante com seu filho, do qual cuida como o último bem que lhe resta. É um pai afetuoso, crível, que se desespera ante qualquer possibilidade de perdê-lo. Em alguns momentos do filme, sua interpretação nos deixa em sérias dificuldades para segurar o choro. Percebe-se que se esforçou muito para dar vida a esse pai. Merecia pelo menos uma indicação ao Oscar de Melhor Ator em 2011. Também merece ser mencionada a participação de Robert Duvall, pequena, mas muito marcante.

    Se para alguns o tema já tão desgastado da extinção da humanidade não resulta em nada a não ser obras cinematográficas que quase ofendem a inteligência, para outros a temática ganha fôlego novo e pode ser explorada por aspectos simples, que nem por isso deixam de nos fazer refletir e nos emocionar. Vamos torcer para que o panorama novo que Hillcoat nos oferece se transforme numa nova tendência e que, daqui para a frente, possamos dar a importância devida aos questionamentos apocalípticos de nossa natureza, que sempre existiram e permanecem nos acompanhando.

    detalhes

    A Estrada
    Dirigido por John Hillcoat (1h 51 min)
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    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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