A arte do gueto
Por: Caio Campos, em Colunas, Dublês de Poetas | Nenhum comentário

Se a arte depende da dor e do caos, o entretenimento depende exclusivamente do tédio. O entretenimento tem compromisso apenas com a diversão, tomando a atenção e entretendo.
Desde os tempos dos reinados e dos primórdios, a diversão vem do gueto. Os nobres sempre buscaram novas sensações de êxtase, de surpresa. Os bacanais e as grandes orgias não duram o dia inteiro, ninguém é de ferro. Através do humor dos bobos da corte, ou das batalhas dos gladiadores errantes, que arriscavam suas vidas nas arenas para entreter a nobreza, fazer entretenimento é algo complicado e de muito risco.
O gueto criou o Jazz. A elite gostou e comprou. Comprou o Jazz e o gueto. O Jazz saiu do gueto, e o que sai do gueto perde o valor e se banaliza. É comercializado e vendido com uma indumentária adequada para todos os tamanhos e classes.
O gueto se revolta contra a própria criação, volta e se recria. Inventa o Blues. Mas o Blues também é tomado de assalto pela elite, também vira produto. Não adianta chorar, o Blues e o Jazz agora fazem a elite sorrir. O Rock, o Funk e o Rap também seguiram esse caminho e essa lógica. Tudo vira produto rapidamente e perde sua aura conceitual.
No entanto é preciso sair dessa lógica, dessa estagnação. É preciso driblá-la. Coube a classe média criar um novo conceito. A atração pelo trash? Um gosto pelo estranho e exótico? A busca é pela aura própria, a busca continua sendo por uma ideologia. Uma identidade que o gueto vendeu. Recebemos, então, essa herança.
Um pouco de revolta, e um pouco fora de um contexto que legitimasse uma revolução cultural, a classe média passou a eleger seus representantes para tirá-la da monotonia. Tanto a plebe como a elite viraram alvos. A internet ajudou? Claro. A internet interferiu em tudo. Modificou tudo. Não se pode analisar nada sem o impacto cultural da internet. Mas vou me ater a isso e desprezar, aqui, a menção óbvia desse impacto.
O movimento do Bizarro
Surgem nos anos 2000, ícones bizarros da nossa cultura. Como tem pouco material novo, e a criação de algo novo demanda um tempo, que a ansiedade e o tédio humano de hoje não suportam, porque não queremos e não podemos esperar. O desejo pelo diferente aumenta. Com isso a extravagância, a paródia, a trollagem e o plágio passaram a dividir as novas criações.
Surgem os anônimos famosos e webcelebridades. O Lucas Brito, o Lucas Celebridade é uma delas. Com uma aparência longe da aceitável, pousa em seu blog de shortinho e faz ensaios eróticos caseiros. Faz pela extravagância? Sim. Mas por que ele é consumido? Porque o erotismo precisa entreter mais do que ser real. A realidade é lenta e cansativa às nossas retinas.
A paródia invertida
Salvador Dali não precisaria pintar um bigode em Monalisa. Nem Duchamp precisaria desenhá-la caída no chão de pernas abertas. Não precisamos mais da paródia genuína. Basta colocar o Lucas Celebridade num ensaio fotográfico e está consumada a paródia invertida.
O que dizer dos artistas que nascem com um gênero e vendem esse conceito para gente? Precisamos desenhar um bigodinho neles. Precisamos violentar a sua imagem.
Na falta de direção, na impaciência de ruminar o porvir, vamos pegar o que já está pronto e entrar na moda da intervenção. Não como fizeram Andy Warhol ou Basquiat, a intervenção agora é moral.
Quem não se lembra dos programas do Sergio Mallandro, com seu quadro "A Porta dos Desesperados", que assustava até os adultos. Hoje o Mallandro é cult. É ídolo trash da juventude.
O que dizer dos artistas que nascem com um gênero e vendem esse conceito para gente? Precisamos parodiá-los também. E ao contrário de Falcão e Tiririca que já nascerão bizarros, ou do Roberto Carlos que está num processo de transformação. Recriamos o Sidney Magal e Reginaldo Rossi.
Então dissemos a esses artistas: "olha, vocês são bregas, bizarros e por isso tem que se apresentar assim. Não nos engane e nem se enganem mais". E assim, Sergio Mallandro, Reginaldo Rossi e Sidney Magal vão ao palco para nos fazer rir, para nos entreter e divertir.
O renascimento da tragédia: Troll
Eu defendo muito o conceito que a volta do grupo de pagode Molejo tinha quem vir com essa roupagem. Se para alguns o Molejo é o pagode tosco que não sairá do gueto, para outros eles já são cults e representam o que os artistas da paródia invertida, do parágrafo acima, são. Sem querer entrar no gosto musical. Queremos apenas nos divertir. Eu colocaria o Chico Buarque na prateleira de “música para pegar mulher”, por exemplo.
Eu gosto do Molejo, eles são engraçados e eu até iria num show deles caso todos entendessem a piada. Mas eles continuaram no gueto. Não tiveram a sacada de fazer parte desse movimento bizarro. E fazerem espetáculos para uma plateia cult pagar caro e se divertir.
Conceito explicado, agora todos podemos rir e ser feliz com o Molejão sem sermos agredidos por um fã do gueto, nem por um fã de Chico Buarque.
A paródia invertida nada mais é que uma provocação. Precisamos nos entreter. Matar alguns mitos entediantes que permeiam nossa cultura. E se isso não te diverte, tem show do Roberto Carlos todo final de ano. Tem carnaval, futebol e azara zara zara zaração.
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