• Alice no País das Maravilhas

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    Para os fãs de Burton e da personagem de Carroll, filme decepciona.

    Desnecessário apresentar Tim Burton. O presidente do júri de Cannes deste ano tem em seu currículo uma série de filmes que marcaram época e lhe renderam fãs em todo o mundo. Só para citar alguns, temos: Beetle Juice, Batman (1989), Edward Mãos de Tesoura, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, Peixe Grande, A Fantástica  Fábrica de Chocolate, Noiva Cadáver e Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da rua Fleet. Apesar de ter uma legião de cinéfilos que são fanáticos por suas obras, Burton nunca foi um campeão de bilheteria. Especialmente pelo tom soturno que praticamente todas elas tem.

    Assim sendo, principalmente para os fãs desse diretor cujo trabalho emociona, choca e impacta, Alice no País das Maravilhas é decepcionante. Temos na tela um claro conflito de interesses entre um cineasta e um grande estúdio de cinema. E temos um filme que foi feito num prazo apertado, em 2D, e posteriormente reprocessado pela Disney para ser exibido em 3D. E não é o mesmo 3D de Cameron. Os óculos são diferentes e a qualidade da tecnologia é, nitidamente, inferior. Fica evidente que as cenas são pouco exploradas em três dimensões (principalmente para quem assistiu Avatar), muito provavelmente devido às condições em que foi feito.

    Apesar disso, esse 3D dá conta do recado. As cenas são lindas, visualmente encantadoras, especialmente aquelas em que predomina a tristeza e destruição. Aqui e ali vemos pequenas pinceladas de Burton, seja no início do filme, com a soturna trilha sonora, seja na caracterização de alguns personagens, especialmente a Rainha Vermelha, o Chapeleiro e Stayne, o Valete. Até mesmo a Alice, quando garotinha, tem uma maquiagem mais carregada nas olheiras, uma marca dos protagonistas do diretor.

    Porém, mesmo com todos os esforços, Burton não consegue fazer milagre com um roteiro tão ruim e tantas limitações artísticas. Pode-se dizer que Linda Woolverton é, em grande parte, a responsável pela falta de "sal" que o filme tem. A roteirista de A Bela e a Fera, Rei Leão e Mulan é extremamente respeitada na Disney porque possui boa parcela da responsabilidade pela popularidade desses filmes e pelo que isso significou para a empresa, que já estava há bastante tempo sem lançar uma animação de sucesso quando, em 1991, A Bela e a Fera fez a empresa "ressurgir das cinzas". Daí o que predomina no filme é, obviamente, o trabalho dela. Mas aí então cabe perguntar porque escolheram alguém com o perfil dele para dirigir este filme. A Disney tinha inúmeras opções. Se era para impedí-lo de dar uma perspectiva interessante a uma história já tão conhecida, para que incluí-lo no projeto? Difícil saber.

    No enredo, temos uma Alice adulta (Mia Wasikowska), ainda com olheiras, 13 anos depois de ter visitado o país das maravilhas pela primeira vez. O roteiro faz uma mistura de elementos do clássico livro de Charles Lutwidge Dodgson (Lewis Carroll) As Aventuras de Alice no País das Maravilhas com sua sequência Alice através do Espelho, incluindo outra obra de Dodgson, o poema Jaguadarte. Mas a história do filme, construída em cima do clássico, é diferente. Alice está prestes a ser pedida em casamento e, quando vê o coelho branco de casaco, decide seguí-lo. Ela cai novamente num buraco, e, segundo a ideia do filme, repete a sequência inicial já conhecida, de crescer e encolher. A partir daí há todo um questionamento: seria essa a mesma Alice de antes? A crise existencial da personagem é intermediada por uma ideia de destino e de seu papel naquele mundo paralelo, que seria o de uma guerreira, com toda uma concepção feminista por detrás dessa ideia. 

    Há algumas pequenas homenagens aos fãs dos livros de Carroll durante todo o filme, perceptíveis apenas para estes. Por exemplo, quando o Chapeleiro (Johnny Depp) canta Twinkle, Twinkle, Little Bat à mesa do chá ou quando a Rainha Branca entra na cozinha e tem um cozinheiro maluco lá, jogando pratos para todos os lados, clara referência a um dos capítulos da história original, onde um cozinheiro prepara uma sopa apimentada, que faz a protagonista espirrar muito.

    Merecem destaque o trabalho de Helena Bonham Carter e de Johnny Depp, os dois com interpretações medianas, mas que são os únicos que conseguem dar alguma graça ao filme. A Rainha Vermelha (originalmente chamada no livro de Rainha de Copas) é um personagem construído para ser antagonista, mas que não deixa de levantar em nós certa simpatia, por causa da solidão em que vive. Claro que isso se deve a seu gênio horrível e ao seu jeito peculiar de governar. Ainda assim, ela é muito mais engraçada que a já desgastada Anne Hathaway, que deveria prestar mais atenção nos personagens que escolhe para interpretar. Johnny Depp é um Chapeleiro, comedido, com nuances interessantes, que intercalam loucura, alegria e melancolia. Eu até arriscaria uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Mas estamos em abril e ainda é muito cedo para se anteceder esse tipo de coisa.

    Mas não há porque se iludir. A expressiva bilheteria de Alice no País das Maravilhas resulta de trabalho bem concebido e milionário de publicidade. É um filme especialmente construído para aqueles que gostam de imagens bonitas. O enredo fica em segundo plano. Apesar de agradar a alguns, não é trabalhado da forma como deveria ou poderia ter sido. O universo nonsense de Carroll fica reduzido a um conflito maniqueísta bobo, que não traz nenhuma surpresa ou emoção. A tentativa de explicar o que foi construído para ser inexplicável resulta em fiasco. Não se espante se você dormir durante a projeção.

    detalhes

    Alice no País das Maravilhas
    Dirigido por Tim Burton (1h 48 min)
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    autor

    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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